Terça-feira, 29 de Março de 2005
O Fantasma
Tenho um fantasma em casa. Tenho mesmo. Um fantasma erudito que passeia com os livros, os CD-ROMs de um lado para o outro sem dar cavaco a ninguém. Estou a alguns passos do castelo de Guimarães, por isso, é provável que o "locus" de São Mamede - a Batalha definidora da nacionalidade portuguesa tenha sido aqui mesmo. As fundações da casa podem, certamente, assentar em terra que se encharcou no sangue de quem defendia o filho ou a mãe. A verdade é que ninguém sabe ao certo o local. Mas pode ter sido aqui. Por isso, candidatos a fantasma não faltam... Junto a casa tenho uma ribeira mínima que há cem anos atrás era um rio onde se pescava e tudo. Talvez seja um pescador de peixinhos de rio que por aqui deambula (não pode ser nenhum marinheiro truculento como o "Fantasma apaixonado" do filme do Joseph Leo Mankiewicz, é certo)... É normal. Em pequeno, ouvia a minha mãe a contar a história da menina que morreu sem receber uma máquina de costura que lhe tinha sido prometida em vida... O fantasma era sobejamente conhecido na aldeia (e não só - faz parte do imaginário colectivo da zona centro de Portugal em geral). Toda a gente conhecia e já tinha ouvido claramente os sons da máquina a trabalhar noite fora e da tesoura a pousar no tampo - claro que ninguém tinha coragem para verificar a origem do barulho, mas toda a gente jurava a pés juntos que era verdade... Eu, claro, não acreditava, até ter o meu fantasma doméstico, mais dado às novas tecnologias. Claro que cada um tem o seu tipo de fantasma. Um bêbedo da terra, cujo nome já não me lembro bem, viu, numa meia noite ou coisa que lhe valha, na Cruz Carril (um cruzamento de estradas - o que mais podia ser? Um local no meio de um pinhal, sem nada à volta a não ser a massa branca de uma paragem de autocarros), um fantasma mais divertido -talvez com os copos... Viu (juro que não estou a inventar - se alguém inventou alguma coisa, foi o tipo, não eu) "uma bicicleta sem rodas a andar". Asustou-se, meteu-se pinhal adentro (lugar sinistro, eu sei, mas as meninas dos filmes de terror não fazem o mesmo?). Aterrado, encostado a um pinheiro, ouviu alguém a rir-se na copa da árvore. Agastado com o riso, já que preferia algo de mais lúgubre, foi a casa, pegou num machado e, bastante mais tarde, voltou para cortar o pinheiro, sem dar satisfações ao dono... Supostamente, haveria um pano preto agarrado à ponta da árvore - sinal de luto, mas pouco esclarecedor quanto às intenções espirituais da alma penada. Na mesma Cruz Carril, calhou ao Chico da minha rua (rua de infância - não esta aqui em Guimarães) encontrar um círculo de bruxas - tudo mulheres da terra, num grande regabofe. Estou a cometer uma indiscrição, já que não deveria contar isto a ninguém - foi-me pedido, com muita seriedade, pelos filhos do Chico, meus amigos de infância, há não sei quantas décadas atrás (não são assim tantas). O Chico conheceu as mulherzinhas todas que o ameaçaram de todo o género de desgraças se este viesse a revelar a identidade de uma que fosse... Se ele revelou o nome de alguma, não foi a mim... Houve também o Esquinsito (diminutivo de Joaquim) que levou uma estalada de uma mão fria saída de um marmeleiro no caminho ermo que levava à igreja velha (velha mesma, não havia nada de antigo na minha terra, a não ser os fantasmas, mesmo). Todos tinham a sua história de fantasmas. Eu estive perto de ter a minha, quando, naquelas tardes de inverno em que anoitece cedo, vi um corpo a sair da valeta numa estrada sem iluminação que ligava a paragem de autocarros até à minha rua - ao longo de campos salpicados de oliveiras cujos ramos desenhavam padrões móveis de sombras, como macacos a saltar de galho em galho. Era, afinal, um velhote escanzelado da Ribeira da Brunheta (a uns dez quilómetros dali) que tinha caído da bicicleta e adormecido na lama, a meio quilómetro da taberna (não sei como fez, depois, os outros nove quilómetros e meio)... Enfim, não tive fantasmas... Até que, por circunstâncias pouco amigas da narrativa curta, descobri que tenho um fantasma que gosta de investigar e... por incrível que pareça, não pára só cá em casa - gosta de sair. Talvez tenha aprendido com o Dom Quixote. Depois de ter andado a investigar as enciclopédias da casa (talvez me tenha também andado a "atentar" na wikipédia), acho que decidiu sair à aventura com o Dom Quixote e com o Sancho, rua abaixo, a caminho das terras que povoam os livros do Camilo Castelo Branco e da Agustina Bessa Luís... E voltou, de novo. Não sem antes deixar pousado junto ao sofá o segundo volume do Dom Quixote, depois de eu o ter procurado meses (e já ter equacionado comprar uma outra edição)... É: eu não rezo ao Santo António para achar objectos perdidos... Afinal, se é o fantasma que os tem, há-de ser ele a devolvê-los. Não me parece que o tipo sofra de cleptomania...
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publicado por Manuel Anastácio às 02:41
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De Paulo Brabo a 4 de Abril de 2005 às 02:00
Ah, os fantasmas eruditos são os melhores - mas não os são todos? O meu sumiu-me com o primeiro volume da Divina Comédia, com as ilustrações de Doré (oh) e só me devolveu-o na prateleira mais de um ano depois. Passei tardes e tardes procurando o volume, mas em vão. Até que o remorso pegou talvez a alma penada - que as almas penadas remorso devem ter algum, pelo menos os remorsos próprios da erudição. Isto é, talvez passem a eternidade a reescrever livros que nos parecem já perfeitos.
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