Domingo, 4 de Maio de 2008
Katyn
Trailer de "Katyn", de Andrzej Wajda

Este filme, ainda por estrear em Portugal, é a última obra do mestre Andrzej Wajda. Trata de um massacre, como tantos massacres. Trata de sangue, de medo, de nojo, de desespero. Há uma imagem de alguém que lava o chão de um quarto escuro com um balde de água que tenta somente diluir o excesso de vermelha viscosidade deixada pela última vítima. Quando digo "lava" digo, tão somente, de lançar água ao chão. As paredes, essas, mantêm-se salpicadas como um quadro de Pollock. Todos sabemos que aqueles homens serão massacrados, que uma bala lhes trespassará o cérebro, um após outro, enquanto recitam o "Pai Nosso" à beira de uma vala de terra cinza onde se amontoam os corpos daqueles que ainda não arrefeceram e que, por arrefecer, serão soterrados.

Lembro-me de em pequeno, em casa dos meus padrinhos, em Chão de Meninos, junto a Sintra, de ter visto, provavelmente, pela primeira vez na minha vida, um resto mortal  ainda suficientemente esculpido de vida para se chamar de horror . Era um dia de humidade. Os meus padrinhos viviam junto ao cemitério de Chão de Meninos, cujos jazigos (coisa que não existia na minha terra, onde as mais ricas campas eram meras pedrinhas com letras douradas inscrustadas e fotografia a preto e branco) eram, para mim, na minha inocência religiosa, "a casa de banho de Nossa Senhora".  Descíamos por uma ladeira, em direcção a uma quinta onde íamos buscar leite fresco e onde o cheiro da bosta de vaca e de cavalos se misturava, num matiz que me marcará para o resto da vida, com o cheiro das madeiras da serração onde trabalhava o meu padrinho e que ainda hoje procuro quando chego às imediações do cemitério - em vão, que a serração já fechou as portas há muito, e o cheiro da bosta, na quinta, já deu lugar a uma urbanização. Lembro-me de em pequeno, numa manhã húmida, ter descido até um local que a minha geografia mental já não consegue situar de forma clara, e ter visto uma mão a sair de uma derrocada de barro vermelho. De pouco mais me lembro. Creio que vi uma maca a transportar um corpo coberto por um lençol. Alguém (creio eu que um adulto e uma criança, não tenho a certeza) tinha ficado soterrado num deslizamento de terra.

Neste último filme de Wajda (quem leu a minha lista de filmes já sabe que é um dos meus realizadores de referência), nomeado este ano para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, o último plano fez-me reviver a sensação de humidade que tive naquela manhã. O incómodo de estar vivo - de ainda estar vivo. Haverá momentos em que permanecer vivo será o pior. Gostaria de pensar que a dor se anula quando a morte é irremediável. Mas duvido. A dor, o nojo, a podridão, cobre-nos a existência. Estamos todos frente à vala comum onde os que nos precederam nos esperam, como na capela dos ossos, em Évora. Pouco nos interessa se quem nos mata é soviético ou nazi. Pouco interessa, a não ser que os soviéticos ou os nazis queiram tornar a nossa dor em matéria de propaganda.

Durante décadas, a Polónia do Pacto de Varsóvia acreditou que as balas tinham sido projectadas pelos alemães quando, na verdade, tinham sido os "libertadores" russos a cometer a proeza. Os alemães quiseram que as viúvas gravassem a sua voz contra a invasão assassina dos russos - e algumas mantiveram a dignidade de não defender um assassino apontando o dedo a outro. Depois, os russos quiseram  que essas mesmas viúvas silenciassem a sua voz e se abstivessem de inscrever no mármore dos túmulos a verdade incómoda para o estado. Não o fizeram. Por dignidade. Porque só a dignidade das convicções poderá fazer frente às manhãs húmidas que nos assombram os olhos de criança. Mas isto é apenas um (precariamente) adulto a falar.
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publicado por Manuel Anastácio às 22:41
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1 comentário:
De Gerana a 5 de Maio de 2008 às 01:07
O filme é simplesmente magistral. Seu texto, idem. Gosto demais de sua maneira de colocar as coisas, há sempre o notório talento literário, seja escrevendo sobre um filme, seja sobre música, seja qual seja o assunto: um prazer para nós, seus leitores.

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