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Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007
Felicidade

Montagem a partir de várias cenas de "Intolerância" de D. W. Griffith, com banda sonora dos Beatles ("A Day In The Life")

Sinto-me feliz. Após alguns dias sem ter escrito nada no blog, um anónimo deixou-me um comentário a chamar-me de falso... Se é falso como o meu leite creme, óptimo - mas creio que ele(a) falava de outra falsidade. Quando as pessoas defendem aquilo em que acreditam de forma clara, criam em torno de si uma legião de detractores. Só tenho pena de não ter, de facto, uma legião de detractores, mas apenas meia dúzia. Esses, no que diz respeito ao meu blog, podem ser de dois géneros: ou são xenófobo-racistas, como a Madalena-apenas, ou são inimigos viscerais da Wikipédia e, particularmente, dos seus administradores. Não sei de onde terá vindo aquele comentário, mas o trabalho continuado na Wikipédia, a lidar com anónimos (alguns bons contribuidores, outros nem por isso) ensinou-me a ter uma sensibilidade especial para mensagens deste género e a reconhecer os seus autores. O estilo da mensagem é francamente reconhecível: o tom meloso e hipócrita, enjoativo, até:

"Quando as pessoas são falsas e mesquinhas tudo o que escrevem transmite isso mesmo."

Ora, isto pode até soar bem, mas é totalmente falso. Muitos autores que eram falsos, mesquinhos e do pior no que ao carácter diz respeito, deixaram obras escritas de uma limpidez celestial e de uma poesia infinita. A escrita é uma arte e tem sempre uma dose de fingimento. Aliás: note-se que a maioria dos recursos expressivos - aqueles com que dizemos as verdades mais profundas - são apenas formas estilizadas de mentira (as metáforas, as hipérboles e outras que tais). Portanto, a pessoa que escreveu tal alarvidade é alguém que não está habituado a reflectir no que diz (aliás: não deve reflectir sobre o quer que seja). Partindo do princípio que eu sou uma pessoa mesquinha, não se pode inferir, de modo algum, que a minha escrita o reflicta. Ainda mais quando o meu post anterior é tudo menos falso: é, pelo contrário, uma confissão. Custou-me mais a mim dizer que uso leite condensado e gelatina do que, certamente, custou a Santo Agostinho passar a escrito o seu maior pecado. Pronto, é uma hipérbole...

" É incrível como até o título deste post fala na falsidade das coisas."

É incrível, de facto - porque não vejo este título a referir-se, de modo algum, à falsidade das coisas. Não sou muito bom em ontologia. O problema da autenticidade das coisas ou da sua falsidade é um tema muito complexo que remonta às primeiras discussões filosóficas e que, provavelmente, nunca será resolvido. Existirá um mundo ideal mais verdadeiro que o mundo sensível? Posso dar a minha opinião, mas não agora, que não tenho tempo. Quanto ao título, a não ser que tenha feito uso de uma sinédoque, creio que em nada se refere a tão digna problemática. Será que o leite creme pode ser utilizado como referente para o todo - "as coisas"... Até pode, mas não consigo establecer grande relação: o que existe, de facto, no leite creme que o possa relacionar com a totalidade dos entes de um dado universo? Ignoro...

"Há que meter a mão na conciência e mudar aquilo que faz com que as pessoas sejam pior que bichinhos..."


Esta frase, por sua vez, mexe-me na consciência. É que eu, de tanto me preocupar com a inconsciência das outras pessoas, posso, de facto, ter deixado a minha ao abandono. Mas é uma frase que tem que se lhe diga: ao pormos a mão na consciência poderíamos, supostamente, mudar aquilo que faz com que as pessoas sejam piores que bichinhos. Ora, é uma frase problemática, porque não define o que é que faz com que as pessoas sejam piores que bichinhos. Eu posso fazer uma lista breve: intolerância, ganância e estupidez. São as únicas coisas que tornam as pessoas piores que bichinhos - e não vou comentar o juízo de valor implícito que considera que os bichinhos são maus - ainda se fossem os bichões, ou o Bicho Papão: mas os bichinhos?! Tadinhos... Ora, quanto à intolerância e ganância - há, de facto, que colocar a mão na consciência. E agradeço que me apontem quando caio nas garras das duas. Quanto à estupidez, agradeço que me instruam. Adoro aprender coisas novas. E confesso que cada vez me sinto, de facto, mais estúpido (já nem digo ignorante: estúpido mesmo). Mas vou afagando o ego, acreditando que esse é o mais digno caminho da sabedoria... É verdade: sinto-me feliz...
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 19:17
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2 comentários:
De Artur a 10 de Fevereiro de 2007 às 11:23
Estás tramado... tens aí pela vasta rede um admirador secreto que sublima os seus sentimentos proibidos sobre ti em amáveis vitupérios...
De Jofre Alves a 11 de Fevereiro de 2007 às 17:50
Passei para acompanhar esta refrega sobre a Wikipédia, assunto que me interessa por diversos motivos e deixar uma saudação. Óptimo fim-de-semana.

Dizer de sua justiça

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