Sábado, 28 de Junho de 2008
São Mamede

São Bernardo e a Virgem, Alonso Cano, Museu do Prado

 

A 24 de Junho, quando Portugal em peso faz fogueiras a São João, praticamente só em Guimarães se celebra aquilo que, desde os Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses, é considerado o primeiro episódio da história portuguesa: a Batalha de São Mamede.

 

“Na era de 1166 [ano de 1128], no mês de Junho, na festa de S. João Batista, o ínclito Infante D. Afonso, filho do conde Henrique e da rainha D. Teresa, neto do grande imperador da Hispânia, D. Afonso, com o auxílio do Senhor e por clemência divina, e também graças ao seu esforço e persistência, mais do que à vontade e ajuda dos parentes, apoderou-se com mão forte do reino de Portugal. Com efeito, tendo morrido seu pai, o conde D. Henrique, quando ele era ainda criança de dois ou três anos, certos [indivíduos] indignos e estrangeiros pretendiam [tomar conta] do reino de Portugal; sua mãe, a rainha D. Teresa, favorecia-os, porque queria, também, por soberba, reinar em vez de seu marido, e afastar o filho do governo do reino. Não querendo de modo algum, suportar uma ofensa tão vergonhosa, pois era já então de maior idade e de bom carácter, tendo reunido os seus amigos e os mais nobres de Portugal, que preferiam, de longe, ser governados por ele, do que por sua mãe ou por [pessoas] indignas e estrangeiras. Acometeu-os numa batalha no campo de S. Mamede, que é perto do castelo de Guimarães e, tendo-os vencido e esmagado, fugiram diante deles e prendeu-os. [Foi então que] se apoderou do principado e da monarquia do reino de Portugal.” (in "Dom Afonso Henriques", José Mattoso, Círculo de Leitores, 2006, página 45))

 

Onde seria, ao certo o campo de São Mamede, não o sabemos. Diz a tradição que foi no Campo de Ataca onde hoje se ergue um monumento de granito ao acontecimento, a que voltarei mais tarde.

 

Campo de Ataca, São Torcato, Guimarães - foto minha em Creative Commons

 

Mas hoje queria apenas falar de São Mamede. O Santo que, involuntariamente, se associou ao nascimento de uma Nação. Duvido que houvesse aqui simbologia intencional, mas, como diz Fulcanelli no seu "Mistério das Catedrais", não existem coincidências que não sejam reveladoras dos mistérios mais profundos. Não sei se acredito nisso, mas não deixa de ser um exercício fascinante. São Mamede foi um santo lactante e isso é deveras interessante, tanto pelo tabu que em relação ao assunto hoje se faria (um santo que dava de mamar a crianças é algo de altamente suspeito hoje em dia e resultaria em acusação de crimes vergonhosos). De facto, a história de São Mamede é de tal maneira constrangedora para a mentalidade e moral actual, que a própria narrativa, claramente mítica e alegórica, foi sendo amenizada ou, pelo menos, expurgada da versão tradicional e popular que, ainda seguindo o pensamento de Fulcanelli, será a versão mais reveladora dos mistérios ocultos. Segundo esta, São Mamede (Saint Mammant, versão afrancesada de San Mamante, em Italiano; apesar de hoje se utilizar, em França, a versão Saint Mammès) terá encontrado um bebé abandonado e, não tendo com que o alimentar, recebeu a graça divina da lactação. A  história mais ortodoxa refere apenas a vinda de um anjo que trazia leite e mel (associação muito bíblica, de facto) a quarenta crianças que com ele estavam condenadas a morrer à fome. Seja como for, tornou-se no santo padroeiro da amamentação, o que é deveras curioso, sendo homem e não mulher. Note-se que Aristóteles considerava que os fluidos corporais, como o esperma e o leite eram produzidos no organismo, de forma semelhante, a partir da cocção do sangue. As mulheres nunca seriam capazes de produzir esperma (que Aristóteles considerava um fluido de grande perfeição, vá-se lá saber por que razão...) porque o seu calor corporal seria sempre insuficiente para a formação de tão exigente emanação. Já o leite, que seria um tipo de esperma imperfeito, não exigia tanto calor, pelo que as mulheres o fariam facilmente. Mas a fúria misógina da Ciência aristotélica vai ao ponto de nem sequer dar a exclusividade da produção de leite à mulher - de facto, o homem também tem mamilos, pelo que seria perfeitamente natural que, em certos casos, produzisse este fluido nutritivo.

 

São Mamede é um exemplo de como as metáforas religiosas do cristianismo, prenhes dos mais pagãos dos significados, podem ser tão ou mais fascinantes que as mitologias greco-romanas, pelo simples facto de que estas mitologias estão ainda vivas e em construção na mente colectiva do povo, ainda que em curso de desaparecerem, agora que, estando  tudo na Internet, não vale a pena memorizar. Sobre a memória e sobre o acto de amamentar falarei em próximos artigos.

 

Daqui, resta reter que o Santo que presidia ao local onde se deu, de facto, o desmame de Afonso Henriques, não era mais que o santo da amamentação. Curioso.

 

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publicado por Manuel Anastácio às 15:00
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