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Domingo, 17 de Junho de 2007
Arregalar o olho

Pormenor do "Retrato do Mercador Georg Gisze" de Hans Holbein

Há quem me julgue uma pessoa calma. De facto, não sou. A minha paciência tem limites. Mas enquanto que algumas pessoas puxam da metralhadora e desatam a matar colegas de trabalho, eu limito-me a - como diria a minha mãe - a "arregalar o olho". E esta acção de arregalar o olho é, para quem me conhece, tão ou mais violenta que matar alguém. Suponho que se chegasse junto de qualquer um dos meus familiares com sangue a pingar das mãos não provocaria tanto horror quanto provoco com o simples facto de arregalar o olho. Nem sequer é arregalar os olhos - isso implicaria simetria, e a simetria é harmonia a mais para um gesto tão horrível quanto este. O gesto é necessariamente assimétrico: um dos olhos permanece relaxado enquanto o outro se abre até à impossibilidade, com a esclerótica devidamente raiada de sangue. Ora, geralmente, fico assim quando as pessoas interpretam mal as minhas palavras não porque as tenha dito de forma ambígua mas por total incompetência ou, pior ainda, por malvadez irónica. Gosto muito da ironia. Mas tem de ser utilizada enquanto ironia, e não como forma de ridicularizar ideias ou argumentos legítimos - e, muito menos, pessoas (a não ser que essas pessoas mereçam mesmo, mesmo, mesmo...). Detesto, de igual forma, que tentem demonstrar, com falácias, que o raciocínio que eu tento seguir está errado - não porque eu parta do princípio que todos os meus raciocínios estão certos, mas porque eu estou a segui-lo com seriedade, enquanto que os outros apenas estão interessados em sair vitoriosos do combate de ideias. Acontece que eu não vejo uma discussão como uma batalha a ser ganha - não são os participantes que devem sair vitoriosos, mas as ideias que devem sair mais esclarecidas. Infelizmente, tenho por vezes a sensação de que sou, quanto a isso, uma ave rara. Toda a gente gosta de adoptar meia dúzia de verdades e está decidida a morrer agarrado a elas. Alguns ainda têm o pudor de chamar a isso "Fé", outros acreditam no valor intrínseco das suas verdades, com ou sem fé. Para mim, a Fé, tal como concebida pelos Padres e Doutores da Igreja (gente inteligente, ao contrário de muitos dos que julgam que acreditam neles) não se envolve em raciocínios. A Fé é legítima, mas não pode ser inserida como elemento racional. Fazê-lo é negar tanto o raciocínio lógico como a própria fé. É cair no mais absoluto e acéfalo niilismo que aqueles que julgam que defendem a fé tanto votam ao anátema. É cair na boca do nada. É entrar irremediavelmente no limbo do desespero e da escuridão absoluta. Mas cada um escolhe a luz que entende. E há quem goste de se guiar pelos caminhos das trevas, já que a luz cega e confunde (o que é absolutamente verdade).

Lembro-me de uma discussão sobre um problema de matemática. Um rapaz comprava uma bicicleta por 15 euros e vendia-a por 20 euros. No dia seguinte, voltava a comprá-la por 25 euros e voltava a vendê-la por 30 euros. A questão final era: "nas quatro transacções efectuadas, quanto é que o rapaz lucrou"? Ora, é óbvio que o rapaz lucrou em cada compra/venda 5 euros, o que dá 10 euros. Com todas estas transacções, o rapaz ganhou efectivamente 10 euros. Acontece que há pessoas que, ofuscadas pelo facto de a segunda compra ter sido com um montante maior, julgue que o lucro da primeira transacção se esvai!!! Que se reduz a zero... Aliás: que se reduz a valores negativos - valores negativos (-5) que, somados ao lucro final (+5) dá 0 (zero) . Provavelmente, haverá entre os leitores pessoas que julgarão que sim - que não há lucro nenhum. E não há mal em que fiquem nessa confusão. Mal será, contudo, se depois da seguinte ilustração ainda não entenderem o erro em que persistem:

Imaginem que tenho 100 euros comigo.

Compro um bicicleta por 15 euros - fico com 85 euros.

Vendo-a por 20 euros - fico com 105 euros. Certo?...

No dia seguinte, compro a bicicleta por 25 euros. Fico com 80 euros.

Vendo-a por 30 euros. Fico com 110 euros.

Fico, portanto, com 10 euros a mais do que os que tinha no início da transacção. Mas há quem persista no erro abstracto dos valores negativos (falaciosos) que se anulam com o lucro final. Pior é quando o indíviduo que persiste nesse erro é professor de matemática! Pior ainda: quando propomos a prova prática do lucro efectivo. Primeiro dizemos: Ora, se não há lucro da parte do rapaz, também não haverá prejuízo para o outro parceiro das transacções, que para efeitos de raciocínio até se pode supor ser sempre a mesma pessoa. Isso parece lógico - é, aliás, o fundamento racional de qualquer equação: num sistema fechado, dividido em duas partes, quando uma das partes perde alguma coisa, a outra ganha, já que o sistema é fechado - acontece que o professor que connosco fala é esperto e diz logo: pois! Mas o mercado não é um sistema fechado. Pois não. Ora porra. Era tão simples se vivêssemos num livro de exercícios com soluções no final da página... Mas adiante: já que não há lucro, também não há prejuízo, certo? Perguntamos... Mas aqui, o nosso amigo já começa a vacilar... Bem, se calhar nem sempre é assim. E nós perguntamos: então o lucro ou prejuízo podem ter geração espontânea, certo? Melhor ainda: se não é assim, temos pela frente uma idade áurea da economia em que em cada transacção todos terão lucro!!! Ou, na pior das hipóteses, será melhor que se proiba o comércio, caso contrário, entramos todos em prejuízo... Porque se não concebermos que para um dado lucro corresponde o mesmo valor em prejuízo para a outra parte, teremos necessariamente de aceitar um dos cenários atrás apresentados. Mas fiquemos por aqui. É mais simples chegar ao pé do  outro tipo e dizer: olha lá: tens aí essa caneta, vou comprar-ta por cinco euros e depois compras-ma tu por dez... E o tipo diz: não, porque assim ganhas cinco euros. E eu digo: com certeza, mas não te preocupes, que eu a seguir volto a comprá-la por quinze euros (perco assim os cinco euros que ganhei - fico com cinco euros de prejuízo) e vendo-ta depois por vinte euros, cujos cinco euros de lucro apenas servirão para repor os cinco que perdi da segunda vez que ta comprei. Eu não vou ganhar nada. Por isso tu também não vais perder nada. A não ser que acredites que no meio disto tudo fizémos como o mágico que faz desaparecer coelhinhos na cartola... E aí: será que o nosso caro amigo cai na esparrela? Era o caías!... A "matemática" é muito bonita em teoria - pensa ele - mas não a vou experimentar na minha própria carteira! O que é engraçado, porque mesmo perante a prova prática continuará a defender que não houve lucro... De gritos, não é? Pois bem, é nessa altura que eu costumo arregalar o olho... Podia, de facto, puxar de uma bazuca e dar cabo, com uma boa explosão, com a estupidez humana. Mas aí seria eu a ser mais estúpido ainda, pelo que haveria lucro espontâneo na estupidez.

[...] * texto truncado por vontade do autor, a ser reposto caso se justifique.
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publicado por Manuel Anastácio às 13:43
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