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Domingo, 6 de Maio de 2007
De olhos bem abertos

Sawyer vs Sawyer, Lost

Como para qualquer cinéfilo, a sala de cinema é, para mim, sagrada. É um espaço que não se limita a projectar imagens em maior escala e com som de boa qualidade. A entrada na sala, as cadeiras vagas, os namorados, as crianças que entram sem qualquer preocupação num filme para maiores de 16, o tipo que atende o telemóvel, a mulherzinha que decide partilhar os seus comentários com toda a plateia... Lembro-me de uma, no velhinho Teatro Rosa Damasceno, em Santarém, a gritar para a Jenny do "Forrest Gump": "Não! Não saltes!..." quando a personagem quase cai, pedrada de todo, de uma alta varanda; ou quando decidiu explicar ao pessoal todo, desde o primeiro balcão até aos lugares da frente da plateia: "aqueles passarinhos são ela!... A reencarnação...", tornando cómicos, para toda a gente, aqueles episódios de lágrima fácil ao canto do olho. Na sala de cinema, o filme é constantemente profanado pelos risos dos insensíveis, pela alta cabeleira à Marge Simpson do tipo que se sentou à frente... Mas é, igualmente, profanado pelos lugares vagos, como quando vi, sozinho, no mesmo Rosa Damasceno, o "Viagem ao Princípio do Mundo", de Manoel de Oliveira. De facto, para se ver o filme enquanto filme, e não enquanto objecto ritual, não há coisa melhor que vê-lo em casa. E para quem tem um bom sistema de imagem e som (luxo que não existe em minha casa), isso é ainda mais verdade. Mesmo uma televisão, das velhinhas, pode bem tornar um filme em mais que um filme - num confidente perante o qual podemos reagir sem medo do ridículo. É certo que, tal como o vídeo, que matou a estrela de rádio, a televisão também quase matou o cinema. Agora, já não é a televisão a culpada - existem outros monstros, como a pirataria via internet, ainda que sobre as costas de um burro expiatório - ou será uma mula?...


Jane Wyman reflectida na televisão, em "All that heaven allows"


A televisão é um instrumento diabólico, é certo. É um formatador de cérebros. Apaga, em grande parte, a capacidade crítica. Doutrina as massas através de programas de fácil digestão - ou que pelo menos disso têm fama... A cena, em "All that heaven allows", em que Jane Wyman, viúva, recebe uma televisão de presente de natal do seu filho, depois de ter passado todo o filme a dizer que não queria televisão alguma, já que tinha coisas melhores para fazer, é uma das imagens mais calcinantes da reacção do cinema a um electrodoméstico cuja principal função é domesticar-nos. O facto de a actriz, exposta à sua solidão e estúpida abnegação, aparecer reflectida no ecrã, com um laço  vermelho sangue ao canto, não é apenas um virtuosismo melodramático. É um manifesto pela liberdade. Mas a verdade é que vi este filme na televisão. A verdade é que quase todos os filmes da minha vida foram vistos na televisão. Nessa caixinha estupidificante. Como qualquer coisa, tudo depende da forma como se utiliza. Se é para vermos doses maciças de Morangos com Açúcar, estamos mal. Se é para vermos um filme do John Ford, ou mesmo de  Kieślowski, a televisão passa a ser uma vitrine de angústias e alegrias que muitas vezes nos salva a vida, ou justifica-a. Nem todos vivem a meia dúzia de passos da Cinemateca - ou mesmo do Cineclube de Guimarães e das suas sessões no Palácio Vila Flor.


Lost

Ao listar no processador de texto todos os filmes que me acompanharam, não foram poucas as vezes em que tive a tentação de incluir aí um filme que ainda não vi na totalidade. Chama-se esse filme "Lost" - "Perdidos" - e, independentemente de ser uma série de televisão e não um filme, atrevo-me a dizer que é um belíssimo exercício de cinema. A complexidade desta série leva às últimas consequências a forma narrativa consagrada por Quentin Tarantino em "Pulp Fiction", reflecte a angústia das relações familiares com a mesma empatia da "Sonata de Outono" de Bergman, dá-nos uma explosão de verde perdição como no "Apocalipse Now" (são inúmeras as vezes em que a loucura das personagens aparece fenestrada por caules de bambu), troca-nos as voltas como no "Sexto Sentido" de Shyamalan, arrasta-nos para uma realidade com semelhanças aos arquétipos de Tex Avery, expõe-nos a um estranho caminho que, por vezes, parece tão banalmente fantástico quanto o percorrido pelo carteirista de Bresson, corta-nos as vasas como num filme de John Carpenter, arranca-nos as entranhas à alma como num melodrama de Lars von Trier... E podia continuar. Cada episódio que passa é uma pérola de sensibilidade embrulhada na mais lustrosa capa do entretenimento. E como qualquer fã da série, só temo o final que será, inevitavelmente, decepcionante. É impossível sair-se de pé depois de tantas cambalhotas. Mas, ainda assim, que belas cambalhotas!...


Lost

O conjunto de referências que enxameiam a série, com personagens cujos nomes remetem para filósofos e figuras da literatura e mitologia universal, tornou mais claro o padrão que pauta a vida de cada uma destas figuras unidas pelo fantasma do parricídio e pela via sacra da Fé. Sawyer, que não se chama Sawyer, num navio negreiro do século XVIII, descobre o verdadeiro Sawyer, que continua a ser um falso Sawyer - e, perante a insensibilidade do homem que levou o seu pai ao suicídio, sacrifica-o à Ilha, essa entidade viva fora do mundo sensível mas que dele se alimenta com a voracidade predadora da mais palpável existência. Essa Ilha que, pressinto eu, não é mais que a tela feita e desfeita por Penélope, usando as linhas roubadas do cesto das Parcas e urdidas com o mesmo desvelo mutante de uma Aracne metamorfoseada. Assim como viemos dar ao mundo, assim abrimos os olhos, como Jack, na primeira imagem do primeiro episódio. Com terror da luz, depois das trevas.


Lost
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 16:28
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2 comentários:
De Artur a 17 de Maio de 2007 às 13:12
De facto, tantos foram os bons filmes a que só tive acesso via televisão... mas os momentos mágicos em que as luzes se desvaneciam e as cortinas dos saudosos King ou Quarteto se abriam para desvendar estórias contadas com ângulos de camara.
De Paulo Brabo a 5 de Junho de 2007 às 21:11
Não tenho televisão aqui no Monastério, mas amo a série Lost com tórrida paixão. Rezo a todos os deuses para que no final da série nenhuma pergunta seja respondida.

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