Domingo, 21 de Outubro de 2007
Canto de Amor e Morte - ou porque é que gosto do Harry Potter
Excerto de "Love and Death" de Woody Allen.

Todos os livros que contam histórias, contam histórias de amor. Posso não aguentar com um romance da Barbara Cartland porque o amor que nos vende através das suas páginas não esconde os aditivos receituais da sua prateleira de vidrinhos coloridos, porque nada mais há nesses romances além de fórmulas gastas sobre o desejo, paixão e amor. Posso não aguentar com um livro do Paulo Coelho, porque os seus vidrinhos, ainda que enriquecidos por um leve (muito leve) perfume alquímico, continuam a ser compostos de vacuidade. Vacuidade relativa, mas que não deixa de ser vacuidade absoluta para o espírito que nada encontra nas suas páginas além da aridez de palavras que nada acrescentam ao seu Universo. Por isso, se há gente que se deixa elevar pela escrita de Paulo Coelho é porque tal escrita acrescenta (ou dá a ilusão de acrescentar, que é o máximo que se pode pedir à arte ou a qualquer outro esforço humano) alguma coisa ao Universo de tal gente. Se não me eleva a mim, não é porque eu esteja em lugar mais sobranceiro que o vulgar comprador de bestsellers, mas porque o meu Universo prescinde de Paulo Coelho. Mas não prescinde, por exemplo, do Harry Potter, apesar de ser também um bestseller. Muitos dos leitores deste blog referem que não compreendem a reverência de muita gente, como eu, a este produto de massas. Podem considerar que estes livrinhos são compostos por uma sucessão de fórmulas onde se misturam universos prescindíveis, personagens prescindíveis, histórias que nada acrescentam aos nossos mundos particulares. Poderá ser assim para muita gente, não para mim. E não é porque o meu Universo pessoal seja de pior qualidade que o destes leitores. É apenas diferente. Mas será sempre sob a cúpula estrelada do meu pequeno mundo que qualquer comentário meu poderá alguma vez ser compreendido. Quem lê o meu blog sabe que, tendo eu tempo, escrevo, essencialmente, a respeito de gostos, de preferências, de impressões. E de amor. E de morte.

E se gosto da obra de J. K. Rowling é, exactamente, porque me ofereceu, numa tessitura facilmente assimilável por leitores juvenis, algumas das mais belas passagens que a literatura alguma vez me poderia oferecer sobre a fatalmente poética ligação entre amor e morte.

A maioria das obras de literatura juvenil da actualidade prefere refugiar-se num mundo Waltdisneyzado onde a dor é sempre ultrapassável pela possibilidade de um final feliz. Os contos dos Irmãos Grimm já eram eivados o suficiente de morte - mas faltava-lhes o amor. Não tenho a menor dúvida de que qualquer escrita para a infância deve encarar os fantasmas de frente. Rowling teve a ousadia de trazer para a literatura juvenil a inevitabilidade da tragédia, mesmo no mais feérico dos mundos.

Logo no primeiro volume, frente ao espelho que retorna os mais profundos desejos, Harry vê-se ao lado dos seus pais, mortos pouco antes do início da narrativa. Num texto de pura ternura, perante uma felicidade puramente virtual, que se torna em obsessão furtiva  que se desvanece com um fechar de olhos, no espaço vazio da solidão mágica de Hogwarts, Harry recebe um conselho de prudência de uma personagem que manterá ao longo dos volumes uma aura  de simultâneo heroísmo e inutilidade, Dumbledore: por mais consoladora que seja a fantasia, a verdadeira felicidade nunca prescindirá da dor nem do sacrifício; a verdadeira felicidade necessita da autenticidade que só a morte dá. Perante a inevitabilidade da morte, há que se lhe dar o sentido do amor.

Outra passagem, no último volume, mostra-nos Harry, pela primeira vez, frente ao túmulo dos pais, a rever, alterada, deturpada (ou depurada?) a mesma imagem do espelho dos desejos na realidade estéril dos despojos mortais paternos, vazios de significado e que as palavras gravadas no mármore tentam transfigurar em eternidade:  "'The last enemy that shall be defeated is death'"...

" The empty words could not disguise the fact that his parents' moldering remains lay beneath snow and stone, indifferent, unknowing. And tears came before he could stop them, boiling hot then instantly freezing on his face, and what was the point in wiping them off or pretending? He let them fall, his lips pressed hard together, looking down at the thick snow hiding from his eyes the place where the last of Lily and James lay, bones now, surely, or dust, not knowing or caring that their living son stood so near, his heart still beating, alive because of their sacrifice and close to wishing, at this moment, that he was sleeping under the snow with them."


A força desta obra de literatura vai, contudo, além desta poesia que revela aquilo que já sabemos através de palavras que nos enganam com uma sensação da novidade. Não é a poesia outra coisa. Ninguém lê na poesia coisas que não saiba. As notas de rodapé são a morte anunciada de qualquer poema, porque pretendem informar, desvelar de fora para dentro, quando a poesia só pode viver fazendo o caminho inverso. A poesia serve para confirmarmos as nossas certezas íntimas com a ilusão de uma revelação. Porque revelações, de facto, não existem, a não ser nos primeiros anos das nossas vidas - até ao dia em que ficamos a saber que um dia morreremos e que isso é bem claro e definitivo nos olhos de quem nos dá a notícia.

Poderia ainda falar dos jogos de palavras, anagramas e piscadelas de olho mais ou menos (quase sempre mais que menos) eruditas com que a autora salpica cada elemento superficial destes romances: os jogos de quidditch, as guloseimas com sabor a cera de ouvidos, os retratos vivos que cobrem as paredes de Hogwarts, as mandrágoras que gritam de dor ao serem desenterradas... Mas isso são meras distracções copiadas do nosso quotidiano cultural mais vulgar, superficiais e voláteis, como sorrisos cintilantes de sol sobre a superfície aquática do mais negro abismo.

Não tenho dúvidas que haverá sempre alguém que não verá nada disto nesta obra... É pena? Não sei. Talvez não. Dá-me a sensação egoísta que o usufruto privado de uma obra de arte poderá dar a um coleccionador milionário. Dá uma certa vontade de sibilar em serpentês palavras que só nós e os répteis poderemos alguma vez partilhar. Todos vivemos, simultaneamente, em vários círculos. Estou grato à J. K. Rowling por ter entrado neste.
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publicado por Manuel Anastácio às 23:51
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3 comentários:
De Gerana Damulakis a 22 de Outubro de 2007 às 03:49
Bela e lúcida apologia ao mundo criado por J. K. Rowling . Endosso o valor deste fenômeno literário. Assim como endosso a falta de valor literário de Paulo Coelho. Parabéns mais uma vez, aliás sempre, seus textos são deliciosos!
Gerana Damulakis
leitoracritica.blogspot.com
De Manuel Anastácio a 23 de Outubro de 2007 às 22:08
Obrigado, Gerana. Ouvir tal elogio, ainda mais de quem vem, é deveras lisonjeiro. Ah: acabei de te adicionar às rosas... :)
De Anabela Lopes a 28 de Maio de 2009 às 19:38
Manuel (ainda me me faz um pouco de confusão, mas lá me vou habituando à ausência do "professor") :
Apesar de não ter feito referência (pelos vistos, um grande erro meu, ou as coisas teriam seguido caminhos diferentes), sou religiosamente apaixonada pela J. K. Rowling! Venero Harry Potter, tenho todos os livros e é simplesmente uma saga fantástica.
E, se calhar não ficou com essa ideia de mim, não sou apologista de finais felizes. Aliás, também concordo que a dor faz parte da vida e que deve fazer parte dos livros. Aliás, se ler o meu livro, verá que ponho isso em prática.
Não me posso alongar muito, que tenho os meus amigos à minha espera para o jantar. Talvez mais tarde volte a este assunto, porque sobre Harry Potter há muito a dizer.
Um abraço, e obrigada pelos conselhos.
Anabela

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