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Quarta-feira, 2 de Maio de 2007
Mies e o Tempo

Mies, o "meu" gato, no meu ombro. Atitude em Creative Commons...

Por falta de tempo, como se o tempo faltasse, porque o tempo não falta, nem sobra, é apenas... Por falta de tempo, não dou ao tempo um segundo de reparo. Não me sento frente a ele e ponho-me com ele a falar. De facto, sendo a abstracção mais conhecida do ser humano - não há quem não o conheça - ainda que ninguém o conheça de facto - ou, pelo menos, da mesma maneira - o tempo bem podia sentar-se aqui ao meu lado, em amena cavaqueira, como outras abstracções fazem, amiúde, nos romances de Ballester, Saramago ou outro Ibérico qualquer com o coração além do Atlântico mas com os olhos presos às terras do verde pinho. Enfim, desculpem-me entrar a matar, com frases desconexas ou quase. Mas há momentos em que as frases desconexas ou quase exprimem tudo. Há alturas em que julgamos que somos capazes de escrever o mais belo romance do mundo: e a receita parece-nos tão simples... Basta pôr  lá tudo, tudo mesmo: o Mies a brincar com uma bola de guizos ou a deitar um candeeiro a baixo. O Mourinho e o Cristiano Ronaldo à batatada; com o Ronaldo a sair da mesma com a elegância de um silêncio; e comigo a pensar como isto daria um belo romance à Proust, com os Verdurin à mistura mas, principalmente, com Charlus, Jupien e uma flor à espera de ser polinizada por uma                                  z<aaaaaaaaaaaaaaaa  inverosímil abelha. (o z<aaaaaa foi obra do Mies que decidiu passear em cima do teclado - poeta, o gajo!)...

Seria tão fácil escrever o mais profundo e belo romance do mundo. Bastaria ter tempo e poder dar esse tempo ao próprio leitor. Mas é o tempo que nos possui, não o contrário.

Este texto, obra da desconexão e das unhas afiadas de um gato recém chegado a casa - baptizado de Mies (quando fico zangado com ele digo "Mies! van der Rohe!".... - dá a ideia que o estou a mandar ir para a rua, coisa que não farei, até porque ele não tem chave para poder voltar a entrar - eu também não tenho, mas isso é outra história que também deveria aparecer para que este post pudesse ser o gérmen do romance do século XXI...), é um texto de retalhos. Não tenho tido tempo. E da última vez que tentei escrever um post, a net pifou e julguei que o que tinha escrito na caixa de texto tinha ido irremediavelmente abaixo. Estava eu a desfiar memórias à Proust, com a casa dos Pichas por fundo e pum - foi-se tudo. Coisa que não acontecia com as máquinas de escrever mas que acontece amiúde no éter da informática. Depois de alguns dias sem tempo para escrever o quer que fosse, nem para ler uma linha que seja - ainda que não me faltem coisas para falar, como o "encontro" de wikipedistas em Guimarães - hoje abri a área de gestão do blog e descubro que, agora, os textos perdidos são recuperados!... E senti Proust de novo a reencontrar o Tempo!...

E repego no texto que tinha começado a escrever, depois de ver a Ana Malhoa - não é cantora que preze, mas não é isso que interessa agora - na televisão, a falar da sua mãe, nascida na mesma terra que eu, criada na casa dos ditas-cujas:

" O autocarro parava em frente de uma vidraça de loja, no café da Portela, onde lia, aí reflectido "aramac lapicinum ed laodras". Parecia latim ou élfico superior. Depois, seguia por uma curva, ao lado da loja do pai do Americano, e com um eucalipto esguio - o último de um renque e que foi poupado para servir de ponto de referência a quem chegasse à terra, de modo a poder dizer: aqui, junto a este eucalipto cujos ramos baixos foram podados, para acentuar o perfil fálico, está a casa dos Pichas... "

Não continuo o texto. Fica assim. Repego-o noutra altura. O Mies, cansado de derrubar colunas de som e de roer as revistas de arquitectura da Carla, está a dormir no meu colo com o ar nostágico que só os gatos podem ter. A nostalgia dos cães é diferente. Mas o Mies, que bem se podia chamar Camões, com o seu olho magoado, baço, ferido sabe-se lá em que batalhas ou degraças felinas afins à Condição Humana, tem o coração a bater a muitos à hora. Hoje à tarde vi-o a olhar através da varanda, expectante. Sem se preocupar com o Tempo, ou sem saber que ele existe, ou sem duvidar que possa existir, mas expectante. O tempo, aquele que nos faz parar o coração definitivamente, como fez ao coração de que falaria no final daquele texto que não terminei. O coração da Aurora dos Pinheiros - minha avó. Fica para outra altura. Por enquanto, basta sentir o coração desconexo do Mies. Não há texto que possa descrever ou condensar poeticamente o bater de um coração que persiste nesse movimento - nem que seja apenas de um gato.
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 21:27
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5 comentários:
De Artur a 5 de Maio de 2007 às 12:24
Voltaste, e em força. Belo texto. Gato mies? apelidei o trio de vadios daqui da zona como bastet, cheshire e schrödinger...
De Caramelos a 13 de Maio de 2007 às 19:18
Que lindo gato ..................


pois,morde...............




beijos........................
De Silvério Salgueiro a 6 de Janeiro de 2009 às 13:38
Como teu leitor atento tomo a liberdade de te lembrar que além dos artigos em espera que indicas , aguardo por um artigo sobre o professor Batista Reis prometido em "Professores II " e o artigo interrompido junto à casa do "pichas" em Mies e o Tempo. Senão for pedir demais...
De Helder André a 26 de Julho de 2012 às 21:58
Professor Baptista Rei

Também aguardo esse episódio...
e as suas famosas aulas de física e química
De glaucia lemos a 10 de Março de 2014 às 16:32
Mies e o Tempo conquista o leitor às primeiras sentenças. Elas dão conta de um autor em cuja ternura Mies nada em profundidade e à superfície. Falar de tempo associando-o a um gato é também de muita propriedade, dada a fama de serem eles senhores de tal energia que os torna sensíveis às mudanças meteorológicas, capazes de se tornar nervosos e mais ariscos à aproximação de tempestades elétricas. O autor, porém, não se detém em tais detalhes, mas filosofa mais precisamente em outros caminhos, aos quais passa com tranquilidade, e encerra retornando ao doce Mies de olhar mimoso e mimado a ponto de ter respeitado o seu espontâneo passeio pelo teclado, dando sua contribuição ao escritor. Apesar do olho ferido sabe Deus em quais embates, Mies é, sem favor, uma beleza felina e bem merece todos os mimos.

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