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Domingo, 22 de Junho de 2008
Inferno, de Olga Roriz

Excertos de "Não Destruam os Mal-me-queres", de Olga Roriz.

 

A vigésima segunda produção da Companhia Olga Roriz, "Inferno", teve a sua estreia nacional, ontem, no  Palácio Vila Flor, em Guimarães, com coreografia, figurinos, direcção e selecção musical de Olga Roriz, também co-autora do cenário, com Pedro Santiago Cal,  e desenho de Luz de Clemente Cuba.

 

Não tive o prazer de ver a produção anterior, "Paraíso", que, tanto quanto sei, também se desenvolveria num contexto típico do musical contemporâneo que consiste em pôr a cantar quem não é cantor. O que não se chega a ter em técnica interpretativa, ganha-se em eficácia expressiva. E quando se fala de Olga Roriz fala-se disso mesmo. Eficácia expressiva. E, neste espectáculo, apesar de se passar no recinto fechado de um campo de concentração que, mais tarde, é transformado numa sala de Cabaré, bastando para isso forrar (ou almofadar?) as redes com cortinas, é o humor que domina a maioria do espectáculo. Os momentos alternados de vazios e cheios, luz e sombra, espasmos e introspecção contemplativa estão todos impregnados de humor e de referências facilmente digeríveis por um público que não esteja habituado à dança contemporânea, permitindo níveis de leitura que vão do mais superficial e bem humorado espectáculo de café concerto às mais profundas significações do simbolismo, da alegoria e, ainda mais fundo, à ausência das próprias significações. Há um momento chave do espectáculo, em que uma das personagens, com ademanes de futilidade, aproveita para exibir a sua capacidade interpretativa ao mudar o sentido a um mesmo pequeno conjunto de palavras, mudando apenas a ordem das mesmas e a forma como o corpo e a voz as profere. Assim é para este espectáculo, onde as significações reconhecíveis (e apaziguadoras para a inteligência de quem costuma sair dos espectáculos dizendo que não percebeu nada) perdem a sua função de significar, tendendo, simplesmente, a ser. A linguagem, pura invenção, pretende esbater-se na existência concreta dos que "morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem". Se há aqui um inferno, é o inferno dos que em lado algum se classificam, e em lado algum conseguem assentar os pés. As tentações são criptica e alegoricamente representadas ao modo de Hieronymus  Bosch, como uma mistura concertada de caos. A tentação é concretizada em pecado, mas deixando de existir linguagem, o castigo divino deixa de fazer sentido - Deus não castiga. Apenas expulsa as almas do Paraíso para a sua salvação, desligando-as da sua natureza verbal e remetendo-as para a sua condição de eterno desejo. Se o Paraíso é a satisfação plena na luz do significado de Deus, o Inferno é, aqui, o puro desejo aceso na solidão por onde apenas espreitam paraísos artificiais que se alimentam da própria insatisfação. Uma das almas chega mesmo a ligar-se e a desligar-se à corrente eléctrica a um ritmo onde se vai acentuando o desânimo provocado pela falta dessa ligação ao estímulo exterior, falso, artificial, mas sempre potenciador do desejo. Aqui não há acusação, nem crítica. Não há moral, mas também não há a falta dela.


As almas que entram e saem deste campo de concentração - logo, apenas campo de concentração na sua forma, não na função de privação de movimento físico ou espiritual - dispõem-se num espectro de formas materiais que se diluem, mas nunca no sentido da hibridização, já que os seres híbridos resultam da mistura de opostos ou antónimos. Na ausência da linguagem, deixam de existir opostos. A luz e a sombra coexistem enquanto formas variáveis e mutáveis da mesma coisa. A solidão, por exemplo, não tem antónimo. Não no Inferno. Não na anulação das possibilidades provocadas pelo desejo que só a si mesmo se quer alimentar.

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publicado por Manuel Anastácio às 10:37
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