Quarta-feira, 6 de Junho de 2007
Rosas I - Confissão

"Santa Isabel e o Milagre das Rosas" , óleo sobre madeira, de Anónimo, Século XVI, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra

    - Juro que te tinha mentido! Eram pães e não rosas!
    - Isabel! Que queres que eu diga? Que foi milagre? É que se foi milagre, deixa-me dizer-te que um dos mandamentos da Lei Divina é, segundo creio, "não mentirás".
    - Sim, mesmo por isso te estou a confessar a minha falta. Foi provavelmente um justo castigo, este de te confessar uma mentira, tendo, para isso, de dizer uma verdade em que não acreditas!
    - Estás então a dizer-me que em vez de andares a depenar o jardim, andas a depenar os já de si pouco cheios cofres do Reino? Se és capaz de milagres, faz ao menos o da multiplicação do ouro - os teus pobrezinhos agradeceriam.
    - Não brinques com isso, Dinis. Desobedeci-te, menti - mas não fiz milagre algum. Quem faz os milagres é Deus. E, neste caso, parece-me que, mais que um milagre, foi isto uma advertência do Espírito Santo, para que não seja eu a fazer a caridade às escondidas, mas que tu mesmo compreendas que é altura de que todos os habitantes deste reino tenham direito ao pão. Aproxima-se o dia do Santo Corpo de Deus que, como sabes, é o pão da Santa Eucaristia. Dinis, vem aí um Novo Tempo, o tempo das Rosas, o tempo do Espírito...
    - Que pensamentos os teus. Vem aí um Novo Tempo? Claro que vem, vem sempre...
    - Não brinques com coisas sérias. Não tenho notícia de pães se transformarem em rosas, desta maneira...
    - A sério? É que a mim quer parecer-me que ouvi isso nalgum sítio, a uma tia tua, rainha da Hungria, se não estou em erro. Creio que ouvi a história ao frade que te trouxe aquele texto de Lúlio. Pelo que dizem, anda metido nessas coisas de fazer ouro a partir de latão... Acho que disse que era capaz de tranformar o Oceano em Ouro se tivesse fogo que chegasse... Ou fogo, ou mercúrio, ou enxofre... Não sei bem. Não tenho tempo para me dedicar a essas coisas.
    - Duvido. Se Lúlio se entrega a conhecimentos obscuros, não é, com certeza, à procura de ouro. Ele fala, com certeza, por parábolas. Assim como o fogo do Espírito Santo desceu sobre os apóstolos e os transformou, pondo-os a falar em línguas que desconheciam, assim é esse fogo filosofal de que Lúlio fala: o fogo que converterá as Nações infiéis e abrirá os portões da Glória do Espírito Santo...
    - Pois... Não te contei eu tudo: esse Lúlio tem, ao que se conta, uma certa tendência para se chegar aos infiéis e, como eles, gosta de explicar as coisas da alma através das rosas.
    - Muitas coisas se explicam através das rosas...
    - Minha querida: bem podias escrever cantigas - é pena que não fossem de amor...
    - Seriam de Amor Divino...
    - Que fossem, pois...
    - As grandes orações já foram escritas. As maiores já sairam da boca de Jesus, no Monte, e da voz do arcanjo Gabriel a Maria...
    - E que repetes tu no Rosário...
    - Menos vezes que aquelas que devia.
    - Queres, então, que venha um novo tempo.
    - Não é questão de querer. Ele virá. E como rei desta nação que descansa na pétala mais à direita da rosa dos ventos, cabe-te a ti mostrar humildade que enobrece quem se senta à direita do Pai.
    - Seja, então, minha amiga: se os teus pobres ficaram sem pão por causa de uma mentirinha tua - e dando eu crédito à intervenção de Deus no teu regaço...
    - Não sejas blasfemo...
    - Longe de mim, minha amiga: no próximo domingo em que se celebrar a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, serei eu mesmo a coroar um mendigo e a pagar um bodo de pão farto e bom vinho a todos por igual, como bem sei que fazem na tua Terra! Será a Páscoa Rosada, a abrir o novo Tempo que anuncias... Satisfeita?
    - Não é a mim que tens de satisfazer, mas ao Senhor...
    - Ele sabe bem o que me vai no coração.
    Isabel olhou-o e, sorrindo, adoçando o rigor das suas rugas, beijou-lhe a testa. Dinis , esse, fingiu que o beijo não lhe tinha passado além da pele.
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publicado por Manuel Anastácio às 23:59
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