Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007
Curta 25
Ela, assim que entrou, dirigiu-se à secretária de forma resoluta, decidida e com o brilho nos olhos de quem fizera uma enorme descoberta. Estendeu, orgulhosamente, o dedo avermelhado frente ao rosto do professor. E disse:
- Stôr, desde a última aula...
Neste entretanto, o professor gritou ao Rui que entrou e deu um pontapé ao Pedro.
E ela, olhando o rosto avermelhado do professor, dirigiu-se silenciosamente para o seu lugar, por entre mochilas que voavam. Não falou do dedo. Abriu com desalento e resignação o caderno diário. O professor, sem saber o que ela queria dizer, tinha de responder à desordem e às agressões - não podia ignorar o mal que vinha de fora da sala. Sentiu-se, então, desgraçado, por perder, à conta daqueles que dele nada queriam, a palavra que avermelhara um dedo. Sabia que, por orgulho, já não ouviria a história com o mesmo entusiasmo. Há coisas que só se dizem ao entrar na sala. Chorou intimamente. Por dentro, enquanto recitava as regras, como quem repete o terço. Porque os professores não choram de forma visível. Caso contrário, são comidos vivos.
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publicado por Manuel Anastácio às 00:15
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5 comentários:
De Artur a 14 de Fevereiro de 2007 às 19:54
Bem vindo ao dia a dia lectivo...
De M. a 14 de Fevereiro de 2007 às 19:57
«Sentiu-se, então, desgraçado, por perder, à conta daqueles que dele nada queriam, a palavra que avermelhara um dedo.»

todos os dias, cada dia, dia a dia, quantos e quantos de nós

por isso dou graças todos os dias por estar com os mais pequenos e, também, de este ano ter tido sorte, muita sorte com as turmas que me calharam

De Manuel Anastácio a 14 de Fevereiro de 2007 às 22:58
...

Só os professores entendem, não é?...
De Pedro a 18 de Fevereiro de 2007 às 10:41
Esta "pequena grande" história ilustra bem o nosso dia-a-dia de professores...temos tantas almas para escutar e compreender e tão pouco tempo...
Abraço.
P.s.-100% de acordo com o não escrever nas árvores as nossas manifestações de amor...de facto, para isso, existem os tampos das mesas. A árvore, em si, já é uma dádiva de amor...
De Manuel Anastácio a 18 de Fevereiro de 2007 às 14:39
;)

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