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Sexta-feira, 20 de Junho de 2008
Pornografia e erotismo

Cena de "Tampopo" de Juzo Itami.

 

Esta cena de um dos meus filmes preferidos (que no Brasil recebeu o nome ridículo de "Os Brutos também comem Spaghetti")  é o exemplo perfeito que posso utilizar para diferenciar erotismo de pornografia. Há quem diga que, em certos casos, os dois campos se confundem. Contudo, não é assim. O erotismo existe para excitar a alma, fazendo referência ao corpo e ao prazer. A pornografia existe para excitar o corpo. Simples. Assim, as fotografias da Luciana Abreu, da Ana Malhoa e das Coelhinhas da Playboy, são pornográficas porque não têm qualquer intenção espiritual, num sentido lato - reparem, contudo, que não estou a fazer qualquer juízo de valor em relação à pornografia. Estou apenas a fazer um pequeno exercício de categorização. Este excerto, contudo, que chocará alguns dos meus caros visitantes pelas mais diversas razões (pelo que não deverão visioná-lo a não ser que tenham o espírito aberto) é um exemplo de poesia visual e sonora que, como as ostras, deve ser consumido cru. Luchino Visconti bem pode roer-se de inveja por Itami ter conseguido fazer com a música de Mahler a mais perfeita das conjuções entre o mundo abstracto dos sons e do ritmo da montagem e a carnalidade figurativa de cada plano. Claro que "Morte em Veneza", de Visconti - a obra cinematográfica que celebrizou a peça musical que se ouve também aqui - é uma obra completa e coesa, enquanto que "Tampopo" é um conjunto de curtas-metragens unidas em si apenas por um fio condutor temático, e umas mais perfeitas que outras. Também é certo que "Morte em Veneza" não é um filme erótico, porque o fascínio pederasta da personagem principal não é explorado na sua vertente sexual, mas como elemento corrosivo de um corpo que já está em decomposição quando segue em direcção ao Lido. O erotismo é sempre sobre a vida. Não existem elegias eróticas.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 01:25
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8 comentários:
De Gerana a 20 de Junho de 2008 às 02:58
Belíssima cena, puro erotismo. Reparou que se pode tecer um certo paralelo com a cena de Um beijo roubado ? Concordo que o título em português BR é ridículo. Em tempo, dentro, ainda que saindo um pouco do mesmo tema: o título em português EUR "O sabor do amor" é mais interessante do que "Um beijo roubado". Mas, seja justo, veja se "O Morro dos Ventos Uivantes" não é um título mais belo do que "Monte dos Vendavais"?
Uma curiosidade: o livro de Thomas Mann, A montanha mágica (português BR), que traduzido literalmente deveria ser O albergue, tem que título em português EUR?
De Gerana a 20 de Junho de 2008 às 05:00
Quando escrevi "título do filme", no comentário anterior, foi porque, sendo minha praia a literatura, esqueço que em se tratando de filmes, eles têm nomes e não títulos. No meio do caminho sempre tem um livro, parafraseando, de uma maneira meio torta, meu Carlos Drummond de Andrade. Desculpas pela falha.
De Manuel Anastácio a 20 de Junho de 2008 às 07:34
Há, realmente, muitas parecenças com o beijo do filme "My Blueberry Nights".

O título (ou nome - uso tais palavras indiscriminadamente, perdoe-se-me a falta de rigor,
talvez porque veja os filmes e os livros de um forma algo personificada) "Um beijo roubado" tem o problema de revelar algo que pretende ser, de alguma forma, surpresa no filme.

"Morro dos Ventos Uivantes" é, de facto, um título muito mais expressivo.

O livro de Thomas Mann, "A montanha mágica", tem o mesmo título em Portugal.
De Menina_marota@sapo.pt a 21 de Junho de 2008 às 16:37
Muito oportuno este texto... e as invocações nele contidas.

Mas se a paixão oculta que gerou o enredo do filme, da obra de Thomas Mann é actualmente vista com outro olhar, tendo em conta sentimentos nefastos, este filme que invocas, seguindo a linha de alguns filmes e autores japoneses, onde o erotismo é quase uma aprendizagem sagrada, obrigatória ao longo dos anos, mostra exactamente aquilo que no meu entender, também, é o fio que divide o erotismo da pornografia e na tuas palavras :
"...O erotismo existe para excitar a alma, fazendo referência ao corpo e ao prazer. A pornografia existe para excitar o corpo. "

É assim também que eu vejo esta divisão...

Grata pela partilha.

Um abraço
De lili a 27 de Fevereiro de 2009 às 23:46
Roubei-lhe o este post por inteiro, com os devidos créditos, se houver algum problema diga-me.
De Manuel Anastácio a 27 de Fevereiro de 2009 às 23:57
De modo algum. Gosto de ser roubado! :)
De lili a 28 de Fevereiro de 2009 às 00:01
:) Ainda bem, é que tem textos tão bonitos, como por exemplo a críitica ao ''Sonata de Outono'', que só dá vontade de roubá-los.
De Manuel Anastácio a 28 de Fevereiro de 2009 às 00:35
Bem... faço tenção de escrever uma crítica ao "Sonata de Outono", mas ainda não o fiz - sendo um dos filmes da minha vida, não quero ser leviano na escrita de algo que tanto significa para mim. Usei apenas um excerto para ilustrar um texto pessoal, não crítico.

Obrigado pela opinião tão favorável. Já deixei comentário no LiveJournal, mas tive de postar como anónimo.

Beijo.

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