Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007
Nostalgia

Genérico inicial do filme "The Go-Between" de Joseph Losey - um filme que não está na lista dos 100 porque tenho, antes, de o rever com atenção. A música, fantástica, é de Michel Legrand.


A respeito da casa existencialista, ilustrada por uma cabana na Floresta Negra, em Todtnauberg, onde Heidegger terá desenvolvido muito do que compõe o seu pensamento arquitecto-filosófico, Iñaki Ábalos, em "A Boa-vida", define a nostalgia como a manifestação dos conflitos existenciais com o tempo, ou, simplificando, "o produto de uma idealização da densidade e da solidez do passado frente à banalidade do presente".

A densidade psicológica do passado refere-se tanto à experiência individual quanto à experiência transmitida, que resume e carrega os contornos e o contraste de cada acontecimento, especialmente daqueles marcados pela violência e pela decisão. O presente é composto essencialmente por uma  vacuidade indecisa. E quando damos o passo decisivo, fazemos a nossa escolha, ou já nos vemos numa nova realidade que se impôs, alheia à nossa vontade, chegamos a duvidar da resolução (ainda mais se for de alvedrio próprio) porque somos habitantes de uma eternidade em crise. Eternamente expostos ao caminhos que se bifurcam, não somos mais que entidades ondulatórias que se multiplicam em fendas afastadas do centro de cada decisão que tomamos.

O termo nostalgia foi criado em 1688 por Johannes Hofer (1669-1752), um estudante de medicina Suíço, juntando dois radicais gregos:  νόστος - voltar a casa - e άλγος - sofrimento. Refere-se, portanto, ao desejo sofredor de regressar a casa, sendo a casa o lugar espácio-temporal idealizado, condensado, de todas as experiências que consideramos autênticas na nossa vida ou que desejaríamos ter presenciado. Saramago, ao falar de Blimunda e Baltasar Sete-Sóis, diz que "olharem-se era a casa de ambos". A nostalgia é a idealização do mundo sensível filtrado pela memória pessoal. É no mundo sensível que habitamos, mas só nele habitamos relacionando-o com a memória. E não há habitação onde a plenitude da nostalgia se sinta mais acre e docemente que no sentimento que designamos como Amor.

Há cinco anos atrás, num estúdio com uma janela larga sobre a lezíria do Ribatejo, mudei de casa. Ouvir a voz de cada um era a casa de ambos.

Quando comecei a escrever este texto, havia gotas de chuva no vidro em frente, que dá para o conjunto de árvores roxas que daqui a um mês estarão brancas de flores. Tenho saudades do tempo em que essas árvores ficam brancas. Saudades? Sim... Lembram-me a nostalgia da princesa nórdica casada com um Mouro que plantou amendoeiras no Algarve para lhe oferecer um sucedâneo de neve. Pelo menos é o que contam as lendas. Poderemos sentir saudades do que sabemos que virá, porque o tempo ainda (precariamente) é cíclico? Serão as saudades mais pungentes que a nostalgia? São os portugueses mais nostálgicos que os outros povos, ou somos mais apegados à terra que aos bons velhos tempos? Residirá aí a diferença entre a Saudade e a Nostalgia?

Quando comecei a escrever este texto, havia gotas de chuva no vidro em frente, e lembrei-me de um filme que vi quando era ainda muito pequenino, na altura em que estava a ler um livro sobre realizadores de cinema. Nessa altura, os meus sonhos eram divididos por planos maravilhosamente montados. Lembro-me de um, em que a Rita Hayworth mergulhava no oceano, da porta de um vagão de comboio sobre uma ponte sem fim à vista. Tudo filmado num preto e branco tingido de tons dourados. Havia gotas de chuva no vidro em frente, e lembrei-me das imagens iniciais de um filme que vi em pequeno, sem ter grande capacidade para o compreender  – mas que vi fervorosamente porque era referido no livro que estava a ler – e adorei, mesmo sem ter percebido grande coisa. O filme era “The Go-Between”, de Joseph Losey. E começava com gotas de chuva sobre vidros de um carro. E na altura pareceu-me a imagem perfeita da nostalgia. Ainda hoje me parece. Hoje, ainda mais. Só que as gotas não são de chuva.

 

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publicado por Manuel Anastácio às 21:12
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3 comentários:
De Paulo sempre a 13 de Fevereiro de 2007 às 02:32
Interessante, recordar a filosofia....
Abraço
Paulo
De Artur a 13 de Fevereiro de 2007 às 18:53
Este dia está propício a nostalgias...
De rita a 9 de Fevereiro de 2011 às 22:29
"olharem-se era a casa de ambos" roubada do Saramago em primeiro lugar e roubada a si por mim neste momento. Espero que não se importe.

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