Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007
Os desterrados


"O Figurativo Fugindo do Concreto", de Dudi Maia Rosa, 1980

Cada vez acredito menos em Povos. A cada dia que passa, a cada linha de texto que leio, a cada fotograma e traço que se imprime na tela prateada da minha memória, noto que aquilo que distingue mais fortemente os povos - a sua cultura - não se está a tornar na prevista e propagada monotonia da sombra da Globalização. O povo-papel-químico que prefere comer McDonald's e cerveja em vez de arroz de sarrabulho e alvarinho não está mais pobre culturalmente - provavelmente está até mais rico e até mesmo mais integrado no sistema de metástases ideológicas (vulgo "cancro de ideias") a que se chama "identidade cultural de um povo". O que distingue os portugueses dos outros? Nada. O que é que já nos distinguiu dos outros? Nada. Nem na mediocridade, nem no valor, nem nos desejos. Somos tão medianos quanto um bocejo. Com tanta variedade num tão pequeno espaço, acabamos por julgar que a freguesia ao lado é estrangeiro. Somos tão pequeninos e acanhados, que até o vizinho do lado, que come mais ou menos o mesmo que nós, fala com o mesmo sotaque, ouve as mesmas músicas pimba, lê o mesmo jornal que nós (a Dica da Semana, claro, que até tem uma secção de anedotas) e vê a mesma novela da TVI é considerado estrangeiro. Em Carvalhal, Abrantes, na minha terra de nascença, os vizinhos do lado eram brasileiros, e a parte noroeste da rua, onde vivia, num alto sobre as ladeiras recortadas por pinheiros era conhecido como o cabeço da Espanha. No Alentejo, tirando Mértola, onde o pessoal comia pipas à espanhola e ignorava que existissem outras terras além dos seus acanhados montes de xisto, não há terra ao lado que não seja Marrocos. Vindo eu desaguar em Guimarães, neste caminho que leva ao mar (Via Maris), pensando estar a fincar os pés no Berço da Nação, descubro que é tudo um mito (e em Portugal, o que é que não é mito?) e que, segundo alguns bracarenses, estou em Espanha. Nasci no cabeço da Espanha (nasci mesmo, com parteira e tudo, nada de brancuras de hospital) e venho assentar arraiais entre espanhóis. Tenho para mim que é dor de cotovelo. Nada contra Braga. Mas duvido que em Braga se viva a comunidade como em Guimarães. Não conheço gente mais unida e solidária no bem e no mal que a de Guimarães. Mas estou a fugir ao tema: o que mais distingue os portugueses dos outros povos é a nossa pertença ao mais ínfimo pedaço de terra e o horror a tudo o que está além do limite do campo de milho onde comemos o farnel mais longe de casa (conhecem aquela cena do Sam, do Senhor dos Anéis, a caminho de Bree, logo no início do primeiro volume? Seremos Hobitts?). Não somos portugueses por termos ânsias de navegar em direcção ao desconhecido. Somos portugueses porque o desconhecido parece ser preferível à terra do lado. Estamos em todo o lado porque o nosso pedaço não nos comporta e o pedaço do lado nos repele. Somos o que somos porque não aguentamos aqueles que mais parecidos são connosco. Somos todos, ou quase todos, profetas. E quase todos limpamos o pó das sandálias à saída da nossa terra.

Enriquecemos o mundo com uma panóplia interessante de tons de pele e humores vadios. Foi o melhor que fizemos: gente. Geralmente preguiçosa como nós, com diversas matizes de preguiça. Fomos tristes, continuamos tristes, melancólicos. Só um copo de vinho rasca, de aguardente ou de cerveja com nome estrangeiro (no Norte) ou com nome de cabo (no sul) nos consegue animar.

Somos, portanto, um povo de nostalgias a quem a terra repele. E repelindo-nos a terra, resta-nos o mar. Não que seja coisa que o português histórico amasse ou pela qual ansiasse. Não era o mar que nos chamava, mas a terra que nos vomitava. Não éramos o olhar esfíngico e fatal de um rosto virado a Ocidente. Mas seria bom que esse fosse um programa a seguir, já que andamos tão interessados em saber quem somos graças ao palhaço do M grande. Estava há dias a voltar de Ponte de Lima, e comentei com a Carla que o M luminoso bem podia estender a sua aura protectora sobre o monte da Penha - o primeiro vulto ponteado de luz a indicar-nos a aproximação de casa. Perderíamos, por acaso, o bolo com sardinhas fritas e a malga de vinho verde à sombra dos penedos do tecto de Guimarães? Não. Tenho para mim que ganharíamos uns desfiladeiros mais limpinhos, libertos de caca e cacos. É que esta terra repele-nos porque, de facto, a enchemos de caca e de cacos. Mas veio o fantasma da Globalização e o pessoal começou a temer pela integridade da sua identidade. E, claro, como poderemos fugir à nossa identidade universalista, aberta ao desconhecido e ao escorbuto? Enchemos o mundo com os nossos ossos. A nossa Pátria não é a terra que não nos quis, nem a terra que não nos recebeu. Ficámos onde? No mar. Não porque nos chamasse, mas porque de nós zombava. Porque nos queria engolir numa catástrofe atlântico-trágico-marítima e foi preparando o grande banquete com alguns pequenos aperitivos. Deu-nos a ilusão de grandeza. Deu-nos a ilusão de heroísmo, de força, de vontade, quando tudo era coacção e repulsa. Fomos inseminando ventres definidos por terras acolhedoras que a nossa benévola ignorância apenas sabia desejar, sem compreender. Foi este mar da frente que nos serviu de palco. Serviu. Já não serve. Hoje, o mundo está passado a ferro e a água do mar está devidamente liofilizada para nossa conveniência.

Não somos, pois, gente de terra. Nem, muito menos, nos corre o mar nas carótidas. Mas se houver lugar (físico) no mundo a que possamos chamar Pátria, esse lugar é o Atlântico. Não o Mediterrâneo de onde vêm algumas longíquas influências genesíacas, mas o Atlântico, mar de promessas e sussuros mentirosos. O Mediterrâneo é um mar de baptismo, mítico, religioso, solar. O Atlântico é um mar de desafio, um mar político, mentiroso, enevoado, elusivo: generoso e insaciável.

Comecei este texto com a intenção de glosar de forma breve um admirável texto do Paulo  sobre o mito mediterrânico, e acabei por perder-me. Típico de um português. Muito atlântico, por sinal. Fica aqui a promessa de voltar ao assunto, sem esperança de voltar a casa.
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publicado por Manuel Anastácio às 01:03
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3 comentários:
De Paulo Hasse Paixao a 25 de Outubro de 2007 às 04:01
Às vezes és meu irmão. Outras, meu adversário. É assim, desculpa-me, que nasce o amor entre as pessoas.
De afronauta a 30 de Outubro de 2007 às 12:21
Se fosse minha, a obra chamar-se-ia "Suicídio"
De Manuel Anastácio a 31 de Outubro de 2007 às 19:05
E o que é o suícido mais do que a fuga ao concreto?... :)

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