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Sábado, 14 de Junho de 2008
Menina Marota

Pormenor de ilustração de Carla Cristiana de Carvalho para "Menina Marota: Um Desnudar de Alma", de Otília Martel, 2008.

 

Menina Marota é um daqueles nicks que fizeram história na blogosfera portuguesa, na área da poesia. Infelizmente, os seus blogues estão congelados por decisão pessoal. A sua marotice não é, de facto, sinónima de costas largas. A marotice de Olília Martel é mais devedora da perversidade das personagens dos livros infantis da Condessa de Ségur que de livros de conotação erótica. Uma perversidade cândida, de simples desabafo, como pude constatar ao ter o privilégio de a conhecer pessoalmente, pouco antes do lançamento do seu primeiro livro, amanhã, na FNAC de Gaia, às desasseis da tarde, ainda a tempo de ver, depois, o jogo do Europeu - ainda que o jogo seja apenas para encher chouriços.

 

As ilustrações do livro estão a cargo da minha orquídea, a quem decidi surripiar (acima) um pormenor de uma das ilustrações do livro que, entretanto, já pode ser encomendado na internet. Tendo eu visto os desenhos a germinarem à minha frente, creio que estas iustrações, não sendo representativas de um modo específico de desenhar ou de um estilo que se afirme, são, indubitavelmente, uma síntese conceptual, pictórica e simbiótica,  das palavras que acompanham. O erotismo envergonhado das figuras que escondem o corpo ou a face, encolhendo-se, voltando-se de costas ou expondo o corpo de forma directa com a expressão teatral própria de uma estética escultórica barroca são, contudo, nada mais que o desenvolvimento e corolário da primeira ilustração que serve de frontispício (não falo da capa) e que remete infalivelmente para o estilo e estética do tempo em que existiam livros destinados às meninas (na altura em que os rapazes liam Emilio Salgari), com um pormenor de alguma lascívia latente, mas jamais expressa na sua nudez e carnalidade. Há como que um estilo floreado, com passarinhos e borboletas que, se não desenhados, são pelo menos pressentidos, e atrás dos quais se escondem os demónios do desejo e da complexa condição da mulher, enquanto ser humano de pleno direito enfrentando a força gravítica dos tabus que a encerram num quadro criptografado onde tudo é interpretado como eterna marotice, conducente à perdição do género masculino, mesmo quando à provocação sensual se contrapõe o anticlímax de um "Não me apetece!" tornado ambíguo por um, a negrito,  "E apetece-me tudo..."

 

O prefácio, da autoria de Fernando Peixoto, pretende desnudar a alma por detrás dos versos, mas discordo de algumas das suas afirmações. Não creio que a Menina Marota seja um alter ego de Otília, porque não há aqui a exposição poética de outra personalidade ou de um eu escondido ou secreto, mas uma eterna confissão às escuras de uma determinada concepção sobre o que seja a mulher. O eu poético não encarna numa pessoa dentro nem fora de Otília, mas num espaço que se plasma entre as suas pulsões e as pulsões colectivas, como se um pêndulo arrastasse o mundo para Otília e Otília o tentasse devolver, descobrindo, entretanto, que o mundo lhe deixou de pertencer a partir do momento em que o pode dar de volta. Porque o mundo é ingrato e, para nossa  desgraça, dá-nos tudo e recusa-se a receber o quer que seja da nossa boa vontade: recusa-se a receber a mais leve das nossas impressões digitais. E a mulher, geralmente conotada com o acto de recepção, no que à realização do desejo diz respeito, sabe que a devolução daquilo que tomou entre os braços é algo de impossível. O mundo recusa-se a mudar, mas o corpo continuará a denunciar cada impressão gravada a fogo e água pelo mundo, cristalizado e inorgânico, sobre a alma viva, orgânica, sensível e obrigada à adaptação perante as contrariedades e as frustrações, semelhantes à água que se divide e multiplica contra o rochedo do Senhor da Pedra, estática divindade que contempla em silêncio as orações profanas vindas do fundo do mar e do eterno feminino:

Quero ser
menina eterna
de azul vestida,
como o mar,
de asas de condor
e aprender a voar.


Leio-te…
mas será que te entendo?


Será que vês o interior
da minha alma
que reflecte o meu coração
que te lê, mas não te vê?

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 23:58
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9 comentários:
De Menina_marota a 15 de Junho de 2008 às 08:42
Olá!
Foi uma surpresa receber o teu email a dizeres que tinhas escrito algo sobre o meu livro e ainda mais fazeres referência à escritora russa conhecida por Condessa de Ségur que eu "devorei" na minha infância e adolescência... e que me colocou nesta manhã enevoada um largo sorriso no rosto.
Como esquecer a sua fabulosa fábula "Memórias de um Burro", que nos ensina, através da “voz” dos animais que todo o ser precisa de amor e respeito?
Talvez um dia quem sabe, quando for Avó, possa escrever simples histórias para entreter os meus netos…
Grata pela tua referência e acredita, foi também um privilégio para mim conhecer-te pessoalmente.

Beijinhos a ambos e até logo

De Júlia a 15 de Junho de 2008 às 09:04
vou levar para o Privilégios, se me dá licensa. :-)
De Amita a 15 de Junho de 2008 às 11:01
Bom dia Manuel
Uma borboleta trouxe-me até aqui em boa hora.
Após ter lido o seu excelente artigo, não poderia sair sem felicitá-lo por ter captado integralmente a essência da poesia da Otília Martel.
Aproveito igualmente esta oportunidade para dar os parabéns à Carla pela sensibilidade dos seus desenhos que se coadunam com os "sentires" do livro.
Um abraço aos dois e um alegre dia
De ZezinhoMota a 15 de Junho de 2008 às 11:04
A Menina Marota, merece tudo do melhor e eu desejo-lhe as maiores venturas no sucesso do livro!

Assim como pessoal.

Bjnhs

ZezinhoMota
De Heloisa B.P. a 15 de Junho de 2008 às 14:20
EXCELENTE VISAO, OU *"ANTE-CAMARA", AO SALAO DE FESTA (*ALMA DESNUDADA*) DE MENINA MAROTA*******!
A" ETERNAMENTE MENINA", NA CANDURA NO "SEMI-ENVERGONHADO", QUE CONDUZ AO PLENO DESABROCHAR E ABRIR AS PETALAS DA VERMELHA ROSA QUE E' A MULHER APAIXONANTE E INTELIGENTE, POETICAMENTE VIBRANTE, QUE E' *OTILIA MARTEL*******!
SUCESSOS MUITOS, PARA A POETISA******** E PARA A ILUSTRADORA********!
DESEJO A MINHA QUERIDA AMIGA OTILIA, A QUEM, PARA ALEM DESTES ATRIBUTOS DE PERSOALIDADE TAO BEM DESCRITOS PELO AUTOR DESTA *INTRODUCAO AO LIVRO *DESNUDAR DE ALMA********, EU LHE CONHECO TAMBEM OUTROS ATRIBUTOS DE REAL VALOR HUMANO, COMO A GENEROSIDADE E A ENTREGA AQUILO EM QUE ACREDITA!
BOA SORTE MINHA AMIGA******,
UM DIA FELICISIMO PARA SI*, SUA FAMILIA*, E TODOS ESTES(E OUTROS!...) AMIGOS**********!
ABRACOS!!!!!
E, PARABENS AO AUTOR DESTE TEXTO E SUA ESPOSA!

DESTACO ESTE PRIMEIRO PERIODO DO SEU PRIMEIRO PARAGRAFO:
"Menina Marota é um daqueles nicks que fizeram história na blogosfera portuguesa, na área da poesia. Infelizmente, os seus blogues estão congelados por decisão pessoal."
(INFELIZMENTE CONGELADOS! ESPERO E DESEJO QUE "DESCONGELEM"!)
...................................
EXCELENTE DOMINGO!
CORDIAIS SAUDACOES!

Heloisa B.P.
..................PS: PERDAO PELA FALTA DE ACENTOS E EXCESSO DE MAIUSCULAS!
..............................
De su a 15 de Junho de 2008 às 16:38
gostei de ler
apetece-me o livro

jocas maradas de sentires para a "menina"
De Gerana a 16 de Junho de 2008 às 01:35
Bacanas, tanto a ilustração de sua orquídea quanto a amostra da poesia da Menina Marota. Sucesso para ambas.
Queria fazer uma correção: no meu último comentário, escrevi qua a imprensa "saltou" muitos fogos para Inês Pedrosa. Reparação: a imprensa soltou muitos fogos. Quem saltou está dando pulos!!!! Culpo meu teclado sem fio, foi ele que me distanciou da tela, foi ele quem comenteu o erro.
Em tempo: houve uma reunião na casa do poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos, lemos Pessoa, Cabral de Melo Neto, Mário de Sá-Carneiro. E falamos dos poetas e dos blogs. Sua poesia está conhecida entre nós. Gláucia Lemos ficou muito contente por você, sendo o poeta que é, ter comentado um poema dela. daqui a pouco abriremos um fã clube além-mar. Li 2 contos seus, acabei achando graça do "matrimoniau"; será que eu falo assim?
De Manuel Anastácio a 16 de Junho de 2008 às 19:13
De facto, esse nem é bem conto, mas uma resposta ácida a alguém que me enfureceu na blogosfera. Mas como alguns o consideraram como "conto", aceitei a classificação.

Fico deveras envaidecido e inchado por tudo o que me contas. Obrigado, Gerana.
De gláucia lemos a 5 de Janeiro de 2013 às 04:33
Era 2008. Que belíssimo comentário este seu, sobre o livro da Otília Martiel . À época eu ainda não lia este blog, mas esta publicação de agora deu-me esta oportunidade. Eu ainda não lia este blog, mas já tinha tido um conto comentado por Manuel Anastácio, o poeta, o escritor, o crítico. Era 2008, há 5 anos, portanto. Assim é a vida. Muito bom poder ler isto agora. Grande abraço.

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