Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007
Quem controla a Wikipédia - Parte I

Painel de azulejos da Via Sacra, Alcaide, Fundão. Foto minha em Creative Commons.

Ao fazer a ronda pela blogosfera que o pouco tempo livre me permite, tive o prazer de encontrar um post do Paulo Hasse Paixão, onde se fazia o elogio da Wikipédia. Ora, quem elogia a Wikipédia, elogia-me a mim. Não porque eu seja a Wikipédia (ultimamente, para meu desgosto, nem sequer tenho tido tempo para contribuir nela), mas porque acredito, de facto, que a Wikipédia tem um papel importante na produção de conteúdos na Internet. Com ressalvas de que todos deviam ter consciência, mas não têm. Estou, mesmo, a pensar em enviar um mail a todas as escolas portuguesas a alertar quanto às precauções a ter quando se utiliza a Wikipédia, ao mesmo tempo que farei a apologia de todas as suas virtudes educativas, especialmente no que diz respeito à participação dos alunos na criação, debate e desenvolvimento de conteúdos na Wikipédia - isso sim, é educativo, mais que a simples e acéfala "consulta" de um conjunto de materiais em constante metamorfose e que, por vezes, tem mesmo conteúdos perigosos, tendenciosos, e obscenos (entenda-se por obsceno o que se entender). Ora, o artigo do Paulo a má hora me levou à caixa de comentários onde encontrei um comentário que espoletou uma série de más leituras que, contudo, merecem uma resposta ou, pelo menos, uma análise atenta. Não tenho tempo para escrever tudo o que me passava pela mente enquanto passava de link para link, ora em blogs retrógrados e/ou desinformados, ora nas páginas eliminadas da Wikipédia, a que tenho acesso na qualidade de "administrador" da mesma. Luís Bonifácio, autor de um blog bastante interessante, e que o Paulo adequadamente considera uma das pérolas da blogosfera portuguesa, foi, contudo, também autor de um texto onde reclamava contra o artigo "Pederastia" da Wikipédia, apodando-o de "inacreditável". Note-se que eu mesmo considero que o artigo está mau - ainda que as concusões do caro Luís Bonifácio sejam um tanto ao quanto estranhas e, até mesmo, ofensivas à inteligência - e muito daquilo que ele considera inacreditável é, apenas, objectividade (não estou a dizer que o artigo está objectivo - refiro-me apenas a alguns aspectos apontados pelo Luís). Mas vamos por partes. E hoje não vou poder abarcar todo este emaranhado de críticas e desinformação. Acontece que o Luís Bonifácio é leitor de um blog asqueroso [decidi reconsiderar o adjectivo - limito-me a discordar do seu autor] designado de "Wikipedia Watch", que o levou até ao artigo referido, através de um post onde se faz referência a um suposto duplo critério na Wikipédia, porque dois artigos, feitos pelo autor do Blog, Orlando Braga, foram eliminados. Note-se que Orlando Braga é idolatrado por grande parte da blogosfera de extrema-direita, principalmente entre a ala homofóbica. Antes de prosseguir (quando puder), deixo-vos aqui o texto de Orlando Braga que foi "censurado" e apagado da Wikipédia, depois de assim ter sido decidido pela comunidade, que considerou o texto panfletário. Tenho acesso ao texto, na qualidade de administrador. Os outros utilizadores não podem aceder aos textos eliminados, deparando-se, se deles forem à procura, com uma página vazia: neste caso, aliás, a uma página bloqueada a novas edições, para evitar a sua "recriação".

Passo, então, a transcrever o texto que, posteriormente analisarei, para que se compreenda o problema em questão (e há muito a compreender):

Lobby gay, ou lóbi gay, define-se como um grupo de pressão que visa influenciar o poder político no sentido da promoção de políticas homófilas (p.ex o casamento entre homossexuais, a adopção de crianças por casais homossexuais, leis "anti-discriminação", projetos de interesse dos LGBT, etc.). O lobby gay também se esforça em censurar ou criminalizar informações e opiniões que não convenham a seus interesses.

 Lobby gay em Portugal e Brasil

As associações que em Portugal fazem lobbying junto do poder político são a ILGA Portugal, o Clube SAFO e a associação Não te prives. A Juventude Socialista e o grupo de trabalho homossexual do Bloco de Esquerda têm feito lobbying junto dos partidos que integram no sentido de liberalizar o casamento homossexual em Portugal.

No Brasil, o lobby gay atua principalmente através de interferências de ONGs de defesa dos interesses de homossexuais junto ao poder público e estatal (Executivo, Legislativo e Judiciário) e aos meios de comunicação. Entre os grupos que participam do lobby gay, destaca-se o Grupo Gay da Bahia (também conhecido como GGB, fundado pelo militante gay Luiz Mott), além de várias outras entidades e pessoas comprometidas com a promoção dos interesses dos GLBT no Brasil.

Conspiração gay

O termo surgiu na política portuguesa em 1995 quando durante a campanha eleitoral para as eleições legislativas, um candidato a deputado cabeça de lista pelo distrito de Aveiro acusou publicamente outro candidato de fazer parte do lobby gay. Trata-se aqui de um outro fenómeno baseado na crença de que existe um grupo clandestino constituido por poderosos homossexuais que visa a ocupação de lugares de topo na política portuguesa. A sociologia encara este fenómeno como uma teoria de conspiração clássica. "Trata-se, segundo me parece, de um equívoco em relação ao próprio termo lobby na maior parte dos casos, embora o mito também diga respeito à existência de um lobby formal e clandestino de estilo maçónico, o que está completamente por provar, até porque não tem consequências visíveis, como seria de esperar de um verdadeiro grupo de pressão", afirma o sociólogo Manuel V. Cabral.

"Não se deve escamotear alguns comportamentos de tipo lóbista que os gays assumem quando se organizam em grupos. Tal como um heterossexual se sentirá propenso a preferir uma funcionária mais bonita a outra menos atraente, também os gays poderão usufruiur de alguma vantagem junto de um empregador homossexual. Esta prática não pressupõe de forma alguma a existência de uma organização solidária, mas é mais do que suficiente para alimentar invejas e respectivas mitologias. Parece-me tratar-se de clubismo puro e simples, mero sentimento de pertença, aliado a algum oportunismo dos que usam a sua sexualidade para subir na vida."

Segundo um inquérito realizado no portal Portugal Gay [1], 30 % dos gays acreditam na existência de um grupo influente e organizado que trabalha clandestinamente em prol da comunidade homossexual, 55% não acreditam que exista e 15 % reconhece a actividade lobista das associações que se batem pelo diereito dos homossexuais, mas duvidando da sua eficácia.

"Características como a sexualidade são transversais, afectam indíviduos nas mais diversas posições. Há homossexuais de esquerda e de direita, ricos e pobres, católicos e ateus, com concepções sobre a pratica da homossexualidade muito distintas e não poucas vezes antagónicas. Uns são discretos e não assumidos, outros desejam reconhecimento e participam em marchas de orgulho, outros lutam abertamente pela aquisição de direitos, e outros não querem para sí mais do que a liberdade para viver a sua sexualidade no recato do lar. Não é um grupo social forte e coeso como as religiões ou os partidos políticos, e não creio que seja sequer comparável a um clube de futebol. E isso compromete a ideia de que possa existir uma organização clandestina que os una e que para eles trabalhe", comenta Artur Abellard, sociólogo catalão especialista em minorias.

Lobby gay e pedofilia

O jornal semanário português Expresso publicou em 2004 uma extensa reportagem em que dava conta de uma investigação da polícia judiciária aos circuitos de prostituição do Parque Eduardo VII em Lisboa, suspeitando da existência de um grupo de homossexuais organizados tão poderoso como os "Igreja Católica, a Opus Dei ou a Maçonaria". Essa vertente da investigação foi abandonada e re-orientada para a pedofilia. "É mais um estigma com que temos infelizmente que viver. Se estamos escondidos somos hipócritas subversivos, se assumimos a nossa sexualidade somos apontados na rua como molestadores de crianças, se somos promovidos no emprego fazemos parte de uma força das trevas. É uma condição bastante dura.", testemunha um homossexual que preferiu manter-se no anonimato.

Ligações externas

(este texto, apesar de ter sido eliminado da Wikipédia está, contudo, creio eu, em GFDL, já que o seu autor assim o pretendia ao colocá-lo lá).
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 10:59
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
6 comentários:
De Luís Bonifácio a 31 de Janeiro de 2007 às 14:07
Obrigado pelo elogio acerca das cartas portuguesas.
Sobre a questão da pederastria, o que me chocou foi o facto de o artigo estar escrito com o objectivo de branquear um comportamento pedófilo, apresentando-o como uma "coisa bela", tipo "Morte em Veneza".
Descanse que quando tiver tempo farei a tradução do artigo que se encontra na Wikipedia Inglêsa, frizando o facto de ser, hoje em dia, um comportamento criminoso.

Quanto a Orlando Braga, o facto de ler o blogue não significa que subscreva tudo aquilo que ele afirma. Mas apodar o seu blogue de "asqueroso" é injusto, pois Orlando Braga sabe defender as suas ideias sempre do lado cordial, tal como o Professor Adelino Maltez frisou quando elogiou a crítica que Orlando fez, acerca da sua posição de apoio ao SIM no próximo referendo.

Quanto aos Gays não tenho nada contra, mas já não acontece com quem afirma falar em nome de "todos", quando na realidade apenas se representam a si mesmos e a mais ninguém, tentando com isso a obtenção de benesses das quais serão apenas esses poucos a usufruir.
De Manuel Anastácio a 31 de Janeiro de 2007 às 17:57
A minha preocupação, neste caso, é apenas com a Wikipédia e com a imagem desinformada que este senhor pretende transmitir do seu funcionamento. A questão não é se existe ou não um lobby gay, mas a forma como o assunto deve ser abordado na Wikipédia. A comunidade decidiu que aquela forma era opinativa, tendenciosa e mesmo ofensiva. Vou analisar em breve se é assim ou não - e se houve erro da parte da comunidade (que existe,por vezes), Quanto ao blog do senhor Orlando, continuo com a mesma opinião.

Fico muito contente por propor-se a expandir o artigo sobre pederastia. O artigo em inglês está, de facto, melhor (ainda não o li com muita atenção). Essa é uma atitude muito louvável da sua parte.
De Artur a 31 de Janeiro de 2007 às 18:59
Há facções assim tão entrincheiradas na wikipedia? Eis uma ideia bastante panteromoderna. Não deixa de ser interessante imaginar o que aconteceria se as facções se armassem e a wikipedia implodisse numa sangrenta guerra civil. Quais serão as nacionalidades do futuro? As comunidades virtuais a que pertencemos, ou manteremos o gosto pelas nações reais?

Apetecia responder get a life, mas reconheço que obsessões são obsessões, independenteme dos media que se utilizar. Quanto ao teu projecto de enviar um mail às escolas deste país em defesa da Wiki (que considero inestimável) não quero ser desmancha-prazeres, mas sabes bem que nesta nossa classe tão literata 99,99% dos leitores ficaria a olhar para o palácio a perguntar-se "Wikiquê"...?
De Manuel Anastácio a 31 de Janeiro de 2007 às 22:04
Há facções - mas estas críticas destrutivas em relação à Wikipédia vêm mais da parte de pára-quedistas e provocadores de serviço, alguns dos quais, infelizmente, têm algum poder de mobilização na Internet. Quanto às escolas: é mesmo por existir isso de "Wikiquê", que se torna necessário um esclarecimento sobre o que é a Wikipédia. Ainda mais quando vejo, cada vez mais, alunos a utilizarem os conteúdos da Wikipédia em trabalhos escolares, sem que os próprios professores compreendam que esta fonte deve ser utilizada de outra forma... Mais como "guia" que "fonte bibliográfica"... É também por essa iliteracia que a Wikipédia pode ser um meio educativo excelente, ao incentivar a leitura crítica, a dúvida, a verificação de dados, a pesquisa que gera pesquisa, etc... Usar a Wikipédia apenas como fonte de informação é absolutamente desadequado. Talvez, no futuro, existam produtos derivados da Wikipédia, mais confiáveis. Por enquanto, temos de usar a Wikipédia naquilo que ela tem, aliás, de mais desafiante e maravilhoso: a colaboração, a discussão, a entreajuda na pesquisa e no esclarecimento de dúvidas e partilha de dados!... É preciso que as escolas compreendam isso.
De Pedro Morgado a 31 de Janeiro de 2007 às 23:17
Os meus sinceros parabéns pelo seu post.
Subscrevo na íntegra.
De Caramelos a 18 de Setembro de 2007 às 17:38
Bem escreves muito..................
nen sabes o tempo que fiquei a ler..................
ta giro............
beijos da tania.................

Dizer de sua justiça

.pesquisar