Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008
I
Excerto de "Pedro e Inês", bailado de Olga Roriz. Música de Arvo Pärt (Tabula rasa). Cenografia de João Mendes Ribeiro.

Dois ladrilhos quadrados dispostos na horizontal fazem a parte superior do tronco - os ombros. Ao centro, sobre a junta, outro ladrilho faz o pescoço. Acima deste, tocando com um canto o centro do lado superior, dispõe-se a cabeça. Quatro ladrilhos quadrados. Era assim a boneca do lar na casa dos avós de Saramago. Não me lembro da que guardava o fundo da lareira à minha avó. Na fria cozinha dos meus pais, abrindo no lado norte do pátio comum, sentado num dos cepos que ainda hoje lá fazem o lugar de bancos, quando li Saramago pela primeira vez, já a boneca tinha sido arrasada para dar lugar ao quadrilátero escuro, mas muito útil e ecológico, de uma caldeira que aquece a água dos banhos, aproveitando o calor que de outro modo se escaparia pela parede e pelo chão. Mas é pena que sobre a superfície férrea do coração de água não tenham reposto o boneco. Na minha memória sempre o chamei de boneco. Falar para o boneco, para mim, era segredar às chamas o que mais ninguém podia, queria ou se interessava em ouvir. Hoje em dia, escrever para um blogue é algo semelhante, com a diferença de que o boneco, por vezes, dá sinal de vida, e quem parece ficar sem voz no seu posto, atrás das chamas, coberto por camadas de cal e fuligem alternadas, sou eu mesmo. A noite não perdoa aos acendedores de candeeiros.
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 00:37
link do post | Adicionar aos favoritos
Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.