Segunda-feira, 25 de Junho de 2007
Wikipédia: PT e BR

Base lateral do portal da Igreja de Vilar de Frades, Barcelos.

A Igreja de Vilar de Frades tem-me ocupado os últimos dias. O resultado pode ser lido aqui, sem vandalismos - e aqui sabe-se lá como (melhor ou pior, o risco será mínimo se aprender a verificar o histórico de um artigo na Wikipédia antes de a usar).

Entretanto, depois de o artigo sobre a Wikipédia ter saído no Público, e depois de o Helder Beja ter resumido (de forma competente) o essencial, ainda fiquei com uma data de linhas escritas sobre o assunto e que julgo que é um desperdício deitar fora. Por isso, vou publicar as respostas a cada uma das perguntas feitas.

  1.Existem mais brasileiros que portugueses a editar a wikipedia, certo? Como se gere a questão linguística português /português do Brasil? É pacífica?

É um facto que existem mais brasileiros que portugueses registados na Wikipédia. Tenho, contudo, algumas dúvidas quanto à quantidade de trabalho produzido pelos dois. Parece-me que, em geral, os utilizadores mais activos são portugueses ou brasileiros residentes na Europa - mas pode ser apenas uma impressão pessoal, que não se baseia em qualquer dado estatístico. Existem muitos contribuidores que reclamam por não existirem duas Wikipédias em separado, para cada uma das normas linguísticas. Contudo, verifica-se que a maioria dessas pessoas ou acabou de conhecer o projecto há pouco tempo e ainda não está familiarizado com os seus objectivos e métodos, ou estão pouco interessados com o projecto e apenas aproveitam para provocar os outros colaboradores, usando de uma boa dose de xenofobia e preconceito, como é frequente numa certa camada de utilizadores da Internet em geral. A Wikipédia, como é aberta à colaboração de todos, não tem forma de evitar esse género de utilizadores. Cada Wikipedista lida com a situação como entende. Há quem fique irritado e peça votações para que os mesmos sejam bloqueados, outros ignoram-nos, entre outras opções que vão sendo discutidas e que, eventualmente, resultam na definição de políticas do próprio projecto. Por enquanto, a esmagadora maioria dos Wikipedistas lusófonos prefere que o projecto se mantenha aberto às duas normas linguísticas, presumindo-se que os utilizadores africanos usarão a norma portuguesa europeia. Creio que a Wikipédia lusófona é um excelente meio para aproximar os países da CPLP, ao incentivar o respeito mútuo pelas diferentes formas de escrever e falar o português. Contudo, o preconceito é generalizado nos dois lados do Atlântico. Isso nota-se, aliás, fora do âmbito da própria Wikipédia. São frequentes os intelectuais da nossa praça a dizerem, sem qualquer vergonha na cara, que os brasileiros escrevem mal. Depreendo que ponham o Jorge Amado e o Machado de Assis no mesmo saco. Mas o contrário também acontece: muitos brasileiros detestam a simples possibilidade de os antigos colonizadores terem uma presença efectiva e actuante num projecto de Língua Portuguesa - e desejariam, com certeza, que apenas se aceitasse a norma brasileira, até porque é, de facto, a norma mais utilizada no resto do mundo, por quem aprende a Língua. É por isso, frequente, que muitos utilizadores se limitem a "corrigir" alguns verbetes, passando a ortografia brasileira para a ortografia europeia ou vice-versa. Em geral, revertemos esses assomos de orgulho ortográfico. Noto, contudo, entre os utilizadores que vão passando pela Wikipédia, que a tolerância em relação à outra norma se vai estabelecendo com o tempo - e que à alergia inicial se vai substituindo a vontade de conhecer com outra profundidade a outra norma, ao mesmo tempo que vamos compreendendo melhor a nossa. A Wikipédia não vem para nos formatar a todos por igual, mas para aprendermos com as nossas diferenças culturais e individuais. É, aliás, mais uma razão para utilizar a Wikipédia, e é mais uma razão que justifica aquilo que eu chamo de "aprender" com a Wikipédia.

Há muitos educadores em Portugal que olham a Wikipédia com desprezo, dizendo que está, em grande parte, escrita em "brasileiro". Muitos alunos copiam os seus trabalhos directamente da Wikipédia e apresentam-nos aos professores que, reconhecendo a ortografia brasileira, ficam irritados dizendo que o texto é de má qualidade. Há quem diga que os alunos deveriam, ao menos, ao entregar o trabalho ao professor,  mudar a ortografia para aquela que é oficial no seu país. Ora, isso é um aspecto de menor importância. Tal como já disse, a Wikipédia, quando é usada no seu nível mais básico (isto é, apenas como fonte de consulta - e não como fonte de aprendizagem através do seu próprio processo de trabalho colaborativo), deve ser utilizada apenas como ponto de partida. Por isso, o que qualquer professor deve fazer quando encontra um trabalho copiado da Wikipédia, esteja ele escrito seja em que norma for, é explicar ao aluno que um trabalho dá trabalho. Não se pode limitar a copiar. Exige um esforço sério de escrita por parte do aluno, a partir de um trabalho de pesquisa que não se pode restringir a uma só fonte bibliográfica (esse é um erro muito comum, entre certos professores, que pedem aos alunos para fazerem "resumos" - ora, artigos de enciclopédias raramente podem ser resumidos! Um trabalho escolar não deve nascer do resumo de coisa nenhuma, mas da confrontação de várias fontes bibliográficas, e quem tem acesso à Internet não se pode queixar da falta de informação para confrontar).

Mas voltando à questão linguística: quem tem preconceito em relação às normas estabelecidas da Língua Portuguesa e julga que só no seu país é que se escreve bem deveria rever bem tal ideia e verificar o quanto de xenófobo há nessa atitude... Devemos cultivar a nossa norma linguística sem desprezar as outras. É essa a atitude generalizada dos Wikipedistas. É essa a mensagem que chega a quem tenta impor a sua forma de escrever neste projecto.

É certo, contudo, que é aconselhável e aceite (aceito) que os artigos maioritariamente escritos numa norma mantenham essa norma. Por isso, se algum português escrever num artigo que em grande parte já está escrito na norma brasileira, é geralmente aceite que alguém retoque essa contribuição para a adaptar ao estilo do resto do texto. Eu, por mim, não tenho qualquer problema - e acho até bonito - em encontrar um texto na Wikipédia que esteja escrito numa norma mista. De facto, se a Wikipédia é apenas uma semente, cabe a quem quiser usar os artigos, noutro local, transformá-los a seu gosto. Por exemplo, se quiser publicar um texto da Wikipédia no meu blog posso perfeitamente modificar o texto para a norma portuguesa. Só ficarei irritado com o estilo dos artigos da Wikipédia se para eles olhar como se fossem um produto final.  E não são. Os produtos finais devem ser feitos por outras pessoas: peguem nos melhores textos da Wikipédia, adaptem-nos, verifiquem a veracidade das informações e publiquem-nos. Se isso for feito por alguém idóneo, já estaremos, de facto, perante um produto final. O futuro virtual da Wikipédia está fora da própria Wikipédia - na mão de quem quiser utilizar o que lá está, oferecido, gratuitamente, a todos - nem em português do Brasil nem de Portugal - mas no português de todo o lado.

Esta questão não é, pois, pacífica. Mexe com orgulhos e patriotismos primários. Mas creio que a Wikipédia não deve transigir na sua abertura às duas normas. E tudo leva a crer que assim continuará a ser. Há, felizmente, mais pessoas interessadas em fazer pontes que a erguerem fronteiras. Isso é particularmente verdade para quem tem contribuido de forma séria neste projecto
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publicado por Manuel Anastácio às 10:56
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7 comentários:
De Luan a 26 de Junho de 2007 às 02:20
"É um facto que existem mais brasileiros que portugueses registados na Wikipédia. Tenho, contudo, algumas dúvidas quanto à quantidade de trabalho produzido pelos dois. Parece-me que, em geral, os utilizadores mais activos são portugueses ou brasileiros residentes na Europa"

hahahahahah Criatura portuga patética, ridicula, imbecil, racista e xenófoba. Saiba que são 35 milhões de usuários brasileiros da internet, 85% da Wikipédia foi escrita pelos brasileiros que em sua maioria absoluta são residentes no Brasil ( o terceiro país do mundo com mais computadores). Vocês portugas são a escória do planeta, criaturas arrogantes e nojentas, vocês só servem pra deturpar e criar confusão em algo que seria extremamente útil se não houvesse a interferência dessa sub-raça de mouros analfabetos bagunçando os artigos e alterando a grafia pra sua norminha nojenta, velha e marcada pra extinção. Mas eu tenho esperança que a Wikipédia brasileira irá ainda se separar e serão banidos de lá todos os portugas imundos que infestam esse projeto tão interessante e importante.
De Manuel Anastácio a 26 de Junho de 2007 às 15:51
De Hugo Almeida a 15 de Setembro de 2007 às 05:01
Caro Luan , amiguinho brasileiro: isso de acusar um português que é xenófobo e racista e depois ter idêntica atitude ao chamar aos portugueses sub-raça de mouros analfabetos, escória do planeta, imundos, arrogantes e nojentos...mas quem é que é afinal racista e xenófobo? Tem vergonha na cara, pá! Mais valia estares calado. Boa demonstração de ignorância, falta de civismo e má educação que deste.
De Manuel Anastácio a 22 de Setembro de 2007 às 16:56
Caro Hugo: agradecia que expusesse onde é que fui racista e xenófobo. É coisa que não me considero... contudo, estou aberto a críticas...
De yuri a 15 de Março de 2010 às 04:28
é isso que me deixa irritado, algumas pessoas aqui no brasil , muitas diga-se de passagem, começar a xingar portugueses sem motivo, muitos portugueses também fazem isso, mas noto que na maioria das vezes é um brasileiro que começa a baixaria. ainda tenho esperanças de que em um futuro distante esse bairrismo idiota de ambas as partes acabe.

ótimo post manuel! bem informativo.
abraço.
De lifemare a 2 de Setembro de 2012 às 04:39
Não há absolutamente nada de xenófobo em reconhecer as diferenças entre o português da sua pátria de origem e o português exportado para o Brasil.
Há razões de várias ordens para a deturpação oral da língua, qualquer língua viva sofre disso, e o português de Portugal, continua hoje a sofrer alterações, que provêm de via erudita e, muito mais frequentemente, de declinações paulatinamente instituídas pela expressão popular diária da nossa língua. É algo de perfeitamente natural e que, me parece, deveria inclusivamente ser acolhido com maior respeito.
Não sou um acérrimo conservador, pretendendo enclausurar o português ou o inglês (que é a minha segunda língua e a língua-franca da actualidade) numa redoma de imutabilidade e suposta perfeição. Mas apesar de evitar compactuar com tais reaccionários, sinto sempre a mais pequena afronta à pureza etimológica dos vocábulos com uma visceral pungência. Cada palavra maltratada, abre em mim feridas. Sobretudo quando é escrita e a leio na minha voz, dentro da minha mente. Ler um discurso mal construído e ensanguentado de erros, força-me a língua e o intelecto a rastejar nessa lama. Subjuga-me a uma batalha conceptual asquerosa entre quem eu sou e quem eu incarno quando leio. Sinto-me momentaneamente deficiente mental. Ver todos os termos com os quais construo conhecimento, de repente poluídos de erros, abana as fundações do meu ser. É a antítese da poesia! É atroz! Enquanto o poeta compôem uma sinfonia surpreendente, vestindo as palavras com significados novos, temperando-as com outras dimensões, enriquecendo-as, abrindo fundos sulcos em terrenos virgens da imaginação e do julgamento; o antipoeta (o brasileiro, neste caso) investe o arado verbal sobre hortas fecundas, arrasando toda a "cultura."
A língua não é apenas identidade nacional, não se armem em quezílias dessas politizando o assunto - a língua é identidade. Ponto! É a ferramente através da qual a razão opera, e a individualidade germina. A língua não é apenas comunicação, nesse campo é muitas vezes onde fraqueja - a língua é entendimento. É através dela que simbolizamos a realidade e construímos o mundo.
Ela é talvez o maior tesouro da humanidade e será de esperar que defendamos a nossa maneira de ver o mundo e a tentemos protejer, a sua essência, as suas regras e componentes, de abusos.
Um dos abusos - soe bem ou mal - é o brasileiro. Não advogo que o Brasil não tenha todo o direito e mais algum de fazer o que bem entende do português que lhe "oferecemos" em tempos distantes - colonialismos à parte. Pelo contrário, devem procurar adaptá-lo o mais possível à identidade que é apenas deles.
A maneira de falar varia imenso em regiões extremamente pequenas dentro de Portugal. Em locais onde as Nações vão decidindo plantar fronteiras, surgem miscigenações de língua. Onde o clima é mais tropical surgem vogais mais abertas, fruto da própria respiração humana. Viage-se até à Islândia e ver-se-á o contrário: vogais apertadas e consoantes fechadas. O corpo humano, a natureza, a história - tudo urde a língua.
Construam, sem pudores, sem barreiras se desejarem, construam o Brasileiro à vossa imagem.
Mas, não nos obriguem a nós (portugueses) a falar e escrever por essas regras.
E, mais uma vez, não politizem e deturpem a questão. Não se trata de orgulhos ou de nacionalismos. Isso é uma visão pré-fabricada que não dignifica nenhum diálogo, nem oferece recompensas lógicas. Trata-se da identidade dos povos e do direito inalienável que estes têm de desenvolver a sua língua, da forma que a sua cultura potencia e exige. É tão errado tentar converter brasileiros ao sagrado dicionário de Português, como o é tentar converter portugueses à santa gramática de Brasileiro.
A convivência entre os nossos dois povos é tao impossível como a convivência entre Portugueses e Espanhóis - não é. Mas, é por demais evidente, que não é através da língua que se consumará tal união. Essa é assaz a raíz da discórdia.
Tente-se sensibilizar a Wikipedia a separar os dois idiomas, para o bem da sanidade de ambos os locutores.
Que ver a minha língua submetida aos caprichos de outro povo, é também colonialismo. E gostava de acreditar que já ultrapassámos esse período grotesco. Já basta o Império Romano dos Estados Unidos a enfiar a sua hegemonia por tudo o que é orifício.
De lifemare a 2 de Setembro de 2012 às 19:50
Esgotei o limite de caracteres na última mensagem.
Desde já, peço desculpa, pela enormidade da resposta...

Sobrou-me apenas referir que a dicotomia entre PT e PT-BR é idêntica à EN-GB/EN-US. Duas pátrias irmãs, com um passado colonialista, hoje em dia aliadas, mas cujas línguas, apesar de partilharem o mesmo núcleo, são utilizadas de forma extremamente diferenciada.
Tendo havido discernimento suficiente na Wikipedia para separar os idiomas destes dois países, é simples coerência que se aplique o mesmo critério ao português.

Dizer de sua justiça

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