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Sábado, 23 de Junho de 2007
Ombra mai fu

O contratenor David Daniels, cantando "Ombra mai fu", da Ópera Xerxes, de Handel, conduzido por Julius Rudel. Nova Iorque, 1997
 
Estava eu a desligar a televisão quando começou um documentário-entrevista de uma série que se chama "O meu bairro". Parecia interessante, mas estava cheio de sono. Mas o sono passou quando vi que o "bairro" de que se iria falar era sobre o "bairro" de Cláudio Torres - ou, seja, Mértola. E, não sei por que razão - alguma característica vestigial-animal e irracional, por certo - tinha de ver aquilo que já conhecia. Acordei logo. Se fosse sobre outro sítio qualquer para mim desconhecido (isto é, se fosse um programa que me fosse ensinar alguma coisa de totalmente nova), teria apagado a televisão. Mas este gosto em rever as coisas, em saber notícias do torrão por nós já pisado é forte. Muito forte. Ainda mais quando o programa se chamava "O meu bairro" - ora, o bairro de alguém não se limita às ruas e às casas - às edificações - mas às gentes que o habitam. De facto, a minha perspectiva parece reflectir-se nas palavras de Jorge Wemans, director da RTP2 ao Jornal de Notícias:  "Pretendemos mostrar que existem espaços que não só lugares edificados mas são também pessoas e relações que se estabelecem". Ora, ainda há dias, a respeito do filme "Então é assim...", falei de Mértola em tons menos abonatórios (tudo o que não seja laudatório é, na blogosfera, considerado menos abonatório quando não mesmo ofensivo). E referi-me às gentes. Ora, lembro-me bem de alunos que eram excelentes pessoas, lembro-me de colegas de Mértola com quem fazia rádio pirata na escola, mesmo à noite,, com quem fazia gaspacho ao final do dia, antes de uma saída ao Bar Lancelote, lembro-me de alguns alunos de coração grande sem venenos de calculismo, lembro-me do café onde me convidavam para participar da açorda fervente e perfumada de poejos. Lembro-me dos dois alunos com síndrome de Down que não abandonavam a sala de professores - especilamente de um, que desconfiando que eu fosse extra-terrestre ou enviado do diabo, ainda assim me doutrinava sobre o demonismo, com um livro das Testemunhas de Jeová numa das mãos e o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" do Saramago na outra. Lembro-me das vezes que tive de entrar na casa das vizinhas para expulsar as osgas. Lembro-me do Mário Elias a cravar copos de vinho aos visitantes e a demonstrar pela enésima vez que sabia o significado da palavra "polímato". Lembro-me do João - que, estando eu de visita a Mértola, na minha lua de mel, com a Carla, nos cantou, apenas para com os dois como espectadores, entre os arcos brancos da antiga mesquita, o "ombra mai fu" de Handel com uma voz de contralto contratenor1 que nos alagou os olhos. Para mim, o bairro Mértola estendia-se ainda à pizaria "A paragem", na minúscula aldeia de Corvos,  a uma dezena de quilómetros da vila, onde comíamos  massa italiana com nomes operáticos (Turandot,  Turiddu...) e pizas divinas mas, principalmente,  o alentejano cozido de grão, a punheta de bacalhau numa mesa cá fora, entre o horizonte de terra cansada e um céu paciente. Esse foi o meu bairro. Era a Mértola que valia a pena. Hoje, a terra está mais sofisticada, tem outras coisas que valem a pena: pedras, cacos, colunas, mosaicos, calçadas, muros, muralhas, alcachofras de pedra à Cutileiro - os núcleos museológicos são visitáveis (têm a porta aberta!!!...), mas já não é o meu bairro. Foi-o apenas por uma ano.

"O meu bairro", conduzido pela sempre simpática Ana Sousa Dias, guiada pela mão de Cláudio Torres, seguiu-se pelas ruas de Mértola. Qual é o bairro de Cláudio Torres, pelo que se percebeu por este documentário? As pedras. Incluindo a antiga mesquita, hoje igreja, onde ouvi o ombra mai fu. Pedras... Ainda se entreviu um restaurante (O Migas, provavelmente, mas sem certezas). Mas e as pessoas? Não há gente em Mértola? Fiquei apenas a saber que o Cláudio Torres foi lá aceite pelo pessoal (e aceite é a palavra) que via com benevolência aquela gente que em vez de ir para a praia (Vila Real de Santo António ali tão perto...) ia desenterrar cacos... Pouco mais se falou das gentes. Não se viu ninguém de Mértola. Vila vazia. Vila Museu, diz a entrada. Compreendi - ou serei muito mauzinho?... - que os habitantes de Mértola que enchem o bairro de Cláudio Torres são os fantasmas que residem entre o pó e a intersecção de ruínas do antigo gânglio linfático do Guadiana. Serei mauzinho? Talvez. Talvez não.

Um óptimo local para ouvir o ombra mai fu, sem dúvida.

Ombra mai fu
di vegetabile,
cara ed amabile,
soave più.

Jamais a sombra
Cara e amável
Dos vegetais
Foi tão suave.

1Contratenor, claro. Obrigado à Ana Ramon pelo aviso de tal disparate.
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 11:45
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1 comentário:
De Artur a 28 de Junho de 2007 às 22:10
Também vi esse programa, assim por alto enquanto dedicava a atenção às curvas e aos nós dos vectores. Fiquei mesmerizado pela paisagem.

Dizer de sua justiça

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