Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007
Noli me tangere

Nolli me tangere, de Correggio (1489-1534)

Era uma vez uma senhora muito casta chamada Madalena. Acentuo que era casta porque o nome Madalena dá-se a certos abusos - e as tentativas de Dan Brown em limpar o nome da mais famosa das Madalenas não têm tido tanto sucesso quanto o romance. O pessoal continua a dizer que era uma ex-prostituta: nada a fazer! Por isso mesmo, a senhora gostava de dizer que era apenas Madalena1 - nada de ex- qualquer coisa - até porque, segundo ela, as brasileiras já lhe tinham tirado qualquer possibilidade de negócio. Mas continuava casta porque, de boa cepa lusa, só casaria com um português da mesma cepa. No seu sangue puro corriam as últimas gotas do mais ancestral dos portugueses. Os mais insígnes genealogistas faziam remontar a sua árvore ao último dos "H
omo neanderthalensis" a reagir com raça e determinação à decadente mestiçagem (e os sotaques e crioulos horríveis que daí vieram a seguir) com uns tais de "Homo sapiens sapiens", de baixa linhagem. Ela estava destinada a um príncipe de sangue puro, isso sabia ela... O que ela não sabia é que a disposição dos seus olhos na caixa craniana provocavam um efeito de distorção visual no que dizia respeito aos tamanhos... Pelo que (não, não é nada disso que estão a pensar) sempre viveu na ignorância, julgando que o seu cérebro ocupava um volume maior que o da média da população, que prosseguia numa espiral de decadência devido à contaminação do seu sangue pelo contacto com pretos, intelectuais, brazucas, jornalistas, muçulmanos, professores,  judeus, ciganos, poetas, artistas e outros exemplares da pior escória a que, às vezes, a sua miopia designava de "padres, missionários e freiras" (vá-se lá saber a causa da confusão, já que ela mesma era muito católica, e quando rezava, rezava com muito sentimento e paixão).

Um dia encontrou o seu príncipe. Fez-lhe o teste do calhau debaixo do colchão ortopédico e, tendo-se ele queixado que a sandes de coirato estava mal passada, ficou rendida. Quis casar-se. Mas foi difícil encontrar um padre que não fosse brasileiro - ainda tentaram mudar de religião, mas o Brásiu (como ela dizia) estava em todas. E antes quereria ir para a cama fora dos laços do matrimónio, do que receber o sacramento "matrimoniau" em vez do sacramento "matrimonial". O seu último exemplar de neanderthalensis concordou. Foi para a cama com ela... e perdeu-lhe o respeito. Começaram a fazer coisas vergonhosas, como a falar com sotaque brasileiro enquanto... enfim, não vou entrar em pormenores sórdidos. Claro que isso era só na intimidade. Ninguém diria que aquela senhora tão correcta (jamais correta, Deus me livre!), que até escrevia "poix" em vez de "pois" (a primeira forma é a forma clássica, já utilizada por Fernão Lopes) era, no fundo, uma "safadona"... Mas era. E graças a isso, tiveram muitos neandertalitos que, contudo, foram dizimados décadas depois, mas como santos mártires da Nação, ao recusaram-se a beber guaraná durante uma celebração eucarística obrigatória, no terceiro ano do reinado de Marcelo Rossi III.

1Também não gostaria nada dessa ideia de ser a Madalena do Proust se, por acaso, soubesse o que isso alguma vez foi. Mas gostava muito da Iglésias... ah... as canções daqueles tempos... Aquilo sim!...

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publicado por Manuel Anastácio às 19:56
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9 comentários:
De Luisa Silva a 23 de Janeiro de 2007 às 14:06
Bem!!!
Isso é que é odio!!
me desculpe, mas essa sua criatividade podia ser dirigida para algo mais útil, não?
Cada um tem direito a sua opinião, mas voce exagera!!!
Sou brasileira e n achei o comentario da Madalena assim tão forte para me fazer pensar numa história ( tão pobre!!!) sobre o seu desabafo.
Eu já falei com a senhora e ela se explicou. voce nem deu xance!!!
De Manuel Anastácio a 23 de Janeiro de 2007 às 14:55
Permita-me duvidar das suas palavras. Não acredito que seja brasileira. Se tivesse lido o comentário desta senhora (mais abaixo, noutro post), veria que quem tem ódio é ela...
De Manuel Anastácio a 23 de Janeiro de 2007 às 15:02
Aliás, tudo me leva a crer que você é ela - ou uma das suas amigas - o tipo de não-raciocínio é, de facto, o mesmo. ;)
De Alguem a 24 de Janeiro de 2007 às 09:00
Depois de ler todas estas polémicas quero deixar aqui uma contribuição, desde já digo que quem eu sou não interessa, sou apenas um leitor das palavras que electronicamente se publicam.
A liberdade de expressão existe no sentido que cada qual pode expressar o que realmente sente mas essa liberdade acaba no ponto em que são postos em causa comportamentos pessoais sem provas reais do que realmente acontece ou aconteceu, provavelmente o senhor autor desta página não gostaria que fossem aqui expostos comportamentos que eventualmente possa ter ou que mesmo não tendo possam passar por reais depois de alguem os descrever.
Por isso deixo um conselho debata ideias mas não fale do que não sabe ou não tem conhecimento.
De Maria Helena a 24 de Janeiro de 2007 às 09:26
Considere tudo dito, por favor.

Há pessoas que não conseguindo ouvir os sons que as rodeiam, também não conseguem ver as evidências.

A luz do que escreve pode cegar a inteligência de alguns na cintilação do reflexo.
De Manuel Anastácio a 24 de Janeiro de 2007 às 10:21
Tudo dito, de facto. Acho que já me baixei mais do que devia... Deixem-me espreguiçar...
De Cláudia Oliveira a 24 de Janeiro de 2007 às 11:55
Muito simpático da tua parte...
Ontem estive com as minhas amigas brasileiras, estiveram-me a contar como acabar a mais recenete novela. Sabes o que lhes disse? Contei que não gostava do sotaque. E sabes o que elas disseram?
- As portuguesas são muito metidas!
Amizade amizade, sotaque á a parte.
De Manuel Anastácio a 24 de Janeiro de 2007 às 14:15
Sim, eu sou muito simpático.
De Jo Lorib a 26 de Janeiro de 2007 às 13:56
LOL, arrumaste uma briga boa.
Mas venho aqui só para te cumprimentar pela imagem que ilustra o artigo, Antônio Allegri de Correggio foi um grande pintor do Renascimento que está um pouco esquecido.

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