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Terça-feira, 1 de Abril de 2008
O Véu Diáfano

"zeroPoints"
, de Peter Eötvös
. Orquestra de São Paulo dirigida por Pedro Amaral.

“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia” –  estas as palavras inscritas por Eça, em jeito de epígrafe, no frontispício do romance “A Relíquia”. Pedro Amaral, um dos compositores portugueses contemporâneos que melhor consegue criar poesia com a inquietantemente incómoda atmosfera das novas sonoridades, decidiu pegar no mote, adaptando a frase à filosofia hindu. Esta, de facto, numa sobreposição geometricamente diáfana, quase faz coincidir os conceitos ao descrever a realidade como um substrato onde se estende o véu de Maya, que nada mais é que a fantasia. Pedro Amaral, que já produziu vários programas para a Antena 2, começou, no início do mês passado, uma série de programas “para uma história temática da música europeia”. Esta epígrafe ao título do programa, “O Véu Diáfano”, resume a intenção tácita do seu autor: não fazer uma história temática da música, mas contribuir de algum modo para que esta se faça. Quando o autor deste blogue decidiu, sem escrúpulos, baptizar estas raras elocubrações de “Da Condição Humana”, estava, mais que a roubar um título que jamais poderá ser seu, a exprimir a impossibilidade inscrita sobre o pórtico do inferno, segundo Dante: a esperança é negada a quem o transpõe. Assim é para quem se atreve a desvelar o véu de Maya – a tarefa é impossível. Os cientistas bem que tentam cingir-se aos factos, mas quem conhece a história da Ciência bem sabe como as intuições segredadas pela fantasia cobrem e recobrem todo o edifício da objectividade. Mas, se sabemos que conhecer um único objecto é sumamente impossível (que dizer então da condição humana... ou mesmo de algo mais comezinho como uma história temática da música europeia…) em termos puramente objectivos, podemos conjecturar, ou convencionar, que esse conhecimento, em teoria, não seria mais que a soma de todos os pontos de vista, possíveis ou imaginários. Só conheceríamos uma coisa, verdadeiramente, realmente, objectivamente, enquanto coisa que é, se a víssemos de todos os ângulos, à luz de todos os conceitos e preconceitos, mas também quando essa coisa aparece parcial ou totalmente obscurecida pela nossa ignorância. Até na opacidade está subentendida a translucidez da fantasia. Uma criança que brinca com um objecto e não o procura assim que este é tapado porque a sua percepção lhe passa a recusar a possibilidade de existência, tem uma forma de conhecimento puramente pragmático sobre esse objecto, sabe que ele pode ser abanado e levado à boca, mas não teoriza sobre a sua existência quando deixa de ser percepcionado. Será, decerto, abuso meu dizer que passamos a teorizar sobre a existência dos objectos que não vemos quando, com alguns meses de vida, já sabemos que podemos procurar (e eventualmente encontrar) o objecto que há pouco tocávamos e que os nossos pais, com artes mágicas, fizeram desaparecer cobrindo-o com uma camada opaca de realidade. Abuso ou não, é a partir desse momento que começamos a crer em alguma coisa. Passamos a crer que a nossa demanda em busca de algo pode ter um fim concreto que nos satisfaça. Passamos, na minha visão parcial das coisas, a ingressar na condição humana.

 

“O Véu Diáfano”, de Pedro Amaral é um dos programas radiofónicos mais fascinantes que alguma vez tive a oportunidade de ouvir. Graças aos podcasts disponibilizados pela RTP, os meus leitores poderão aferir, devidamente cingidos pela sua fracção de véu de Maya, quanto ao meu julgamento. Os programas deste mês são “apenas” um prólogo onde são propostas caminhadas por entre a paisagem da arte e, em particular, por entre alguns recantos da literatura, do cinema e da arquitectura. Pedro Amaral, senhor da arte de transfigurar o véu que treme à passagem dos sons que compõe, não pretende desvelar os segredos da arte – seria isso roubar à arte a dignidade que reside na sua pátina dourada, leve superfície de ilusão que modifica em profundidade o objecto observado, transformando-o em objecto artístico, ao dotá-lo de níveis sucessivos que requerem modalidades diversas de contemplação e que agem em quem observa de diferente modo, consoante o nível, camada ou véu que o nosso olhar foca, de modo semelhante ao procedimento de quem manuseia um microscópio óptico. Daqui vem, com certeza, a expressão vulgar que classifica como “profunda” qualquer actividade discursiva (e, por extensão, artística). Profunda porque consegue atingir a verdade que reside abaixo da superfície da aparência? Sim, e paradoxalmente, não. Porque nada há que mais viva da aparência e da superfície que a Arte. A Arte apenas procura a perfeição das coisas ao convocar essa perfeição para o palco dos nossos sentidos, mas o objecto artístico é, em si mesmo, tão terreno e vulgar quanto uma pedra do caminho ou um excremento. É a ordem que é colocada nesse objecto, tendo em mente a sua percepção por quem vai usufruir da obra de arte que o transfigura. Os pigmentos usados na elaboração de um quadro continuarão a ser restos moídos de insectos e outros materiais que de outro modo nos causariam repugnância, mas ao serem utilizados segundo uma determinada intenção e procurando um determinado efeito, esses materiais, continuando a ser o que são, impregnam-se de significados múltiplos que tendem à infinidade consoante os níveis apercebidos pelas diversas subjectividades que os irão ler e sentir. Pedro Amaral aceita aqui, de forma digna, posicionar o seu discurso num ponto de vista subjectivo que vai despontando com referências pessoais, quase íntimas, que adoçam o rigor discursivo, um pouco ao estilo de Umberto Eco, abrindo a obra de Arte a véus que iluminam mais que obscurecem a eternidade do imperativo de dizer aquilo que as palavras não conseguem exprimir.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:38
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