Domingo, 11 de Maio de 2008
Professores IV

Genérico inicial da Telenovela "Dona Xepa" (1977)

              Doutora Maria Judite Serrão Andrade, licenciada pela Universidade de Coimbra em Ciências Históricas e Filosóficas, fundadora do Externato Rainha Santa Isabel no Sardoal e directora do mesmo até 1980. Dá actualmente nome à escola onde estudei durante sete anos, e onde dei aulas durante um ano, quando era ainda apenas a escola do Sardoal sine nomine. A Doutora, de quem, em vão, procurei alguma nota biográfica relevante na Internet, foi minha professora no sexto ano de escolaridade, de “Estudos Sociais” e de Língua Portuguesa. Rapidamente me adoptou como aluno predilecto desse ano, sem falsas intenções igualitárias, que não tinha. Era implacável com a ignorância e com a mediocridade. Cruel com os alunos que diziam e escreviam disparates. Trazia amendoins (para macacos), ou dizia que havia de trazer, para os alunos que, estando em tempo de “furo” se especavam a olhar para dentro da sala, perturbando a frágil atenção dos alunos por ela disciplinados na estrita observância do único e verdadeiro método de estudar: que consiste, basicamente, em estudar.

Mas interrompia frequentemente as aulas para recordar os momentos de catraia indisciplinada que se recusava a beijar a mão da Madre Superiora, no colégio interno que frequentava. Era simplesmente um hábito nojento, esse de beijar os dedos que não sabia onde teriam andado, provavelmente conspurcados ainda mais pelos beiços das suas colegas e das outras freiras a quem passava a vida a infernizar com partidas que nos faziam rir a bandeiras despregadas, mas que jamais poderíamos pensar em executar, até porque os pais pagavam o suficiente às freiras para a aturarem, o que supostamente, os nossos pais, com os filhos no ensino público, não faziam.

Era conhecida pela alcunha de “Dona Xepa” devido ao facto de coxear, tal como a personagem da novela. Não havia professora mais temida nos anais daquela escola. Contou-nos como passara a claudicar o passo, numa viajem por um país nórdico que a minha memória já não consegue localizar. Comprara com o marido uma gigantesca lata de arenques que, numa travagem brusca lhe magoou irreversivelmente a perna. Era, aliás, levada de forma absolutamente reverencial, de carro, até junto à porta de um dos pavilhões onde se situava a antiga sala dos professores. Sala onde, um dia, me chamaram, para elogiarem as minhas capacidades de aluno de excelência num meio onde apenas florescia a exiguidade da burrice, e de onde saí humilhado pelo facto de, desprecavido, ter aparecido com as mãos todas sujas de tinta de caneta e com o pull over salpicado da feijoada do almoço na cantina. Era ainda uma criança – disse um dos professores. Obrigado. Não fazia ideia. Onde é que é a saída?

No início do ano lectivo, as turmas que calhavam com a “Xepa” tremiam de medo. As histórias que corriam sobre o seu rigor draconiano e veneno corrosivo das palavras que derramava sobre os alunos enformavam um tipo de mitologia que a tornavam numa terrível divindade intocável, cujo ascendente político e social (por nós pressentido mas mal compreendido no seu significado) tudo legitimava. Mas, para mim, rapidamente se tornou numa figura algo patusca, de nariz grande, ao género de Karl Malden, que frequentemente ficava roxo quando se assoava e irritava. E quando, entusiasmada, explicava como, em vez de beijar a mão à Madre Superiora, se aproveitava do apêndice nasal para fingir que cumpria o preceito.

A Doutora Judite merece, de facto, que o seu nome perdure naquela terra que hoje já não é tão árida, como antes, em cérebros. Estes fazem-se, semeiam-se e levam tempo a germinar. Não com os caldos de baixa exigência dos tempos que correm, nutritivos apenas para bactérias. A pressão aplicada com rigor num corpo flácido espevita a circulação. Lembro-me bem das composições enxaropadas que escrevia quando estava nesse sexto ano de escolaridade. Lembro-me bem das críticas ferozes da Doutora Judite. Pode não me ter tornado um grande escritor, mas abriu-me bem os olhos para o ridículo que se encerra em certas conjunções de palavras e para a beleza das ideias, sem as quais as palavras se perdem, como sons sem eco.

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publicado por Manuel Anastácio às 21:58
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4 comentários:
De artur a 12 de Maio de 2008 às 11:55
Quem nos toca, toca. Há memórias que não desvancem. Não tive a sorte de ter tido professores tão inspiradores.
De Gerana a 16 de Maio de 2008 às 01:40
Seu poema bombou lá no meu blog. Ou seja, fez sucesso! Obrigada por permitir a edição no leitoracritica.blogspot.com/. São postagens com tal quilatagem que enriquecem os blogs.
De ERSI a 3 de Novembro de 2015 às 22:51
Estamos a incluir num album alguns escritos sobre o Colégio do Sardoal, podemos utilizaqr o seu artigo? Cumprimentos
De Manuel Anastácio a 11 de Novembro de 2015 às 22:32
Claro que sim. Seria uma honra para mim.

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