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Quinta-feira, 15 de Março de 2007
Enciclopédia íntima: Ética

Diógenes de Sínope, por John William Waterhouse, 1882

O relativismo dos tempos que correm é turvo, e tem servido para justificar aquilo que, de boa fé, seria injustificável, mas, ainda assim, é a forma de pensamento que melhor se adequa à angústia que existe em não sabermos, de facto, quem somos. Como não sabemos nada, temos, obrigatoriamente, de abraçar uma crença. Acreditar em Deus é melhor que acreditar  num solipsismo que nos possa desresponsabilizar. Mas até esta minha afirmação é uma crença. E daqui não passamos, por mais que nos esforcemos.

Por isso, sou intolerante com a intolerância. Mas nem com todas as intolerâncias, como já se depreende da afirmação. Por vezes, temos de ser intolerantes, para bem de uma Tolerância maior: para bem da Nossa Tolerância. Porque o meu conceito de tolerância não é igual ao de ninguém, ainda que nos tentemos barricar consoante a dor que nos é infligida pelos espinhos dos dilemas éticos. Mas, ainda assim, não quero ser relativo nestas questões. Há coisas que são indiscutíveis. O respeito pela vida humana é indiscutível. Mas qual vida humana???... Na minha óptica, é humano quem pertence à minha espécie - mas de bom grado alargaria o conceito para qualquer espécie ou entidade capaz de pensar, de sentir, de se emocionar, de amar. Se existissem fadas - e eu vou dizer que existem, porque sempre que alguém diz que as fadas não existem, morre uma - eu teria de as respeitar, bem como à sua vida. Mas e se elas se posicionassem contra a minha espécie? Se, no seu todo, causassem a morte de seres humanos? Seria legítimo passar o dia a dizer que não acreditava em fadas, para que morressem todas de uma vez? A minha resposta é sim, se todas as fadas fossem más. Não, se houvesse algumas boas. Um pouco como Abraão a tentar defender Sodoma e Gomorra (coisa que os actuais crentes das religiões abraâmicas nunca fariam, diga-se de passagem). Mas e se houvesse mais más que boas? E se ao dizer que não acreditava nelas, as matasse indiscriminadamente? O que é que seria Ético? Teria, de facto, de tomar uma posição. Ou defendia os meus irmãos de espécie, mesmo os maus, à conta da morte de possíveis fadas boas, ou permitia que as fadas más continuassem a dar asas à sua malvadez. Eu não sei o que faria. Não sei o que seria Ético neste caso. E duvido que alguém saiba. Mas há quem julgue que saiba. E eu, geralmente, não dou ouvidos a esses. Porque esses alargam os princípios éticos para lá da fronteira do que é indiscutivelmente o Bem e o Mal, para a fronteira dos seus próprios valores, tornados indiscutíveis apenas porque são os seus.

E a Ética? Está, então, circunscrita à mísera realidade relativa. Claro que não. Já disse que há coisas que são indiscutíveis. Ainda que até essas se discutam. O respeito pela vida humana é indiscutível. Para mim, que sou humano. E isso, tanto quanto saiba, é indiscutível - até porque os principais prejudicados pela vida humana não discutem. Daí que qualquer pensamento ecológico deve ter sempre em vista o respeito pelo ser humano, não porque o ser humano seja o centro vivo da Natureza, mas porque o ser humano é o único que discute. A Ética fundamenta-se nesta atribuição de um valor primordial àquele que comigo habita. Mas cada um escolhe aqueles com quem habita. E difícil coabitação é esta, quando abro as portas a alguns que nunca a abririam para mim. Mas, mesmo sabendo-o, abro a porta. Por que razão? Porque é Ético. E não é uma resposta fria, esta.

Costuma-se dizer que a palavra Ética provém de
, que significa "uso" ou "costumes". Mas Heidegger, o mais arquitecto de todos os filósofos, faz remontar a palavra ao sentido de casa, morada, habitação. Heráclito deixou-nos um fragmento truncado das suas palavras que em nada nos esclarece sobre este assunto, nem em nada nos edifica (se há algo nesta vida que seja edificante), mas que, ao menos, nos inquieta: (ethos anthropo daimon) que tanto poderá ser traduzido como "a habitação do homem está nos Deuses" como "a habitação do homem divide-o". Ora, ambas as traduções, por mais díspares que sejam, estão igualmente certas - ainda que a segunda tradução apenas remeta para as nossas mais profundas contradições. São os deuses que escolhemos que nos servem de tecto e parede. Mas quem prescinde de bom grado do seu tecto e parede para que este albergue mais gente?

Diógenes de Sínope, vivendo no seu barril (pouco importa se a historieta é apócrifa), dá-nos, contudo, a melhor pista para o problema. Ao pedir a Alexandre Magno que não lhe tirasse o que este nunca lhe poderia dar, fosse o sol, fosse a vida, fosse o pensamento, fosse a dignidade de ser quem é, Diógenes (ou o anónimo autor da lenda) resumiu perfeitamente a noção de Ética enquanto habitação. Um barril serviria perfeitamente, não andássemos todos a tirar uns aos outros aquilo não podemos dar.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 19:14
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4 comentários:
De shark a 18 de Março de 2007 às 17:47
No âmbito dos tais valores indiscutíveis, os meus, começo por referir que a uma boa fada deve sempre ser concedida uma segunda oportunidade.
E prossigo na defesa dessa ética subjectiva que ajuda a destruir mesmo a mais universal definição do conceito, que para conseguirem viver consigo próprias as pessoas têm que possuir um "jogo de ancas" ético flexível como mercúrio, referindo que não concordo com a perspectiva maniqueista de só existirem fadas más e fadas boas. A maioria são mais ou menos e merecem da nossa parte o beneplácito da fé na sua existência que as preserva.
E ao defender as fadas mais ou menos, citando-lhes a maioria, elevo a minha ética à própria defesa da Democracia.
(Espero que não sintas o tom deste comentário como um laivo de "deboche". O teu texto impressionou-me e eu fujo a sete pés dos clichés costumeiros nas caixas de comentários - Adorei, gostei muito, fantástico, beijinhos e continua - além de não ter bagagem para me "pendurar" nos pensadores que eventualmente te contrariem.)
Agora respeita a ética blogueira e não me enxovalhes em público, pá... ;)
De Manuel Anastácio a 18 de Março de 2007 às 17:57
Enxovalhar-te? Nunca. Antes pelo contrário. O teu comentário é um perfeito complemento às minhas divagações.
De Artur a 19 de Março de 2007 às 11:57
Neste país, neste época, ainda acreditar em ética é um milagre... à saúde dos que ainda não perderam de todo a esperança.
De dnoronha a 21 de Março de 2007 às 01:43
Manuel, é um enorme privilégio poder acessar a máquina e ir aos teus textos que novamente despertam algumas partes esquecidas dentro da cachola.
Este texto mexeu com muitos neurônios adormecidos.
Agradeço a cutucada.

Grande abraço.

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