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Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007
Um, Dois, Três, Zero


Tímpano da Igreja de Paradela, representando o Cordeiro de Deus, seguido por uma ovelha de menores dimensões. Museu Arqueológico de Barcelos. Foto minha, em Creative Commons


Há algo nas religiões que se assemelha às lâminas de barbear. Não há dúvida que a invenção do monoteísmo – ou a sua revelação, consoante os gostos e as crenças – foi, para todos os efeitos, uma evolução civilizacional sem precedentes. Um só Deus para toda uma humanidade tão diversa e intolerante: este foi, talvez, o primeiro passo para a concepção da unidade do ser humano e para o universalismo humanista que fundamenta as grandes ideologias da contemporaneidade. Nacionalismos cegos (não ponho em causa o patriotismo, compreenda-se, nem o bairrismo – eu mesmo considero-me muito patriota e bairrista) não entram, sequer, no campo das ideologias mas, tão somente, no campo da idiotice. Não há que teorizar sobre aquilo que é absolutamente um retrocesso à mentalidade tribal. A unidade divina corresponde, na evolução espiritual do Homem, à descoberta do ponto de apoio de Arquimedes – a humanidade só poderia elevar-se à Paz Universal se a alavanca da Política assentasse num pressuposto fixo, fulcral e exterior à própria humanidade. A teoria está certíssima – e se a Paz Universal continua arredada do nosso horizonte é porque, de facto, o monoteísmo puro é a mais intragável das ideias. Os muçulmanos dizem várias vezes ao dia que é Um, é Um, é Um, tantas vezes, e com tantos adjectivos, desde Misericordioso a Implacável, que pouco resta da sua unidade. O cristianismo oferece tantas variantes, que dificilmente se aceita a ideia fulcral do número um. Por incrível que pareça, o número dois apareceu na deriva das religiões institucionais como uma flutuação no vazio. Mas é, contudo, o número que mais adeptos conquista, se fizéssemos contas a partir das crenças íntimas, em lugar dos registos paroquiais. Manes, Mani, Manikhaios ou Maniqueus, o profeta do Maniqueísmo tentou provar a excelência da máquina de barbear com duas lâminas, que, no fundo, não era mais que uma faca de dois gumes. O dualismo, por ser tão óbvio e afim à psicologia humana, é aquele a que mais rapidamente e duradouramente nos afeiçoamos. No desenvolvimento intelectual e afectivo de qualquer ser humano, o número dois resume a natureza e os seus ciclos, a sexualidade e a ideia de complementaridade e é a base da maioria dos fenómenos perceptivos fundo/figura, que nos leva, surpresa das surpresas, à descoberta da unidade! Só isolando o objecto da sua envolvente é que nos apercebemos da sua unidade. Só nos apercebemos do número um depois de convivermos, desde a concepção, com o dois: fome e satisfação, dor e prazer. Tão óbvio e confortante é o dois que as religiões institucionais fazem tudo para o denegrir. Mas confesso que em termos de lâminas para barbear, prefiro as três. Um banco com três pernas não balança – da mesma forma, as lâminas estabelecem entre si uma dinâmica de pura adaptação à pele e os cortes são reduzidos ao mínimo. Uma maravilha. Claro que em termos religiosos, a coisa não é tão estável: a Santíssima Trindade é um fardo pesado de compreender e, ainda mais, de aceitar. Mas aceita-se, graças à ajuda de São Dois que, para permanecer na Eternidade – e para não se imaginar um Deus muito quietinho fora do Tempo – precisa de um eterno empurrão/processão das suas partes. O terceiro elemento da divindade, o Espírito Santo, aparece para distender na Eternidade um processo activo de criação. Vem trazer e, simultaneamente, resolver a inquietação e a dúvida que, inegavelmente, sempre foi consubstancial ao Filho: e as suas últimas palavras, em toda a Paixão são disso prova. “Tenho Sede”, por exemplo, mesmo quando lido na sua mais literal das significações, transparece a humanidade carnal e necessitada de Jesus e estabelece um elo entre um apelo ao homem, que o tenta desalterar, e outro apelo ao Pai, a quem se dirige a acusação de abandono que leva ao desfecho e à morte. A nítida separação entre Pai e o Filho, pela dúvida e pela dor, só poderia ser resolvida, se quiséssemos manter a unidade destes dois, pela intercessão do número três – o número da actividade criativa cuja função é manter tudo em perfeito equilíbrio. Quatro lâminas de barbear – ou cinco, como já há agora, já é exagero. Os deuses tetra ou pentaformes são absolutamente deselegantes e totalmente desadequados às curvas do rosto de um homem.


Resta, contudo, o número zero – uma conquista científica ainda mal assimilada pela religião que a ele associa apenas o niilismo, o ateísmo ou a anulação da dor – se nos virarmos para outras bandas místicas. Mas não, é no zero e na ausência de lâminas que reside o futuro de qualquer religião em devir. A depilação recorrendo à luz amplificada por emissão estimulada de radiação promete o abandono desses símbolos de castração que são as lâminas. É na luz que reside o próximo passo da Humanidade – a mesma luz que esclarecerá, de uma vez por todas, por que raio de luz é que tentamos apor números à Divindade, desde que Abrão, antes de receber mais um a no nome, cortou uma data de bicharocos em sacrifício. Disse-lhe Deus: Toma uma vitela de três anos, uma cabra de três anos e um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho". Abrão foi buscar todos esses animais, cortou-os ao meio e pôs cada metade em frente de outra metade; mas não cortou as aves. (…) Ao pôr do sol, apoderou-se de Abrão um sono profundo, enquanto o assaltava um grande e escuro terror. Quando o sol desapareceu e caíram as trevas, uma labareda fumegante e um archote de fogo passaram entre os animais divididos (Génesis, Capítulo 15).
Note-se, aqui, a presença do número três cortado pelo fogo, e do dois, concretizado em duas aves, não cortadas. Os animais da terra, símbolo da matéria, tiveram de se submeter à divisão; as aves, símbolo da espiritualidade (não é o Espírito Santo representado por uma pomba?)  prescindiram desse corte. Não sei o que quer dizer. Mas pressinto. É tão bela a poesia do inexplicável…

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publicado por Manuel Anastácio às 01:11
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4 comentários:
De Paulo Hasse Paixao a 30 de Janeiro de 2007 às 05:50
Sobre o número de Deus, diria que o meu preferido é o 9 (dionísio, deus do extase e do drama grego). Sobre o post diria que é para mim cada vez mais difícil deixar um comentário neste blog. Falta-me, sinceramente, a erudição.

Abraço, pá.
De Manuel Anastácio a 30 de Janeiro de 2007 às 12:26
Hum... O nove é apenas uma derivação do três (o seu quadrado). O próprio Dante brinca muito com essa relação numérica. Quanto à erudição... Tá bem, faz de conta que é verdade... ;)
De Artur a 30 de Janeiro de 2007 às 19:11
Seria possível definir o bem se o mal deixasse de existir?

Texto interessantíssimo!
De Filipe a 31 de Janeiro de 2007 às 13:26
Costumo dizer aos meus alunos que o 0 e o infinito não existem, claro que aí estou a falar de Física.
Na tua leitura sobre as religiões , sobressai o rito e os dogmas, tentados a ser explicados num contexto antropológico. As questões de fé estão além disso, então quando começas com números, existe uma escola com mais de mil anos, na própria religião cristã, entre outras, que ainda hoje cria as mais elaboradas teorias da conspiração.
Mas o número é posterior ao homem.

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