Domingo, 15 de Abril de 2007
Senhoras

Azinheiras em Fátima. Foto minha em Creative Commons

Nada me leva a dar importância especial a Fátima. Não sinto qualquer magnetismo ou envolvência transcendental naquele local, ao contrário do que dizem muitas pessoas, incluindo algumas insuspeitas de misticismo. A arquitectura apenas me ofusca os olhos graças à fotossensibilidade. Muita pedra branca, e os meus olhos ressentem-se. E como passo a vida a estropiar óculos de sol, é de olhos desprotegidos que a minha retina é bombardeada pela luz do recinto que, devido à sua curvatura, funciona como uma lente que cega quem nela ingressa. Os santos são esculpidos de forma rude e antipática. As obras da Igreja da Santíssima Trindade ainda estão envoltas de taipais devidamente decorados com mensagens religiosas, de onde se destaca uma de conteúdo óbvio, com um feto humano a ilustrar. As pessoas que, de acordo com a mensagem sado-masoquista de Fátima, se rastejam pelo corredor de pedra lisa até à capela das aparições já são menos. As obras cortaram a meio o caminho da auto-flagelação. E as pessoas preferem a Via Sacra na sua extensão integral.

Ao correr os recantos de um local que em nada me inspira santidade, uma oração, proposta numa parede, faz-me lembrar que a mensagem de Fátima assenta em grande parte na ideia de Inferno como local de tortura eterna. Há que rezar (o terço, presume-se) pelos descrentes e sofrer por aqueles que ultrajam a mãe de Cristo - dizem. E fico embasbacado com a contradição: reza-se para que os descrentes não sofram as penas do Inferno - isso até parece bonito e misericordioso da parte de quem reza. Já não parece é bonito e misericordioso em relação a Quem se reza. Se a ideia de Inferno é, por si mesma, de uma maldade extrema (e por isso rezamos para que os injustos - até eles - dela sejam livrados), porque é que o Todo Poderoso concede em manter em tal condição as almas dele apartadas? É que o Inferno foi mostrado aos pastorinhos sem qualquer dose de anestesia.

Não interessa. As pedras lavradas e a mensagem tão celebrada (e os segredos que metem água por todos os lados) nada me inspiram. Mas as árvores, sim. Com o chão coberto de margaridas e pássaros que parecem ter-se habituado à presença humana. Há ainda locais onde o sofrimento humano aparece na sua devida proporção de terreno e de divino. Não há melhores confessores que os ramos de uma árvore. Mais que profetas, confessores. E fazem perfeitamente o seu papel - até em locais profanados por mensagens dispensáveis.

E é de alma lavada que arranco em direcção à Senhora da Oliveira.
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publicado por Manuel Anastácio às 18:54
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2 comentários:
De ana ramon a 15 de Abril de 2007 às 22:30
É horrível, sim. Também tenho essa opinião. Não sou crente como sabes, mas entendo que outras pessoas o sejam. Entendo e respeito (e às vezes até as invejo). Ora passar por Fátima ouvindo pessoas a dizer que sentem a santidade do lugar, é completamente incompreensível para mim. Mas como é possível, ao ver a quantidade de lojas de venda de santinhos, o café que se chama Avé-Maria. a publicidade religiosa feita com um imensurável mau gosto, o apelo ao dinheiro em nome da Fé para onde quer que se olhe? Ao menos que se salvem as azinheiras!
Um beijinho
De Artur a 16 de Abril de 2007 às 18:32
Valham-nos as oliveiras, que dos deuses não podemos esperar muito.

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