Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006
As Pequenas Memórias

Pormenor de "As Tentações de Santo Antão" de Hieronymus Bosch (1450 – 1516) - Museu Nacional de Arte Antiga

Já depois de ter começado aqui as minhas recordações de infância, confesso, comprei o último livro do Saramago. Eu sei, eu sei... Hoje em dia, dizer que se leu o último livro do Saramago é quase tão mau como dizer que se leu o último do Paulo Coelho, do Santana Lopes (nome interessante de incluir nesta lista, tendo em conta o termo de comparação) ou da mulher do Pinto da Costa. Fica bem ignorar o Saramago pelo que ele escreve, mas cai bem bater no ceguinho pela arrogância que o senhor vai demonstrando nas suas entrevistas. Eu sou daqueles que vê na arrogância de Saramago apenas um sinal da sua humanidade - os senhores sempre muito modestos e conciliadores parecem-me sempre muito suspeitos. E, sinceramente, espanta-me o sururu que se levanta entre tantos comentadores das suas entrevistas a respeito de tudo. Muitas vezes, quando ainda não tinha acesso, como hoje tenho, às prontas reacções da opinião pública via blogosfera, ao ler os "Cadernos de Lanzarote", quando se me deparavam uns daqueles momentos tão saramaguianos que consistem em dizer "que grande bomba lancei eu hoje entre os intelectuais portugueses", "que grande polémica se irá instalar à minha conta", "os rios de tinta que hão de correr à conta do que eu disse", parecia-me tudo isso muito pouco provável. As asserções de Saramago - as "polémicas" - pareciam-me apenas claras e rasteiras. Mas parece que Saramago conhece melhor a opinião pública do que eu. O pessoal irrita-se, de facto, com o que ele diz! Uma simples metáfora, bem aplicada, como aquela do David a derrotar o Golias com uma bazuca (ou seria apenas uma pistola?) foi, quase imediatamente, considerada uma tirada antissemita!... Claro que há outra estratégia, que é atacar Saramago pelo que ele terá ou não feito no Diário de Notícias. Eu sei pouco sobre o caso. Mas, para mim, Saramago é mais um escritor que um político. E fico-me nesta. Se é verdade que não delirei com "As Intermitências da Morte", nem com o "Ensaio sobre a Lucidez", nem com "O Homem Duplicado", a verdade é que não me arrependo nada de os ter lido. Quanto a "As Pequenas Memórias", a história é diferente. A sua única arrogância consiste na vontade de perpetuar aqueles que nunca saberão que o foram, transfigurando-os em constelações luminosas sobre um fundo negro, ainda que a sua luz seja apenas a da mais opaca e incongruente humanidade. Sem nos precavermos, somos atirados para confissões dolorosas e, por vezes, abjectas. As primeiras experiências sexuais, a mulher embriagada que entreviu a masturbar-se, a sádica experiência a que foi submetido por um grupo de rapazes, quando vivia em Lisboa... E fico a pensar numa das passagens de "Os Cadernos de Lanzarote" onde o autor reage de forma brusca a uma simples menção, por parte de um amigo, quanto ao seu chão com juntas pintadas a chá (se isso lhe feria a privacidade, que dizer agora?). A linguagem destas memórias, por sua vez, atinge, nalgumas frases, a mais cristalina das perfeições. Pode haver quem não goste. Eu compreendo. Mas eu gosto. E não resisto a copiar para aqui as cordilheiras que me rasgaram a alma, entre as planícies de aluvião e lodo fértil da Azinhaga.

"Antes do ponto em que teria de abandonar a estrada para  meter a corta-mato, o caminho estreito por onde ia pareceu terminar de repente, esconder-se atrás de um valado alto, e mostrou-me, como a impedir o passo, uma árvore isolada, alta, escuríssima no primeiro momento contra a transparência nocturna do céu. De súbito, porém, soprou uma brisa rápida. Arrepiou os caules tenros das ervas, fez estremecer as navalhas verdes dos canaviais e ondular as águas pardas de um charco. Como uma onda, soergueu as ramagens estendidas da árvore, subiu-lhe pelo tronco murmurando, e então, de golpe, as folhas viraram para a lua a face escondida e toda a faia (era uma faia) se cobriu de branco até à cima mais alta. Foi um instante, nada mais que um instante, mas a lembrança dele durará o que a minha vida tiver de durar."

"A avó Carolina morreu quando eu tinha dez anos. Minha mãe apareceu uma manhã na escola do Largo do Leão com a infausta novidade. (...) Lembro-me de ter olhado nesse momento o relógio de parede que havia na sala de entrada, por cima de uma porta, e, como alguém que conscientemente trata de recolher informações que poderão vir a ser-lhe úteis no futuro, pensei que deveria fixar a hora."

"Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa, eu impante como se conduzisse, pelos ares, atado a um cordel, o mundo inteiro, quando, de repente, ouvi que alguém se ria nas minhas costas. Olhei e vi. O balão esvaziara-se, tinha vindo a arrastá-lo pelo chão sem me dar conta, era uma coisa suja, enrugada, informe, e dois homens que vinham atrás riam-se e apontavam-me com o dedo, a mim, naquela ocasião o mais ridículo dos espécimes humanos. Nem sequer chorei. Deixei cair o cordel, agarrei-me ao braço da minha mãe como se fosse uma tábua de salvação e continuei a andar. Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo."

"Conversei com a Alice, que me recebeu bem, mas sem demasias, dancei com ela (se àquilo se podia chamar dançar, guiava-me ela mais a mim do que eu a ela, e tenho a suspeita - se não quiser dar-lhe antes o nome de certeza - de que, em certa altura, fez um gesto resignado para uma amiga que dançava perto). Por fim, já tarde (hoje sei que foi aquele gesto que me fez renunciar à Alice para sempre), despedi-me vencido." -
passagem esta que antecede, cronologicamente, apenas algumas horas, a passagem, acima, da faia.

"Puxei, fui puxado, mas a luta não durou muito. A linha estaria mal atada  ou apodrecida, com um esticão violento o peixe levou tudo atrás, anzol, bóia e chumbada. (...)  Foi então que me ocorreu a ideia mais absurda de toda a minha vida: correr a casa, armar outra vez a cana de pesca e regressar para ajustar contas definitivas com o monstro. Ora, a casa dos meus avós ficava a mais de um quilómetro do lugar onde me encontrava, e era preciso ser pateta de todo (ou ingénuo, simplesmente) para ter a disparatada esperança de que o barbo iria ficar ali à espera (...) Voltei ao sítio, já o Sol se pusera, lancei o anzol e esperei. Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água."

"Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer." Assim mesmo. Eu estava lá."
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publicado por Manuel Anastácio às 22:25
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2 comentários:
De Paulo Hasse Paixao a 12 de Dezembro de 2006 às 19:50
Sou daqueles para quem Saramago é uma alminha dual. Temos Saramago, o genial romancista. E temos Saramago, o homem horroroso. Nunca lhe vou perdoar a defesa do terrorismo, a figura de grande censor do PREC e a diarreia ideológica (muito inconsistente). Mas, na exacta medida, nunca deixarei de lhe ser mil vezes grato por O Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A História do Cerco de Lisboa, Todos os Nomes e o Ensaio Sobre a Cegueira.
Como é que esta criatura consegue subir à mais inacessível fraga da glória para descer de imediato ao porão da infâmia absoluta é que me escapa :p
De Raquel a 9 de Dezembro de 2007 às 21:52
Acabei agora de ler o livro "As pequenas memorias" e ao ler o teu comentario sobre o livro não pude deixar de comentar o post.
Concordo com tudo aquilo acima referido e acrescento ainda que ao ler este livro dá até vontade de escrevermos nós próprios as nossas memórias.
Vou tirar algumas informações do teu artigo, se não te importares :D

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