Sexta-feira, 6 de Junho de 2008
Fábulas de Esopo: O lobo e o cordeiro

Trailer de "Ensaio sobre a Cegueira" de Meirelles a partir de Saramago. Porque pior que ser cego é não querer ver.

 

Certo dia, junto ao rio,

Andava um lobo a montante,

Quando deu c’ o olhar bravio

Sobre um cordeiro a jusante,

Sobre as águas debruçado.

E com o maior desplante,

Quis sentir justificado

O ataque que forjou

Para se ver saciado.

Pelo anho então chamou,

Abonando à violência:

“Irado deveras estou

Com a tua impertinência!

Suja, aqui, a água aflora

Pela tua negligência!”

Ao que o cordeiro, em má hora,

Inda inocente contesta:

“Está a minha culpa fora,

Como este lugar atesta:

Vem daí a correnteza.

Logo, quem a água empesta

Estará com toda a certeza

Para os lados da nascente.”

“Qual é a tua defesa,

Já que disso estou ciente,

Das calúnias que apregoas

Há um ano, a toda gente,

Sobre mim e outras pessoas?”

“Tal coisa não fiz, senhor.

Minhas escusas são boas:

Podeis ficar sabedor

Que só nasci há seis meses.”

“Se delas não foste autor,

Foi qualquer outra das reses

Do rebanho onde hás nascido.”

Sem argumentar mais vezes,

Estando na razão vencido,

Abocanhou o cordeiro,

Que se viu, assim, perdido.

É triste, mas verdadeiro

Concluirmos sem engano

Que qualquer mote traiçoeiro

Serve de lema ao tirano.

 

(versão de Manuel Anastácio)

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 02:38
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3 comentários:
De Gerana a 6 de Junho de 2008 às 23:55
Ele é mesmo o máximo: José Saramago. E Ésopo também. E a versão também. Vale a pena viver! veja que associação de pensamentos: Saramago conta, mas eu já havia lido (está em um dos Cadernos de Lanzarote) que a avó um dia abraçou uma árvore e disse: "A vida é tão bela, que pena que eu tenho que morrer" (algo bem próximo, estou citando de cabeça). Ela estava com mais de 80 anos. Lembro amiúde disto porque é quase uma lição para os momentos em que a gente teima e acaba esquecendo tal beleza.
De Manuel Anastácio a 6 de Junho de 2008 às 23:59
Creio que essa citação é do "As Pequenas Memórias" - ele também fala disso nos cadernos?
De Gerana a 7 de Junho de 2008 às 00:11
Você está certíssimo! Errei feio, é n'As pequenas memórias. Me passei. Nos Cadernos tem um outro lance que também levo dentro de mim, mas é com o avô, quando iam ambos andando numa noite estrelada e ele deseja ser imortal e resolve que será escritor. Tomara eu não tenha errado a fonte de novo.

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