Terça-feira, 3 de Abril de 2007
Dodsworth - Veneno Europeu

Excerto de "Dodsworth" - conhecido em Portugal como "Veneno Europeu", de William Wyler, a partir do romance de Sinclair Lewis. Outro que não está na lista dos 100, mas...


Vem este filme do tempo em que os norte-americanos viviam a sua Idade da Inocência, à maneira de Henry James. A Europa era o local das raízes, o ninho de uma nostalgia genética que levava o protagonista, o reformado Dodsworth, a rapar frio no convés do navio à procura da primeira luz de Farol vinda de Inglaterra. Mas era, também, o local da tentação do supérfluo disfarçado de autenticidade. A mesma autenticidade que se continua a procurar entre o bolor das árvores genealógicas. Ao percorrer de novo o segredo dos meus 100 filmes, que em breve começarei a desvendar, lembrei-me deste filme e das tardes de cinema gravadas no VHS, na altura em que a RTP fazia serviço público. O tempo de duração de um filme era maior, nessa altura. Absorvendo as experiências que me faltavam na vida quotidiana, cada filme levava à suspensão da realidade e arrastava-me na ânsia de viver e compreender porque vivemos assim e não de outra forma. Os filmes que nos enchem os écrans, hoje em dia, não têm esta densidade. É verdade que nos dizem que o crivo do tempo separa o trigo do joio. Lá virá o tempo em que o ruído tecnológico da nossa cultura do espectáculo se esbaterá no fundo sobre o qual se definirão cada vez mais as obras primas do nosso tempo. Este filme é uma obra prima. E confesso que não entendo como é possível vê-lo tão arredado das escolhas dos cinéfilos. Nunca li o livro de Lewis. Não sei como será a pungente descrição daquela despedida entre o marido traído e a esposa fútil que, ainda assim, muito "charming", recebe um voto de vassalagem. Não sei como aparecerá, em palavras, a insistência odiosa do telefone que toca no mediterrânico ninho de amor, como uma ameaça à felicidade ingénua de um "happy end" inevitável, não fosse a bondade tola de Dodsworth. O excerto que encontrei no You-tube não inclui nenhuma dessas passagens, mas reflecte bem o clima mundano onde a bestialidade disfarçada num vestido de noite e a predação envergando um fraque se degradam em espuma, apenas molhando ao de leve o entusiasmo infantil de Dodsworth (Walter Huston - o velhote que delira por ter estado perante o túmulo de Napoleão) e a circunspeção de Mary Astor numa passagem inesquecível, quando Mrs Dodsworth diz fazer 35 anos naquele dia e, de volta à sala, resume a sua advertência a um "My dear... don't..." e responde ao porquê apenas com um "You're so charming". Não sei bem o que seja "ter classe". Ainda mais, imprimir intemporalidade aos gestos e modos de quem "tem classe". Mas se os homens podem usar como modelo Gary Grant (sem peúgas brancas, claro - e que não, não entra neste filme), creio que Mary Astor, neste filme, consegue concentrar em poucos planos, para as mulheres, os gestos que Paula Bobone, em vão, tenta sistematizar em livrinhos que vendem como pão quente. Já ouvi dizer que é um filme datado. Não é. Só o embrulho é que revela ainda algum caruncho.
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publicado por Manuel Anastácio às 18:22
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