Sábado, 16 de Fevereiro de 2008
II
Castle on a Cloud, "Les Miserables", de Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil


Lembro-me do cheiro a restos de comida meio azeda que se misturava suavemente com o cheiro a diluente e serradura das portas empilhadas que serviam de tampo para o sono que não queria ter. Num prego da parede, pendia a gambiarra que já estaria a desenrolar às seis da manhã entre os prédios  desdentados, dando avanço ao silencioso trabalho permitido antes das oito da manhã. Agora, a luz forte ofuscava de viés as páginas de um livrito com curiosidades sobre o Antigo Egipto, Alexandre Dumas filho, Bernardin de Saint-Pierre, Tolstoi e Enid Blyton, ecleticamente escolhidos, tanto na sala de adultos como na de crianças da Biblioteca Municipal daquela vila de caliça e carris cobertos de décadas de vagões a apodrecer. A mulherzinha que tratava da requisição dos livros não mostrava especial reverência pelas minhas improváveis escolhas e creio sinceramente que nem acreditasse que eu fosse além da página dez do Guerra e Paz. Mas a verdade é que entre o ressonar do meu pai na outra pilha de portas, os gritos dos jovens ociosos a caminho ou vindo dos bares e discotecas, abertos durante toda a semana, como convinha ao estio, entre a saudade do meu quarto com vista para os pinhais de Vila de Rei e a porta semi-fechada do portão da garagem que me servia de habitação durante os longos e intermináveis meses de férias, coexistiam os gritos da catatua Didi com os ambientes soturnos da comsupção devoradora da alma de Marguerite Gautier e o misticismo calmo e lúcido de Pierre Bezukhov. E, mais tarde, faltando-me a água com sabor a terra funda, caminhava entre labirintos de tijolo, sobre taipais que se enterravam no barro húmido de porcaria, fazendo adro frente à torneira de água com sabor a lixívia e cano de borracha. E na miséria fungosa daquela solidão sem esperança, chegava a sentar-me a um canto a divagar o olhar entre as sombras, imaginando planos cinematográficos que projectassem a pureza daquela escuridão, a aspereza das paredes, o cheiro fétido das latrinas improvisadas de onde até as lombrigas queriam sair, e sorria entre as lágrimas. Tinha de ser muito tolo para vez beleza naquilo. Mas via. Nada havia de mais belo e confortante que a minha dor. Triste ironia atroz, que senso humano irrita: Podia ser pior. O gosto pelo sofrimento, ele que doira a noite e ilumina a cidade, nem sempre é masoquismo. É apenas o sabor agridoce com que a solidão nos segreda que só amando outra pessoa poderemos ver a face de Deus
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publicado por Manuel Anastácio às 01:21
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