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Segunda-feira, 2 de Junho de 2008
My Blueberry Nights

Trailer de "My Blueberry Nights", de Wong Kar-Wai

 

“My Blueberry Nights”, de Wong Kar-Wai, que em Portugal recebeu o nome de “O sabor do amor” e no Brasil, “Um beijo roubado” é um filme sobre o erotismo desesperado da tristeza. Há pessoas que a cultivam – à tristeza – como estratégia de charme. E neste filme, todos parecem partilhar esse mesmo caminho de sedução pela anestesia. Os mirtilos (os “blueberry”  ou bagas azuis, do título), de cor violeta escura, já encerram em si toda uma carga de paixão fúnebre. E paixão é a palavra chave. Paixão no sentido sensual, claro, mas também no sentido espiritual, conotando-se com o sofrimento e com o desfecho de uma via sacra.

 

A história não é convincente. Wong Kar-Wai pode fazer melhor. Mas nem todos os filmes têm de ser obras primas. Creio que Kar-Wai aproveitou este filme para respirar. Ou, em vez de respirar, fumar um cigarro na rua, como faz a personagem encarnada por Jude Law.

 

O estado permanentemente doentio das personagens e a febre que as faz encerrar nas suas histórias de solidão masoquista compõe, contudo, um tríptico poético que, se não fosse assinado pelo realizador que o fez, seria facilmente classificado como obra a seriamente considerar no seu género. Um tríptico, no sentido tradicional do termo, já que a história central, pictoricamente mais relevante, suporta, de forma quase mecânica, com dobradiças separadas, outras duas histórias ligadas à central, independentes, mas simétricas no seu desfecho. Talvez poucos dos críticos se tenham apercebido dessa forma global do filme que em tudo se assemelha à ideia de um quadro central, que recebe luz de frente, com contornos tenebristas, ladeado de outros dois, menores, de luz oblíqua que se esbate na impossibilidade da redenção, nos cantos. O conto central, triste, mas positivo e aberto (e onde a paixão concentra toda a carga erótica do filme), é guardado, como numa caixa ou num relicário, por duas histórias de portas irremediavelmente fechadas. Entra aqui a referência às chaves e às portas, ainda que seja uma metáfora fácil, num filme onde poucas portas há (não é um filme de John Ford, como diria Manoel de Oliveira), mas onde abundam janelas e vitrinas: quadros, portanto. Quadros onde não faltam as naturezas mortas onde o leite se insinua numa sugestão obscenamente delirante e que se resolve de forma absolutamente genial num dos beijos1 que qualquer antologia cinematográfica sobre o tema jamais deverá deixar de lado.

  

1. Clicar só no caso de já ter visto o filme ou se não o pretender ver. Há coisas que devem ser servidas a seu tempo.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 20:57
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3 comentários:
De Gerana a 6 de Junho de 2008 às 00:43
Vou locar este "Um beijo roubado", promete!
Resenha altamente favorável ao filme e, como sempre, super bem escrita.
De Gerana a 6 de Junho de 2008 às 00:54
Sugestão: colocar "José Saramago assiste Ensaio sobre a cegueira", no Youtube. Chorei junto com ele, pura emoção. Mostra a reação de Saramago ao acabar de assitir o filme de Fernando Meirelles. Jóia!
De Manuel Anastácio a 6 de Junho de 2008 às 02:52
Já vi. Também me emocionei. Estou em pulgas para ver o filme.

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