Domingo, 21 de Janeiro de 2007
Em Hiroshima

Excerto de "Hiroshima, mon Amour" de Aain Resnais.

Estive naquele hospital,
Em Hiroshima,
Não te lembras?
Em Hiroshima,
Sob uma chuva de cristal
Cinzento radioactivo
Que em segundos nos sepultou no nada
Por um bom motivo.
Por um bom motivo morremos na cidade abrasada,
Numa segunda madrugada
Em Hiroshima,
Não te lembras?
Mas... não te lembras?
Como podes sorrir,
E julgares que invento?
Eu, sei-o, estive lá,
E vi o céu abrir,
No silêncio matinal,
A porta ao vento.
Não estiveste também tu, afinal,
A beber a água envenenada do Ota-gawa,
Em Hiroshima?
Eu abracei-te lá,
Em Hiroshima.
Despedi-me de ti
Em Hiroshima.
Como é possível não te lembrares?
Quando, como eu, sentiste a mesma manhã no rosto,
E foste por ela sublimada
Num tão escuro instante
E em que, por ironia,
Dois sóis, um tão perto e outro, distante,
Iluminaram o dia.
Em Hiroshima.
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publicado por Manuel Anastácio às 22:51
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