Quarta-feira, 10 de Maio de 2006
Herbário I - Populus nigra

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É negro o choupo que nos dá neve na Primavera e que aconchega em bolas de felpo pensamentos fúnebres e ternos. Quando o vento passa nos seus ramos erguidos em direcção à casa no alto dos vendavais, não há fantasmas que não tremam nem sepulturas que não se fechem com medo da vida. É negro, o choupo que abraça de raízes o declive onde pensam esconder-se os namorados. Na sombra negra de um sorriso em folhas tristes - como as redes de um pescador italiano.

Uma noite, quando a negrura dos primeiros ramos a tocar o nevoeiro descia pela voz húmida das corujas, chamaste-me à varanda. Não nevava. Apontaste a luz difusa na direcção do choupo-negro, sem os diamantes verdes com que se veste depois de vestir o ar com algodão. Apenas miríades de miríades de gotas a flutuar na escuridão iluminada pelo chão pretendiam citar o Apocalipse. Apenas um espírito pairava sobre as águas, ignorando o que fosse isso de passear na brisa da tarde.

Nem criação nem julgamento se estendia das nossas mãos.
Apenas carícias.
Como fofas bolas de algodão nascidas da negrura.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:27
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