Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2006
Professores III


Lupinus luteus - Otto Wilhelm Thomé, in Flora von Deutschland, Österreich und der Schweiz - 1885

Na minha quarta classe, mudei para a escola "velha". O edifício caracterizava-se por um traço arquitectónico próprio do Estado Novo. A Senhora Professora, Josefina de seu nome, vinda do Sardoal, era dona de métodos antigos, mas eficazes. Na primeira aula, mostrou a régua descomunal, de madeira, antes de a fechar na gaveta da secretária. Claro que desconhecia as mais elementares leis da Física. Deveria saber que, quanto maior a régua, menos dói a reguada porque a mesma pressão é distribuída por uma área maior. Mas a força da imagem foi suficientemente localizada na retina para que, até ao final do ano não tugíssemos nem mugíssemos. Foi um ano de pura tranquilidade. A régua não saiu da gaveta, apesar de a senhora, já com uma certa idade, nos permitir circular pela sala quando entendêssemos, desde que fosse para aprender alguma coisa. Um jogo muito básico que os alunos acabaram por inventar consistia em especarmo-nos em frente a um mapa de Portugal - daqueles velhinhos, enrugados e com os caminhos de ferro a destacado. Um dizia uma terra, ao acaso, e os outros procuravam entre as letras minúsculas. Assim, quem sabe, li, provavelmente, pela primeira vez o nome de Mértola, do Gavião, de Joane, Aveiras de Cima, Alandroal, Monsaraz e outros locais que viriam a inscrever-se na rota da minha vida, de forma tão aleatória quanto a que usávamos para escolher localidades do Norte ou do Sul. Claro que a professora era muito nacionalista - não daquelas nacionalistas xenófobas, entenda-se, era mais uma nacionalista orgulhosa do passado que não tivémos,  ainda que não faça mal pensar que sim: graças a ela tive acesso à História de Portugal tal como era transmitida naqueless tempos gloriosos em que a História eram histórias . Enfim, mais mitologia que história. Mas diga-se, em abono da verdade, que era esta a história que gostávamos de ouvir. Era esta a história que levávamos ainda para os recreios, fingindo guerras e reconquistas, julgando cada um ser um D. Afonso Henriques gigantesco e com uma espada tão pesada que só ele conseguia levantar. Tretas. Mas belas tretas. Hoje, é só subir uma ladeira, a partir de minha casa, e depararo com a famosa estátua do nosso primeiro rei, concebida pelo Soares dos Reis e coberta de verdete e com a Igreja de São Miguel do Castelo ao fundo, onde, conta a lenda, teria sido baptizado. Fenomenal acontecimento esse, de se ser baptizado numa igreja que ainda não existia, pois remonta apenas ao século XIII. Ao lado da estátua, outro logro nacionalista: o Paço dos Duques, com as suas altaneiras chaminés e salões reinventados pelo arquitecto Rogério Azevedo, em 1937, ao gosto monumental do Presidente do Conselho, António Oliveira Salazar (que aí estabeleceu residência oficial, nas suas poucas viajens para estas bandas), e de acordo com o que teriam sido, talvez, muito talvez, os gostos dos dois primeiros Duques de Bragança. Mas, naquele ano, ainda acreditava que podia dizer (e pensar) que os portugueses  eram uma raça de heróis e que as pedras venerandas o atestavam. Hoje sei que somos da mesma massa que os outros.

Foi o ano em que o recreio da escola dava para um campo amarelo de lupino incandescente. O ano em que íamos apanhar girinos quando a professora faltava, chegando mais tarde a casa do que se tivesse havido aula. O ano em que, como Moisés no deserto, furei um muro com a ponta do guarda-chuva e começou a jorrar uma fonte de água que durou durante o ano todo (creio que, mais tarde, o dono entubou-a na direcção de um tanque). Foi um belo ano. Que durou mais que um dos anos de agora, nas contas de uma clepsidra infantil.

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publicado por Manuel Anastácio às 19:31
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2 comentários:
De José Narciso a 8 de Dezembro de 2006 às 22:01
Passei para desejar óptimo fim-de-semana e apreciar esta interessante página, onde impera a qualidade e bom gosto. Gostei imenso deste artigo, precioso. Até breve.
De Artur a 9 de Dezembro de 2006 às 19:43
Deliciosas, estas tuas reminiscências de um bucólico tempo perdido. Andas a alambazar-te com madalenas e cházinho, está-se mesmo a ver...

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