Quinta-feira, 4 de Janeiro de 2007
Blasfémia

Vilarinho das Furnas

Sou tão letras!
Quem me dera ser figuras.
Números.
Estruturas.
Mas não.
Sou letras.
Uma após outra.
Dígitos que me substituem a alma.
Nem sequer sou caligrafia.
Bem o gostaria.
Não.
Sou letras.
Na melhor das hipóteses,
Sou uma frase.
Burilada, dizem...
Alguém sabe o que é um buril? Eu não.
Mas sei que os homens do Paleolítico já os faziam.
Ou seria do Neolítico?
Não sei.
Só sei que sou letras.
Penso em letras.
À procura de uma frase.
Até posso pensar que já a encontrei.
Mas as frases atraiçoam.
Cospem-nos na cara.
Mais ainda quando pensamos que existe entoação.
Mas não.
Não há nada.
Nem Verbo.
Sou letras.
Eu,
Aquele
Que é Quem É.
Uma Blasfémia.
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publicado por Manuel Anastácio às 22:49
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8 comentários:
De Inês Ramos a 5 de Janeiro de 2007 às 09:29
Bravo!
De Manuel Anastácio a 5 de Janeiro de 2007 às 11:56
Obrigado. É bom ouvir tal Bravo vindo de uma embaixatriz da Poesia...
De Turmentus a 5 de Janeiro de 2007 às 10:12
a poesia é isso mesmo...um poema
De Inês Ramos a 5 de Janeiro de 2007 às 12:15
Não sou uma embaixatriz, sou apenas uma rosa, senhor... Vermelha.
:-)
De artur a 5 de Janeiro de 2007 às 21:02
Por vezes as palavras atingem-nos como murros no estômago...
De Jofre Alves a 5 de Janeiro de 2007 às 21:33
Passei para ver como ia o Ano Novo, e com agrado constato que a qualidade é a de sempre, igual ao ano anterior, sendo imprescindível vir aqui. Resta desejar Bom Ano e óptima semana, e já agora, faça o favor de ser feliz.
De Paulo Hasse Paixão a 7 de Janeiro de 2007 às 01:30
É muito difícil deixar um comentário a este excelente bocadinho de lírica (esta é a segunda tentativa). Mas, mesmo assim, arrisco: eu, que também sou letras, que também não sei o que é isso do buril, que também sou traído pela intriga das frases, que também não chego a ser verbo, te digo que sonho em ser números. Os números não precisam de entoação nem se rendem ao desenho caligráfico. Os números são leais e são do concreto. Não guardam heresias, não escondem blasfémias: existem apenas.
De Manuel Anastácio a 7 de Janeiro de 2007 às 12:26
E que posso eu dizer deste comentário? Obrigado por estas palavras. Os números ainda não servem para determinadas coisas...

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