Sexta-feira, 8 de Junho de 2007
Ah, então é assim?

Então é assim!... - 1.ª parte

Era uma vez um rapazeco que ia ser professor pela primeira vez e que tinha sido colocado em Mértola. O rapaz era do Ribatejo, da zona do Pinhal - agora, também conhecida como zona do carvão e dos fetos - e de Mértola só sabia que tinha uma escola que tinha ganho um prémio da OCDE que a tinha listado entre as 25 melhores escolas do mundo. Era a primeira escola onde ele ia dar aulas. Uma escola com dois planetários insufláveis, uma estação de rádio pirata (na altura, a única rádio que se podia ouvir em Mértola, numa época em que A.M. significava "antes de Mértola" e F.M. significava "Fora de Mértola"  - agora a RTP já colocou um retransmissor e já se podem ouvir a Antena 1, a Antena 2 e a Antena 3), uma rede de televisão interna e... principalmente... uma necrópole romana e uma ermida do século XVI!!!... Sempre que o jardineiro cavava um buraco naquela escola encontrava uma tíbia, um fémur, uma adaga mourisca e, em dias de sorte, uma caveira. Ah: e havia o Guadiana ali logo ao lado, num ano em que a cheia derrubou casas no Pomarão e em que se viam frigoríficos e outros artefactos domésticos a descer a corrente... Belos tempos. O rapazito era eu, claro, ainda cheio de acne na cara (antes de descobrir que melhor que o Clearasil era mesmo um bocado de algodão embebido em água oxigenada, ainda que tivesse como efeitos secundários uma madeixa loura nas têmporas) e, por isso, foi confundido pelas funcionárias que o mandaram para a fila dos alunos que se estavam a inscrever para os exames não-sei-do-quê-já...

Foi o meu primeiro ano de professor e calhou-me algumas turmas que se refastelaram com a minha ingenuidade de primeiro ano. Do Alentejo levei o amor à paisagem - até as águas estagnadas do Guadiana, os mosquitos e osgas à noite e o alcatrão que se imprimia de pegadas nos dias mais quentes pareciam belos. Menos amor levei das gentes. Os alentejanos não são melhores nem piores do que os outros. Não são mais simpáticos, não são mais preguiçosos, não são mais hospitaleiros (por acaso, parece-me que até são menos que os do Norte, e não digo isto por viver no Norte agora) - mas quando estão encerrados no meio de uma cadeia de montanhas, no meio de nada, numa terra onde nem chegam vegetais frescos, tornam-se, como todos se tornariam, um pouco mais mesquinhos - um pouco mais políticos, no que de pior tem a palavra. Não sou o tipo de pessoa que diz bem do pessoal de um sítio só porque mora num sítio. Há gente muito boa em Mértola, mas os maus são mesmo beras (quer dizer, insignificantes, mas, ainda assim, irritantes)...

Nesse primeiro ano, passei para as turmas do 6.º Ano este filme, que o blog Apdeites em boa hora colocou no Youtube... Talvez violando direitos de autor, mas que se lixe isso agora... [risco a frase porque não quero, de modo algum, acusar o dito blog de infringir as leis de copyright - até porque eu mesmo usei o vídeo!!!]

Ora, este filme foi muito comentado nos últimos dias neste país à beira Guadiana -estagnado plantado. Como se fosse uma novidade - ora, os meus alunos de Mértola, que terão agora 22 ou 23 anos dirão entre si, enquanto comem sementes de sésamo e cospem as cascas para o chão e emborcam mais uma bujeca: "Ôoo... Ôoo... a gente não viu já isto? Ôoo.. Há muitos, muitos anos atrás?... Ô?..." E o outro responde: "Ôoo... Ôoo... Não sei, não gosto de desenhos animados..."

Houve gente que até se deu ao trabalho de escrever um daqueles mail-cocó (não vou dizer palavras feias) a dizer que o filme era pornográfico, apresentava cenas de sexo explícito e  tinha até uma cena "violentíssima" de um parto e que por isso, a RTP, paga com os nossos impostos, tinha a obrigação de não passar tal coisa, ainda mais depois do Noddy e do Ruca...

Eu, por mim, só tenho a criticar a péssima dobragem (dublagem, como se diz no Brasil) e alguns erros científicos, como quando vemos o espermatozóide a entrar, todo ele, no óvulo, quando toda a gente deveria saber que o rabito fica da parte de fora... Diga-se de passagem, também, que o filme, em si, também não é grande coisa. Até a minha escola de agora (que não está entre as 25 da OCDE e muito faltaria para lá estar) tem uma série de filminhos mais engraçados (e bem dobrados) onde uma avozita simpática pára de fazer crochê para explicar, a dois netinhos amorosos, como já não há (ou nunca houve), as realidades das partes baixas. Filminhos esses comprados, claro, com os nossos impostos, quando se poderia comprar a série toda do Noddy ou do Bob, o construtor... sinceramente! É por causa de coisas assim que este país não vai para a frente e que o pessoal, degenerado, prefere fazer amor em vez de trabalhar nas obras...
Então é assim!... 2.ª Parte
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publicado por Manuel Anastácio às 23:07
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6 comentários:
De JPG a 9 de Junho de 2007 às 12:55
É pena que, com a redacção que deu ao texto, nesse particular, o Apdeites apareça (ou pareça) conotado com qualquer espécie de "copyright infringement ". Como terá reparado, no post onde os vídeos foram publicados, refere-se expressamente que aqueles materiais serão imediatamente retirados caso haja alguma objecção desse teor.
Acresce que o Apdeites é, quanto às questões relacionadas com direitos de autor, um dos sites mais empenhados... se não aquele que mais se dedica ao combate à pirataria e ao plágio.
De Manuel Anastácio a 9 de Junho de 2007 às 12:58
Peço imensas desculpas. Não pretendia passar essa imagem.
De Ana Ramon a 9 de Junho de 2007 às 20:20
Olá Manuel! Há muito que não passava por aqui. Em primeiro lugar venho agradecer o teu abraço (porque há palavras que são autênticos abraços de amizade) e depois ler o que tens andado a escrever. Comecei por este post e não fiquei com a impressão que o autor do blog que citas, ficou. Acho que não há razão para a preocupação que ele manifestou no comentário. Mas é só a minha opinião. Também adicionei 2 vídeos ao último post sobre os castrati retirando-os do You Tube. Poderei ser acusada de estar a infringir alguma coisa? Agora fiquei preocupada.
Um beijinho
De Manuel Anastácio a 9 de Junho de 2007 às 23:13
A minha única preocupação é com o facto de o filme lá estar na sua versão integral. Contudo, tendo em conta a qualidade da imagem, creio que não se está a prejudicar ninguém - para passar o filme numa televisão, por exemplo, continuará a ser necessário ter uma outra versão... Eu compreendo o comentário - a minha frase parecia ser acusatória... O Youtube vem para questionar os direitos de autor? Creio que não. Se alguém se sentir lesado, o vídeo pode ser prontamente retirado...
De JPG a 10 de Junho de 2007 às 13:17
Perdão. A questão põe-se ao contrário: não será a YouTube a levantar qualquer problema; se isso suceder, será a produtora do filme ou a própria RTP.
Neste caso, não tem nada a ver a publicação indiferenciada de vídeos produzidos ou manuseados por outrem com isto: fui eu quem fez download integral do programa "Sociedade Civil" e quem, depois, retirou o filme animado e o dividiu em 2 partes. Nesta conformidade, posso ser pessoalmente acusado de "copyright infringement". Tendo consciência disto, mas atendendo ao óbvio interesse pedagógico do filme - e sabendo ainda, após pesquisa exaustiva, que o mesmo não estava online - decidi correr o risco. Mas enfim, esperemos, não há-de ser nada...
Seria irónico, no mínimo, que o Apdeites fosse acusado daquilo que tão insistentemente vem cmbatendo!
De Manuel Anastácio a 10 de Junho de 2007 às 14:29
Eu não disse que seria o You Tube a levantar problemas (por isso a questão não tem de ser posta ao contrário). É óbvio que serão os detentores dos direitos aqueles que poderão reclamar e não o You Tube!!! Estava apenas a responder à Ana, e não ao caso específico da postagem deste vídeo pelo Apdites (e, como eu dido no post: "em boa hora...). O (fenómeno do) You Tube vem questionar (levantar questões) os direitos autorais e aquilo que é legítimo ou não divulgar por terceiros! Por exemplo: quando começa e acaba o interesse público/pedagógico? São questões que a legislação nacional e internacional ainda não define com clareza. Era apenas isso que eu queria dizer. Claro que concordo que este filme deve manter-se no Youtube...

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