Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007
Quem controla a Wikipédia VI


"Der Hölle Rache", por
Natalie Dessay em "A Flauta Mágica" de Mozart. Paris 2001

Em resposta a um comentário do JLCA, ex-wikipedista que merecia toda a minha consideração (ainda que não propriamente a minha simpatia) escrevi-lhe a seguinte "carta":

Caro JLCA:

respondi ao seu comentário no meu blog. Compreendo que não esteja minimamente interessado em continuar a participar nela depois dos acontecimentos em que esteve envolvido. Mas não me parece bem que me considere um fanático da Wikipédia. Sou apologista da Wikipédia, mas na justa medida, como centro de discussão e de crescimento intelectual. Não como "Enciclopédia". Em lado algum demonstrei desrespeito pelos especialistas e académicos. Apenas desprezo a presunção de alguns que se julgam donos da verdade. A verdade não é atribuída a ninguém por diplomas académicos. Procura-se. E esse procurar é direito de todos. A Wikipédia é um meio como outro qualquer, com as suas especificidades. Creio que continuará a participar no crescimento intelectual da humanidade de outras formas. Aliás: apesar de nunca lhe ter tido especial simpatia (os seus modos foram quase sempre desagradáveis para comigo e para com outras pessoas que até podem nem ter a sua inteligência e cultura, mas têm desejo de crescer nesse sentido), sempre o considerei uma pessoa com capacidades acima da média (e muito acima, particularmente, da média dos contribuidores da Wikipédia). Mas a Wikipédia é também um local onde se aprende a negociar. Quem não tem capacidade para regatear ideias não pode sobreviver na Wikipédia. Claro que considerará o regateio uma forma pouco nobre de procurar a verdade ou de crescer intelectualmente. Acontece que esse regateio já existe entre a comunidade académica e científica mundial, com a diferença que nesse caso só podem regatear aqueles que aprenderam o que sabem nas redomas esterilizadas das instituições académicas. Há quem tenha, contudo, contribuído para o crescimento intelectual da humanidade por outros caminhos. A Internet, com ou sem Wikipédia, será sempre um amontoado de conteúdos díspares e falsos, com alguma verdade à mistura. A Wikipédia não vem para aumentar a confusão, mas para formar pessoas capazes de ler, pensar e criticar, sabendo ouvir críticas - de toda a gente, incluindo tanto os mais doutos investigadores que tenham a humildade de descer ao pântano como o Tio José da Taberna. Quem não gostar dessa ideia, tem apenas uma coisa a fazer: ignorar a Wikipédia. Mas censurá-la nunca será bom, porque mais vale uma página com mentiras que pode ser discutida e remodelada no próprio instante a milhões de páginas fixas no firmamento da Internet onde os autores negam, até, simples comentários. Não desprezo ninguém. Mas desprezo a falta de vontade, que tanto se vê entre os lusófonos, de dialogar, de argumentar. De procurar a verdade, em vez de guardar os seus simulacros num cofre lacrado com os selos das Universidades. Abraço, e espero que continue a utilizar a sua inteligência e cultura de um modo edificante. Entrar na Cruzada contra os bárbaros Wikipedistas não me parece o melhor caminho, mas se entrar nela, estarei sempre disposto a usar das armas pacíficas do diálogo e da argumentação, bem como da exposição de valores e princípios de vida. Esses são inegociáveis, mas a verdade, ou o que dela alguma vez poderemos vislumbrar, é. É-o a toda a hora. E não a concedo a si nem ao Albert Einstein.

Agradeço desde já qualquer comentário que venha a fazer no futuro, mas agradecia que lesse o que escrevo e não comentasse apenas aquilo que julga que eu escrevo. Abraço cordial,

Manuel Anastácio

Termino com uma nota crítica em relação à Wikipédia lusófona, ao dizer que, desde sempre, tem sido pródiga em expulsar os seus contribuintes mais fervorosos e com maiores capacidades. Isso deve-se, quanto a mim, a uma das características que mais tenho apontado em relação aos lusófonos em geral - e que tanto verifico entre aqueles que permanecem na Wikipédia como aqueles que a abandonam furiosos. Espero mesmo que não seja uma característica que se incruste indelevelmente nas nossas almas a partir da Língua Portuguesa - língua de poetas e oradores, mas pouco dada à troca de palavras. Isso nota-se, por exemplo, na nossa literatura epistolar, onde abundam as cartas de contínua afirmação das afinidades e tão poucas as de confronto de ideias. O que é que há na nossa língua, na nossa cultura, que nos indispõe tão facilmente contra as ideias dos outros e que nos feche numa persistente cegueira de orgulho?

É por isso que precisamos urgentemente de mais blogs (com caixa de comentários aberta a tudo e a todos, inclusive a palavrões indecorosos - ou que publiquem devidamente os mails que lhes são enviados - por todos, incluindo o Tio José da Taberna) e de maior participação na Wikipédia. Porque temos muito a aprender. O marasmo intelectual português (e brasileiro - e africano) assenta muito no lodo estagnado dos  títulos académicos e dos pindéricos anéis de curso. Se o Tio José da Taberna me disser algo edificante e o Senhor Doutor me disser, com ar altaneiro: "fale comigo quando tiver o doutoramento" - não tenho dúvidas. Preferirei o Tio José da Taberna. E é por isso que sempre defenderei que o Tio José da Taberna também tem direito a controlar a Wikipédia.

Os Senhores Doutores, por seu lado, sê-lo-ão duas vezes mais aos meus olhos (ou mais ainda, consoante o seu mérito - porque eu valorizo o mérito, ao contrário do que dizem aqueles que fingem que me lêem) se souberem descer do pedestal.

O blog do Orlando Braga continua fora do ar... Será que quando voltar (se voltar) os meus comentários ainda lá estarão? Ou foi a máfia fanática dos Wikipedistas que moveram-se, em conjunto com o Lobby Gay, para calar o Orlando?...
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 17:40
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
2 comentários:
De JPG a 27 de Fevereiro de 2007 às 12:45
A situação está relatada pelo próprio Orlando Braga no seu blog alternativo (http://espectivas.wordpress.com/2007/02/24/letras-com-garfos-2/), post este que foi transcrito no Apdeites (http://apdeites2.cedilha.net/?p=358).
De Manuel Anastácio a 27 de Fevereiro de 2007 às 13:33
Obrigado. Não frequentava esse blog, pelo que não fui devidamente informado..

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