Quarta-feira, 18 de Junho de 2008
Queria eu.

"Inércia", curta metragem premiada com menção honrosa no  Fastforward Portugal 2006, Braga. De Margarida Carvalho, Pedro Guimarães, Pedro Tarroso e Sandra Carvalho. 

 

Dizia eu, no meu último artigo, que livros bons não é o mesmo que bons livros. O mesmo se aplica aos filmes - até porque eu considero os filmes como sendo uma categoria específica de literatura. Quando me dizem que o livro é melhor que o filme, fico imeditamente com o olho arregalado. Porque, para mim, a questão é: qual livro? E respondem-me: o livro original. Ah... quer dizer que há livros que não são originais? De facto, todos os livros são originais. Até os plagiados. E não há plágio que não seja, em si mesmo, acto criativo. Pierre Menard sabia-o muito bem.

 

Ora, um filme é sempre um livro original. Nada o prende ao "livro original" a não ser um conjunto de ideias que se foi transformando ao ser processado na cabeça do argumentista e, depois, na do realizador, para não falar dos outros co-autores, que se sucedem em camada, como os directores de fotografia que nunca acertam com a luz certa para, por exemplo, transmitir as sombras que encheram o meu "Monte dos Vendavais", cuja melhor adaptação, a esse nível, continua, ainda assim, a ser o Abismos de Pasión de Buñuel, apesar de se passar no México e não no Yorkshire. Sei que pareço entrar em contradição - por um lado, digo que o filme não tem de se agarrar ao livro porque isso é contra a própria natureza do acto criativo, por outro, queixo-me das adaptações por não captarem a atmosfera que, de qualquer forma, apenas existiu dentro da minha cabeça. Emiy Bronte, com certeza, imaginou as coisas tingidas de outra luz e outras sombras. O leitor é sempre um autor. A interpretação é sempre uma traição à ideia original - se é que houve uma ideia original.

 

Sintetizando: adaptar um texto ao cinema não é um acto de reescrita em suporte diferente do original, porque não há qualquer texto original. O texto escrito pelo autor, enquanto durou a escrita, foi sempre uma hidra monstruosa contra a qual se luta sem resultados apaziguadores. Cortamos aquela frase e nascem vinte a pedirem para serem escritas. Mas o escritor não as pode escrever. O texto tornar-se-ia insuportavelmente labiríntico - e ninguém o editaria - aliás, o próprio escritor não o conseguiria terminar. O pior momento no acto da escrita é aquele em que dizemos: já está. Não está como eu queria, mas tenho de o mostrar a alguém. Tenho de carregar no botão que diz "guardar", "gravar", "salvar". Publicar. E esperar que digam alguma coisa. Entretanto, voltamos a ler e dizemos: mas eu escrevi isto? Como é possível ter tão mau gosto?... Ou: que maravilha! De onde é que terei plagiado isto? Ao relermos, ao passarmos para o lado do público, descobrimos que o texto original está perdido,  ou, melhor, que será sempre original, a partir do momento em que é, de novo, lido.

 

Um filme adaptado de um livro é resultado dessa reencarnção do texto que apenas é original porque foi o ponto de partida de muitas histórias que, partilhando o nome, não partilham a substância.

 

O meu sonho é ser realizador de cinema. Ser um plagiador a quem ninguém retira o posto da autoria. Não tenho pretensões de ser argumentista. Sabe-o bem o José Eduardo Lopes, a quem prometi a realização de uma curta metragem baseada num conto dele no dia em que ganhasse o EuroMilhões ou no dia em que um mecenas me suportasse tais gastos - e mantenho a promessa. Um passarinho, porém, contou-me ao ouvido que nunca serei realizador de cinema. Há destas fatalidades na vida de uma pessoa. Posso vir a participar num festival como o Fastforward e brincar aos realizadores de cinema, mas nunca verei um filme meu listado no IMDB. Quando comecei a escrever este artigo era para falar no filme, bom (mas que não é um bom filme), "The Bucket List" ("Nunca é tarde demais", em Portugal). E, enquanto escrevia,  cortei essa cabeça à hidra e logo surgiram, em substituição, centos a gritar-me para iniciar aqui uma série de plágios (com a devida indicação a apontar caminho para o texto "original"). Seria um ersatz do meu desejo de filmar. E não tendo eu muito tempo para actualizar o blogue, sempre seria uma forma de atalhar caminho.

 

Queria eu.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:29
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