Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007
Secura

Hortênsias ou Hidrângeas, conhecidas no Minho como "Granjas". Natal de 2007. Lugar do Monte, Escudeiros, Braga. Foto minha, em Creative Commons

Sinto-as secas, às palavras.
Sinto-as secas, àsperas.
Mas quentes.

O silêncio, esse,
É húmido,
Secreto.
E frio.

É frio: o silêncio, e a Lua.
É fria, gélida, a minha mão. É fria a tua.
É fria a borda da cama,
A ponta do lençol
E as pontas dos dedos roxos da madrugada.

É fria a parede, frio o chão,
Fria a pele nua do orvalho onde te banhas.
São frios estes silêncios de água e pedra.
Frio o silêncio de quem espera
E não encontra.
Frio o quarto onde as palavras se gritam
E, gélidas, se condensam em gotas
Sobre a fria superfície central dos teus olhos
Onde afluem os quentes afluentes do Aqueronte.
Frias são as mais quentes das minhas palavras,
Porque são secas,
Ásperas.
Como elas são,
Sem a suave humidade dos lábios que se molham
No sacro cálice do segredo.
Palavras, como elas são
Antes de serem ditas:
Quentes, secas, ásperas.
Malditas
Por serem quentes.
Abençoadas
Por serem frias
Como o silêncio.
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publicado por Manuel Anastácio às 22:56
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1 comentário:
De Maria Helena a 13 de Janeiro de 2007 às 12:43
Gosto tanto...

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