Segunda-feira, 19 de Maio de 2008
Lars and The Real Girl

Trailer de "Lars and the real girl" ("Lars e o Verdadeiro Amor" - titulo em Portugal, pouco fiel ao original, mas aceitável, tendo em conta a intraduzibilidade).

 

Jesus resolveria os problemas com milagres. É a atitude infantil que espera resolver todos os problemas com um passe de magia. Jesus, no entanto, seria apenas bom. Faria, com certeza, o milagre, se o pudesse fazer. Mas a solidariedade é-o sempre. Milagre. Porque um milagre é um sorriso divino – sorriso, não: gargalhada! E a solidariedade? É dar as migalhas da mesa a Lázaro que sob ela se arrasta? Ou aceitar Lázaro à mesa? E quem aí o aceita? Poucos, de facto.

            “Lars e o Verdadeiro Amor” (“Lars and the Real Girl”), apresentado como uma comédia romântica é, no entanto, para mim, a mais simpática e saudável das alegorias cristãs que já vi até hoje. O filme não é sobre um tarado que julga que a sua “boneca insuflável” é um ser real e amável (sendo amável aquilo que é passivo de se amar). O subcontexto sexual do filme é apenas um acidente num quadro de pura moral e ternura comunitária cristã. É uma história de amor na acepção exposta por São Paulo no seu célebre capítulo 13 da Primeira Epístola aos Coríntios. Fosse eu professor de Educação Moral e Religiosa ou catequista, e mostraria o filme sem quaisquer pruridos na consciência aos alunos, como exemplo do que deveria ser a vida cristã. Como deveria ser, não como é.

            “Lars”, sem ser uma obra prima, é um bom exemplo de que como o cinema não vive apenas de devorar as misérias humanas, podendo mesmo ascender ao mais cândido dos optimismos sem que tenha, por isso, de alienar por completo o espectador num mundo de maravilhas que mantenha em coma o seu sentido crítico. Não precisa de envolver as personagens numa via sacra para justificar a redenção final. Um percurso de placidez e sorrisos pode dar origem a um filme tão apaixonante como outro em que as personagens são obrigadas a enfrentar as próprias tripas.

            A argumentista, Nancy Oliver, que já tinha participado na série “Six feet under” não procura a clássica fórmula que passa por angustiar o espectador para tudo redimir com uma resolução benévola no final. Todo o filme é imerecidamente benévolo para seres humanos que improvavelmente aceitariam o desafio de acolher no seu seio um corpo cuja alma reside no seu exterior – o desafio de compartilhar a loucura por um bem maior. A alma desta boneca anatomicamente correcta encomendada pela Internet, apresentada por Lars como sua namorada, nasce, não apenas  da imaginação iludida de Lars, mas também da aceitação incondicional daqueles que conferem à ilusão a força da necessidade. A boneca não aparece naquela comunidade apenas como meio para a resolução das angústias de Lars, mas como meio de justificação e laço de união comunitário. Não é uma mascote. É uma extensão de alma de um dos seus membros, tornados ainda mais queridos porque extraviados da senda mental por onde quase todos seguem. Uma extensão de alma que pede urgentemente para se libertar, de modo a permitir à alma que lhe deu origem um regresso a casa. Não se esqueçam que a Ética é, segundo Heidegger, a habitação do homem nos deuses. Lars, sem morada, regressa a casa pela mão daquela comunidade cristã que não o repudia nem dele se enoja e que mesmo dele se rindo, o faz com a compaixão de quem não fere nem com palavras. Da mesma forma, a própria boneca, Bianca, não sendo, também regressa a casa, sendo.

            O filme não é uma obra prima. Mas não me lembro de melhor prova – não da existência de Deus mas, pelo menos, da sua dolorosa necessidade. Talvez Deus seja uma ilusão. Bianca é uma ilusão. Logo, talvez Bianca seja Deus. A lógica não é perfeita. Mas a conclusão, sofisma ou não, ajusta-se às mil maravilhas. Colocaria este filme na lista dos dez melhores filmes de sempre sobre Deus… Hum… isso dava um post… :)

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publicado por Manuel Anastácio às 22:46
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1 comentário:
De Paulo Brabo a 31 de Maio de 2008 às 22:21
Singelos e generosos o filme e sua análise dele. Não sei se você é real ("I met her on the internet". "Everyone is doing that now"), mas não faz nenhuma diferença.

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