Domingo, 14 de Janeiro de 2007
Aves e ovídios

Portal lateral do Mosteiro de Vilar de Frades (Areias de Vilar) - foto minha, em Creative Commons

Se há imagem que me intriga entre os granitos que vejo aqui pelo Norte, nos capitéis e nos portais de Igrejas são as figuras humanas ladeadas de um par de pássaros que lhes depenicam o corpo (mais especificamente a cabeça e a zona dos ouvidos). Este género de iconografia é comum já no Românico e manteve-se até tarde, sendo muito frequente no Gótico final (vulgo Manuelino). Semelhantes "aves devoradoras" (serão, de facto, devoradoras?) aparecem, sei-o eu, algures na Sé de Braga (não me lembro onde, mas sei que na altura fiz uma certa associação entre a escultura e Santo Ovídio de que falarei mais à frente) e em São Pedro de Rates. Sabemos que os religiosos portugueses sempre foram amigos de sincretismos religiosos - coisa bonita, não fosse a confusão que faz germinar entre as mentes dos fiéis analfabetos, que vão assimilando a coisa de forma poética e pouco teológica. Para meu gáudio (que gosto destas fantasias populares), indiferença de muitos dos religiosos institucionais (que julgam que Lázaro já se contenta com as migalhas que lhe caem da mesa farta) e para desespero dos missionários que se esforçam por ensinar a religião como ela é...

Camilo Castelo Branco, no já aqui citado "O Santo da Montanha" (a que voltarei mais tarde), descreve com alguma minúcia as festas do "Corpus Christi" em Braga, a 24 de Maio 1687. Se há pormenores que me escapam (e que também escapavam a Camilo) como a "serpe" que vinha atrás da Cruz da Confraria, a qual seria, tão somente "uma bicha festiva aos rapazes" (seja lá o que isto quer dizer), outros parecem-me pintados com todas as cores - pena que eu não tenha paciência nem tempo para fazer um OCR ao capítulo de que aqui falo. Muitas são as referências mitológicas que, já na altura, se utilizavam para explicar os mistérios da fé, para complicação das almas estupefactas que se alcandoravam das varandas do Campo da Vinha, como o autor deliciosamente descreve. Um dos números, o "Triunfo Eucarístico" constava da representação de um bailado-drama cujas personagens seriam Apolo e Latona - onde estas duas últimas personagens assumiam, respectivamente, o papel do Divino Sacramento e da Virgem a calcar a Serpente demoníaca. Ora, se tais identificações eram consideradas de grande piedade, tudo me faz crer que o mito de Prometeu, cujo fígado era repetidamente devorado por uma águia ou abutre, era aqui, também, tomado de forma simbólica. Os portais, seguindo a milenar tradição que remonta aos monumentos castrejos, não deveriam ser apenas a decoração de uma entrada, mas um objecto sacralizador da passagem do espaço público para o espaço interior e sagrado da Igreja - ainda que os mestres cantoneiros se dessem, por vezes, a liberdades obscenas que ou passavam despercebidas ou recebiam uma simples indulgência dada pelo desprezo (ou conivência) dos religiosos em relação assuntos de pedra talhada.

O tema das aves devoradoras pode relacionar-se facilmente com o sacramento da Eucaristia - o que pode explicar a forma cordata como o homem segura, aqui, os dois pássaros que dele se alimentam, assim como Cristo dá o seu corpo aos fiéis que desta forma comungam com o mundo espiritual de que as aves são símbolo. De facto, o tema das aves que debicam uma taça é igualmente frequente, neste caso, simbolizando o sangue de Cristo. Note-se que as aves têm um lugar privilegiado no espectro de animais presente nos bestiários medievais, inclusive em textos moralistas, como no "Livro das Aves" do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

Contudo, o meu fascínio por estas figuras tão presentes nos templos nortenhos liga-se à figura de Santo Ovídio, terceiro bispo da Sé de Braga, que se tornou santo protector das doenças de ouvidos pelo simples facto de ter um nome que soa a ouvidos... Não consta que tivesse feito, em vida, algum milagre entre os surdos. Documentos hagiográficos do século XVI descrevem-no como cidadão romano nascido na Sicília com o nome de "Auditus" e que foi enviado para Portugal pelo papa Clemente I no ano de 95. Terá sido martirizado em 135. Designado de "Ouvido" pelas gentes, que assim decidiram aportuguesar o seu nome em latim, foi novamente baptizado no século XVI e XVII como Ovídio, que seria um nome mais bonito que o de um simples apêndice da cabeça humana. A lápide sepulcral, que antes trazia gravado "† ossa b. Audit. Episcopi" foi, então, mudada para " † ossa s. Ovidii tertii bracarensis episcopi". Entretanto, os ex-votos em forma de orelhas de cera acumulam-se na Sé e, ao que parece, os surdos faziam fila para enfiarem as orelhas em dois furos que existiriam no túmulo episcopal.

Como as aves parecem, tantas vezes enfiar os bicos nas orelhas da figura humana que compõe o eixo de simetria destas composições, haverá aqui algo de propiciador para o milagre da cura da surdez? Talvez sim, provavelmente não. Fica apenas registado que me ocorreu.
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publicado por Manuel Anastácio às 22:44
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1 comentário:
De Poesia Portuguesa a 15 de Janeiro de 2007 às 23:45
Acabei de postar o poema que atrevidamente levei daqui. Apesar de dizer que "levava" a imagem, acabei por colocar uma a meu gosto. Bem... "roubei-lhe" também uma música, mas como gosto imenso da que lá está... acho que fica essa...

Grata pela partilha.

:-)))

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