Quarta-feira, 21 de Março de 2007
A Divina Canalhice

Pormenor de "O Inferno" (c. 1514), de anónimo (vulgarmente atribuído a Jorge Afonso), Museu Nacional de Arte Antiga

Porque é que me dou ao trabalho de discutir com pessoas que não se dão ao trabalho de me ouvir/ler? Simples. Pela mesma razão por que, por malvadez do Destino, decidi ser professor. Porque é que me dou ao trabalho de continuar a escrever respostas, na Internet, reagindo a textos de gente que só diz disparates? Porque se eu não não disser nada, ninguém diz. É que se há antros do disparate que suscitam muitas reacções, como no Blasfémias, há também antros do disparate consensual. Onde o disparate parece até ter fundamento lógico. Quem me lê há algum tempo, sabe que tenho, ultimamente, perdido muito tempo com um senhor que dá pelo nome de Orlando Braga. Pouco sei dele. Sei que tinha um blog/site de nome "Letras com garfos", designação que desperta o apetite... Não sei se ele pertence ao ramo da restauração ou não. Desconheço. Só sei que se cozinha como pensa, estamos mal. Qual a razão por que perco tempo com o Orlando, se quase tudo o que ele escreve é puro preconceito? Porque há muita gente, intelectualmente inteligente, que lhe dá ouvidos. Sim: intelectualmente inteligente. Porque há vários tipos de inteligência e, diga-se de passagem, essa é uma das que menos prezo, ainda que a inveje.

Escrevi o meu artigo da Enciclopédia Íntima sobre Ética porque o Orlando disse que havia de escrever sobre o assunto. E eu pensei: até eu posso escrever sobre o assunto. Mas o Orlando, que, ainda assim, serve como catalizador para a escrita (porque quando tenho tempo de escrever o quer que seja, já estou a rebentar pelas costuras de um dia de trabalho infrutífero), que só lê os meus comentários lá pela sua terrinha e que, provavelmente, não lê o que eu escrevo por aqui, gosta muito de refugiar-se em frases feitas ou frases que não sendo feitas, seguem a receita do soar bem. Dizer que a Ética não é relativizável é bonito. Por que razão? Porque a Ética é um bem inquestionável. E eu nisso estou totalmente de acordo. O pior é que as pessoas que se ajustam ao pensamento orlandístico gostam de, por extensão, expor como corolário desta afirmação (a Ética é um bem inquestionável) que "o conteúdo da Ética é absoluto" - imutável, intocável e desligado das emoções humanas, sempre egoístas e parciais. Um pouco como os muçulmanos vêem o (Al)Corão. Ora, todo o texto que escrevi sobre Ética (e que o Orlando ignora, porque me considera de baixa ralé) foca exactamente esse problema: o de que há coisas que são de facto, inquestionáveis, mas que, aplicando esses inquestionáveis na prática, deparamo-nos apenas com a dor dos dilemas que apenas têm solução satisfatória a nível individual. Claro que acreditando num Deus que nos deixou um grande e muito mal escrito Livro, as coisas ficam mais fáceis. Mas a Ética não pode colocar-se à sombra das supostas palavras de um Deus que não prima por ela. Os deuses, seja o  Deus da Bíblia (tanto do Antigo como do Novo Testamento, ainda que prefira o do segundo) e da tradição católica (que é autoridade para a mesma religião), bem como qualquer divindade de qualquer religião estabelecida neste mundo, são sempre Deuses de uma Ética que me repugna. Não é nessa habitação que eu quero viver. Se Deus existe e está acima de tudo, das duas, uma: ou Ele está a brincar connosco e há-de receber-nos, a Todos, de luminosos braços abertos, sem Infernos - ou, quando muito, com purgatórios não muito exigentes (ou pelo menos adequados aos crimes efectuados em vida), ou, se for como as religiões nos ensinam, é um grandessíssimo Canalha. Isto é Ética. Mas talvez Deus não seja Ético. A realidade, supostamente feita por ele (pelo menos indirectamente - não me caiam os teólogos do costume a dizer que não foi Deus que criou o Mal - está bem, ó melga...) não é Ética. Por isso, se numa futura eternidade (a eternidade faz parte do tempo?) eu ficar a ferver numa caldeira à conta do que escrevo, hei-de ficar como aqueles Danados, condenados no Inferno de Dante, comidos pelo orgulho de não baixarem o pescoço perante a Ditadura Divina. Esses Danados que são, de todas as personagens criadas por Dante, as mais humanas, as mais palpáveis - não as mais éticas, é certo, que a maioria, realmente, não constituiam inflorescência que se cheirasse...

Mas eu tenho fé. Chocarei, com certeza, algumas pessoas ao dizer que não sou Ateu. Eu acredito em Deus, sim. Apenas acho que Ele (ou Ela - é à escolha do freguês) é um grande brincalhão. E que no Paraíso, os mais sórdidos horrores da Terra servirão apenas para acentuar a ideia de conforto. O Inferno, tal como nos é vendido, não será para ninguém. O Purgatório (criação cristã serôdia, mas absolutamente ética) será adequado às faltas e terá em conta, na balança, a intencionalidade das mesmas e os tormentos passados já em vida...

Note-se, contudo, que quando digo que "acredito" deve-se ler "gostava de acreditar, porque me parece mais ético".

"Gostava de acreditar", de facto, é o que toda a gente devia dizer. Mas não diz. Porque, por superstição, tem-se medo de um Deus Canalha que é pouco entendido em Ética.

"Parece-me mais ético", porque se a Ética está fora do Tempo, como o Deus Eterno da religião - isto é, se é absolutamente absoluta - a verdade é que não temos olhos para a ver. E aqueles olhos que nos são oferecidos, de bandeja, como Santa Luzia, de nada servem. O nervo óptico foi fissurado. Teremos de esperar pelo Grande Cirurgião. Eu espero-o. Não o nego. Mas se não vier, não perderei nada. Há uma eternidade que nos é oferecida de muitas formas, até sem paraísos e purgatórios.  Deus não precisa de ser Canalha. Porque é que persistem em vendê-lo como tal?...
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publicado por Manuel Anastácio às 20:49
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1 comentário:
De matheus b. a 22 de Março de 2007 às 20:23
Percorri caminho similar até concluir o mesmo. E achei sem querer o seu blogue, professor. Volto em breve! :}

Dizer de sua justiça

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