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Sábado, 27 de Outubro de 2007
O relicário de coral

Relicário de coral da Rainha Santa Isabel, de inícios do século XIV, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra. Foto de José Pessoa (Instituto Português de Museus)

Parece um castiçal onde duas velas, tomando a cor do sangue do mistério eucarístico, se tivessem contorcido na dor da paixão, distorcendo a própria base de metal cruzado, assente em dois leões levantados, de boca aberta e olhar de besta faminta. Suportam eles duas traves curvas que se cruzam sob as armas de Aragão e terminam no focinho de dois cães que latem em polos opostos, mas cujas pregas lavradas se assemelham à gema terminal de um caule que espreita o advento da Primavera. Sobre o cachaço dos cães, assentam dois prismas... hexagonais? Não é permitido ao narrador especificar muito mais - talvez sim, talvez não... não é este narrador descritor um espírito que se intrometa à volta do quarto para poder fazer melhor a descrição da peça... a rainha olha o magnífico objecto que tem à frente, mas não o descreve com a mente, apenas sente-o a imprimir-lhe manchas azuladas na retina quando cerra os olhos. Os dois prismas, assentes nos motivos zoomórficos, representam a transfiguração dos dois princípios morais na força criadora da natureza. O Bem e o Mal, arrancam dali num emaranhado de ramos desorientados e incongruentes, com remendos de metal que parecem dedos postiços a indicar de forma bruta e rígida o caminho ascendente em direcção à ordem apaziguadora. Tudo pelo meio das chamas alaranjadas do coral arrancado da escuridão rasteira do leito do mar, agora trasnportadas pelos artifícios do artista, a objecto de iluminação. Nada há aqui de princípios morais: apenas formas da própria natureza. A base do relicário, com os bichos que costumam assentar guarda nos túmulos das damas: cães e leões (alguns, mesmo, a disputar um osso, para a eternidade, num acesso de humor negro do mestre canteiro), são interpretados, amiúde, pela mente humana, como símbolos das virtudes e das fraquezas dos homens - são aceites pela estatuária oferecida como morada aos mortos, porque tal arquitectura é legítima e aceite aos olhos do criador. Deus é o Arquitecto. Aos homens resta a humildade de o imitar sem presunção, não de criar seja o que for. A Arquitectura é, no fundo, um pecado de orgulho e vaidade. E um relicário, como um túmulo, é uma peça de arquitectura para o espírito que nele é convocado através dos restos que, a bem dizer, são pedaços de podridão sem qualquer santidade. Mas é mesmo nessa podridão que reside o milagre. Não seria grande o feito divino, o de santificar o que é belo. A beleza, não se mantendo com a Graça exclusiva de Deus, só pode tomar o caminho da degradação, se deixada ao seu próprio alvedrio. O que é repulsivo, pelo contrário, procura o que é belo. E só é belo o que ascende a Deus. Os ramos fantasmagóricos do coral, interrompidos por excrescências de ouro que tentam dar unidade àquilo que a mente limitada humana nunca compreenderá, terminam como uma coluna que representa a unidade divina, acima do confronto temporal entre o Bem e o Mal. Identificar Deus com o Bem é de uma simplicidade que não satisfaz nem aos santos nem aos danados que nestas coisas cogitam (e serão, provavelmente, mais os danados que os santos a fazê-lo, e os primeiros, ao que parece, arderão nas dúvidas para a eternidade, não terminando jamais a sua tarefa de procura da sabedoria). Deus, de facto, está acima dessas coisas. É apenas pela arbitrariedade da sua Graça que os santos se sentam perto do seu calor. Da base una do relicário, acima da batalha de coral e das misérias da criação, ramifica-se, como base de três luzes, a simetria divina apartada da criação e do tempo, apartada das misérias, das dores, das contorções e dos juízos morais. A base una, assente em folhas de ouro, assume a única arquitectura possível para a simbologia divina. Para a ideia de Deus, só a copa das árvores é digna. Só a simplicidade vegetal pode suportar a luz divina e transformá-la em alimento.

A rainha fecha os olhos e sente o cheiro das rosas a suavizar o mofo das tapeçarias. O rei acabou de entrar. Ela levanta-se e olha para a boca escancarada dos leões. Porque é que não pode, simplesmente, descansar ali, num daqueles caminhos que apontam para o nada?... Porque a vontade de Deus é esta. Há que aceitar o martírio, para que um dia, do seu corpo, nasçam as rosas da santidade.
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 19:25
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1 comentário:
De kaska a 31 de Outubro de 2007 às 22:07
Parabéns pelo trabalho desenvolvido.
Continuação.
Cumprimentos e bom feriado

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