Terça-feira, 26 de Junho de 2007
Manhã em gotas

Crucifixo, Sé de Viseu. Foto minha em Creative Commons.

No princípio, a manhã em gotas

E o hálito matinal da terra.

Os fungos adormecem estremunhados,

Envoltos em estrume quente.

A manhã em gotas escorre nos vidros

Enquanto pássaros comem a última estrela

Fragmentada

No terraço.

Amanhã, em gotas,

Bafejaste-me a cara com miasmas recessos

Carcomidos de escuridão

Para que acorde para a morte

Despedaçada no terraço,

Na forma de uma manhã em gotas.

Mas sem orvalho.

 

Os pássaros param à vez, e escutam

As arestas cortantes

Da morte em gotas da manhã,

A riscar-lhe os papos rubros de sangue.

Param à vez,

Por gotas de uma manhã

Que não canta, só corta, rasga

Despedaçada que está ali,

Despedaçada no terraço

Como se fossem migalhas

De pão recesso.

Sem orvalho.

Sem cheiro a pão fresco.

Só a morte, despedaçada

Em miasmas carcomidos de escuridão.

Engolem a morte.

Sangram dos papos escarlates

Irisados, em gotas infulgentes, pela manhã.

Não voam, devoram os restos

De uma madrugada de ossos

Que fingem ser sementes.

 

Em gotas cortantes, a manhã risca-me o vidro em frente.

Num chiar fino

De luz que ilumina o sangue

Exposto ao ar da manhã

Em gotas,

Como todas as manhãs,

Em que se esvaem as nossas noites,

Perdendo-se

Gota a gota,

Nos charcos onde se apagam as estrelas.

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publicado por Manuel Anastácio às 15:53
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