Terça-feira, 24 de Junho de 2008
Fábulas de Esopo: A parte do leão

Foi o leão em caçada

C’ o lobo e outros que tal,
Sujeitos à sua alçada.
A raposa e o chacal
Detiveram na empresa
Comprometimento igual.
Procurando com destreza,
Um veado encontraram
Que logo se tornou presa.
Comprazidos, argumentaram
Como o iriam cindir,
Mas pouco mais conversaram
Ao ouvirem proferir
Estas ordens do leão:
“Há que em quatro dividir
a carcaça em rectidão.”
Fizeram-no de bom grado,
Procedendo à divisão
Depois do bicho esfolado.
O leão que tudo vira,
Tudo deu por aprovado.
Autoridade transpira
Enquanto se pronuncia:
“O quarto que aqui se estira,
Convém-me por regalia,
Que sou rei dos animais.
O segundo, todavia…
Também me cabe, ademais,
P’la responsabilidade
Do poder dos tribunais.
O terceiro, na verdade,
Tendo em conta o meu trabalho
Meu é, sem perplexidade.
O quarto quarto não falho
Nestas minhas pretensões:
Transformarei num frangalho
Quem ignorar as razões
- que me isento de ditar –
Que unem as quatro porções
Em meu exclusivo jantar.”
Baixando o focinho ao chão,
Sem queixas apresentar,
Permitiram ao leão
Consolar o apetite.
A zorra sem pretensão
De esperar outro convite
Sai dali envergonhada
E entre dentes se permite
À sentença confirmada:
“Hão-de os grandes te pedir
Os esforços da caçada,
Que nunca irão dividir,
Em equidade e justiça,
O despojo que acudir
Frente à sua vil cobiça.”

(versão de Manuel Anastácio)

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 02:08
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4 comentários:
De Cris a 24 de Junho de 2008 às 03:21
Gosto de me "perder" por aqui.
Basta-me meter um cantil na mochila, para que a água se mantenha fresca, e venho. São "Parques Naturais", alguns dos textos onde me detenho, me sento. Noutros, reencontro aldeias, vilarejos da Serra, que me trazem sorrisos, vontade de correr para o campo, atrás da casa da Avó Virgínia, e, ficar à procura duma "loca" e meter nela, com jeito de criança, uma palhinha.

Noutros, não falo nada.
Tudo se apaga,e, o céu, abre-se numa imensa tela, e, revejo um filme...
Gosto de me "perder" por aqui, por não me preocupar com mais nada, pois que mais tarde eu sei que volto a encontrar[-me], mas, enquanto por aqui paro, me perco, eu fico, deliciosamente encantada a encontrar tanta coisa, que,julgava eu,havia perdido.

Beijo e um cheirinho a manjerico.:)

Desta tua versão, apetece dizer: - Quem dera ter sido eu a escrever "isto"!

Cris


De Manuel Anastácio a 24 de Junho de 2008 às 19:29
Obrigado, Cris. Fico deveras encantado por ter tal efeito evocativo. Um beijo e um cheiro a manjerico para ti também.
De Ângelo Eduardo Ferreira a 24 de Junho de 2008 às 15:10
Muito obrigado pelo comentário. Um abraço.
De Manuel Anastácio a 24 de Junho de 2008 às 19:27
Pena que o comentário se deva a tal razão. Abraço.

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