Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2004
Suicídio nas águas

  Ofélia, de John Everett Millais

Nas águas onde Ofélia flutua

E Virgínia desce,

Anju avança, a caminho da plácida anulação da dor.

Onde as flores se despedaçam lentamente

Em pétalas manchadas de limo verde,

Ofélia flutua e Virgínia desce.

Anju avança entre as ervas altas coroadas de neve e algodão.

Onde um barco vacila,

Encalhado nos cabelos das fadas,

Que todos os dias morrem

Pela descrença,

Dois amantes baloiçam sobre o espelho baço do nevoeiro

E descobrem no abraço da morte

Que o rio apenas dissolve as mágoas

Nas lágrimas da própria Terra…

Ofélia flutua

Como mais uma flor arrancada à terra

E sem outras raízes que não o ventre esquecido de sua mãe.

Virgínia desce

E ancora no lodo das vozes.

Anju avança

Ofélia flutua

Virgínia desce

No ventre esquecido das mães que nunca foram.

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publicado por Manuel Anastácio às 19:39
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3 comentários:
De Rata Zinger a 14 de Julho de 2005 às 16:24
Isto é uma coincidência muito grande. Há uns anos atrás, escrevi um poema sobre Ofélia e escolhi justamente esta ilustração para o poema. Feliz coincidência mesmo ;-P
De Manuel a 12 de Dezembro de 2004 às 04:38
A verdade é que junto aqui três referências a três destinos femininos: dois ficcionais (Anju, de um filme de Kenji Mizoguchi, "O Intendente Sansho" que é, quanto a mim, um dos melhores filmes de sempre - e de Ofélia, de Hamlet), o outro é de Virgínia Woolf. Obrigado pelas palavras.
De Virgnia Pedras a 11 de Dezembro de 2004 às 23:22
Pouco posso falar da história, pois apenas conhecia a pintura...mas posso falar da maneira como escreves..gostei muito...complexamente irresistivel!..um beijo**

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