Sábado, 16 de Junho de 2007
Enciclopédia íntima: Retrato

Foto de Luís Efigénio/NFactos

O artigo do Público sobre a Wikipédia está equilibrado e não se deixa levar por equívocos nem por ideias e premissas erradas sobre o que seja o projecto, à maneira de Pacheco Pereira e afins. Entretanto, a fotografia que publicaram da minha pessoa acabou por reflectir o meu calculismo simbólico... O Luís Efigénio, que estoicamente aguentou a insistência felina do Mies em interromper a sessão fotográfica teve a ideia de me rodear de livros e de me fotografar em ângulo picado, como se o Espírito Santo viesse para iluminar o Wikipedista perdido na floresta escura do meandro osmótico que se estabelece entre entre a Wikipédia e os livros. Perante a sugestão, decidi rodear-me de alguns ícones: com o portátil com que escrevo este post sobre as pernas,folheio, à direita, uma página de um volume do Houaiss. A Língua portuguesa em primeiro lugar, claro, mas sem o bairrismo da Pátria Lusa. Mas, sem esquecer que, afinal, sou português (e não admito que me digam que não sou patriota... fanático não, mas patriota sou, ainda que me esteja a borrifar para os resultados da Selecção Nacional), tenho, sob o meu braço direito, a "Viagem a Portugal" do Saramago - reconhecível por quem conhece os livros pelas capas. Ainda do meu lado direito, à frente, uma biografia de Pedro IV de Portugal, primeiro imperador do Brasil - novamente, a referência explícita à lusofonia que, não excluindo os países africanos e Timor, tem de se centrar prioritariamente na relação Portugal / Brasil, já que se assumem como os dois pólos orientadores da Língua Portuguesa. No mesmo monte, aparece a obra completa de Jorge Luís Borges - e que autor mais Wikipédico existe que este???... A biblioteca de Babel, o caminho da impossibilidade de qualquer conhecimento, apesar da inevitável e justificadora persitência de quem nele segue, bem como a centralidade do leitor enquanto verdadeiro criador do texto lido justificam que tivesse de convocar Borges. E, finalmente, do meu lado esquerdo - ainda um lado meu, e do coração, ainda que simbolicamente mais crítico, tenho um volume aberto da Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira da Cultura, Edição Seculo XXI. Ora, é uma enciclopédia, com certeza. Que uso frequentemente, com certeza. E que critico frequentemente pelas suas passagens com tantos erros como a Wikipédia, com a diferença de que os erros desta Enciclopédia foram todos (espero eu) escritos com boa intenção - e não poderão ser corrigidos por quem os encontrar. E cujos erros são tornados verdade por estarem subscritos por nomes "credíveis", ao contrário dos anónimos que editam a Wikipédia.

Um retrato deverá convocar a tensão entre o retratado e a sua duplicação através de uma imagem que a ele apenas se refere, mas não o substitui. O retrato é uma interpretação do outro condicionada pelos meios físicos de execução da obra - condicionantes esses que se esbatem na pintura (cujas condicionantes são mais técnicas que que "referenciais") mas que são especialmente prementes na fotografia. Esta, estando, hoje, longe da simples tarefa de reprodução do real continua a ter no real a sua matéria prima, mesmo quando o objecto final - a fotografia - não é uma entidade sensorialmente reconhecível. Contudo, mesmo um retrato abstracto, coisa perfeitamente possível, terá de ter, paradoxalmente, um elemento mimético reconhecível. A acção de retratar vai buscar o seu nome ao latim retrahere, que significa copiar. Copiar, acima de tudo, para resgatar da morte. Por alguma razão os primeiros retratos aparecem em contextos funerários, como no retrato rupreste da Floresta de Vilhonneur ou na cultura egípcio-romana. Contudo, é na época renascentista e, mais especificamente na pintura flamenga que o retrato chega a confundir-se com o seu próprio ideal, ao transcender a reprodução física, integrando uma linguagem que vive do contexto e do carácter gerador de significados das imagens usadas. Não sou propriamente um modelo fotográfico, mas parece-me que o Luís Efigénio tem alma renascentista.
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publicado por Manuel Anastácio às 14:24
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