Quarta-feira, 14 de Março de 2007
Enciclopédia íntima: A

A, de Hans Weiditz, 1521

A letra A terá nascido da cabeça de um bovino. Má ideia essa, a de crer que o alfabeto nasceu dos miolos de um ruminante, a não ser que se queira, com isso, dizer que a escrita deve ser ingerida com sofreguidão, fermentada no íntimo, e, depois, regurgitada em pedaços prontos a mastigar nos momentos de repouso, antes de novamente os ingerir e assimilar ao próprio corpo que nos carrega.

Sendo o A a primeira letra, é de puro bom senso acreditar que o tempo a investiu de significados profundos, ocultos - ou nem tanto. O ocultismo é apenas uma alegre brincadeira de palavras para enganar a ignorância. A grande verdade da Alquimia e da Cabala reside nessa mesma transformação da realidade material, avessa ao nosso desejo, através da palavra e do símbolo. A anedota dos cabalistas que faziam o seu almoço com as letras da Torah terá aqui a sua plena justificação.

Segundo o apócrifo Tomé, Jesus, pequenino, muito pouco respeitoso para com a autoridade do seu professor Zaqueu, terá explicado que a letra era composta de linhas e traços médios, unidos transversalmente, conjuntos, elevados e divergentes. E seriam de três espécies de sinais: homogéneos, equilibrados e proporcionados.

Há, de facto, na letra A um certo cheiro a início. É uma seta que aponta para o alto. É a digna inicial, ainda, da Arte e da Arquitectura. Há quem veja nela, aliás, um telhado - um Abrigo. Mas não. É uma porta Aberta.

E é graças a ela que tanto amo as Enciclopédias. Incluindo a Britânica e a Luso-Brasileira da Verbo; a Encyclopédie dos revolucionários Diderots e as Etimologias do Santo protector da Internet, Isidoro de Sevilha. Incluindo, também, as imaginadas por Jorge Luís Borges e que folheio em sonhos.

Foi o A a primeira entrada em que trabalhei na Wikipédia. Não conseguiria resistir ao simbolismo dos dois traços inclinados a suportar a trave horizontal (ou será o contrário, com a trave a manter unidas as duas inclinações opostas, como que numa alegoria de tensegridade?). Foi assim que ficou o artigo, na altura, depois de algumas contribuições, também, do reaccionário João Miranda (que alguns conhecerão do Blasfémias) e de um decepcionante Jorge Candeias que na altura era o meu Mestre e Guia mas que, depois, me revelou uma triste faceta mal humorada e igualmente reaccionária. Enfim. Nem todos compreendem a Natureza do A.

Eu não compreendo.

Mas gostava de compreender.
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publicado por Manuel Anastácio às 20:56
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4 comentários:
De Jorge a 15 de Março de 2007 às 00:05
Pois é. É uma decepção pegada quando as pessoas não aceitam de sorriso nos lábios (venhem cá esses ossos ó Estaline!) quando são comparadas com alguns dos maiores criminosos do século. Diria mesmo, como o MEC, que é fodido.

Triste, decepcionante e reaccionário Anastácio que não percebe coisa tão simples.

Enfim... cada um é como cada qual, suponho.
De Manuel Anastácio a 15 de Março de 2007 às 01:52
:) Por aqui? eheheh...
De Manuel Anastácio a 15 de Março de 2007 às 01:59
Mas mantenho o que disse: mal humorado e decepcionante (nunca esperava da tua parte a reacção que tiveste a uma simples chalaça dita sem qualquer má intenção - mas isso, já vi que nunca compreenderás: é por isso que mantenho o adjectivo "decepcionante"). Estalinista, tu, nem por isso. Eu, reaccionário? Talvez. Em algumas coisas. :)
De Artur a 15 de Março de 2007 às 20:08
Vá lá, meninos, portem-se bem...

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