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Terça-feira, 5 de Dezembro de 2006
As Bodas de Fígaro

Cena de "As Bodas de Fígaro" (Teatro da Trindade/Inatel)

Fui ver, dia 2 de Dezembro, no Centro Cultural Vila Flor, aqui em Guimarães, a versão em português de "As Bodas de Fígaro", nascida da adaptação a cargo de Nuno Côrte-Real, e com encenação de Maria Emília Correia. Claro que preferia ter ouvido tudo no italiano original, mas a adaptação não estava mal de todo e a música até encaixava. Não sendo um produto destinado aos apreciadores mais exigentes do género (não sei bem se faço parte desse grupo), o espectáculo, que já foi classificado como uma "Pop-opera", acertou em cheio no objectivo de dar ao público umas boas três horas e tal de divertimento puro, muitos sorrisos e algumas gargalhadas. A opção por uma encenação anacrónica e repleta de referências absolutamente alheias à história original não é propriamente a que mais me agrada, mas saí satisfeito com a tentativa. Aliás, faltam mais destas tentativas no deserto cultural português que, sem querer embandeirar pelo lado dos Ruis Rios de má memória, tem empestado os palcos apenas com produções para intelectual ver. Se, de vez em quando, algum filme de qualidade tem bom acolhimento nas bilheteiras, é porque existe já um público que se fixou nas salas à conta de espectáculos de cariz mais popular. Querer obrigar o povo a gostar logo de Ingmar Bergman, Visconti e Manoel de Oliveira é absurdo. Há uns anos, foram muitos os professores de Português que tiveram a infeliz ideia de levarem os seus pupilos a ver o "Non, ou a Vã Glória de Mandar". Claro que enraizaram apenas nestes o ódio puro ao cinema português. Um adolescente não está interessado em extasiar-se perante o espectáculo de um plano interminável de uma árvore logo no início do filme; não consegue compreender, muito menos, a força trágica do olho arregalado de pavor no fim do mesmo. Para o adolescente fica apenas a má impressão dos actores que parecem simplesmente estar a representar mal apenas porque têm diálogos inverosímeis e empastados por uma época e uma maneira de reflectir. É preciso começar pela sedução. Ao menos, o cinema tem meios de sedução tentaculares. Por alguma razão existem mais cinéfilos a amar as grandes obras primas do cinema do que melómanos que gostam de ópera. Não é porque o cinema é mais fácil de digerir, mas porque o cinema se alojou no nosso quotidiano. A ópera não - continua a ser vista como um privilégio de classes altas - e, pior, um privilégio que se dispensa com muito gosto. Houvesse mais versões destas: agradáveis, simpáticas, económicas, e já terá teríamos um público embrionário disposto a voos mais amplos. José Corvelo, como Fígaro, esteve bem, Lara Martins, no papel de uma Susana aparentada à Emília do Sítio do Picapau Amarelo, encantou com a sua desenvoltura, Teresa Gardner, como condessa, conseguiu alguns bravos após a primeira ária do segundo acto; Mário Redondo, feito conde feudal, como que retirado de um filme de Akira Kurosawa de baixo orçamento (falo apenas do guarda-roupa, não da sua prestação) conseguiu sintetizar o melhor do espectáculo, ou seja, um correcto compromisso entre o canto e a representação. Os cenários, simples e garridos, kitsch que baste, a roçar, por vezes o infantil (algo a lembrar "As pistas da Blue"), também não estavam mal - o dossel do quarto nupcial, o jogo de escadas na trama nocturna no final da ópera e a passagem entre o primeiro e segundo acto com alguns malabarismos simpáticos pelo meio mostram bem como se pode fazer muito com pouco. Creio que foi a última representação. É pena. Haveria, com certeza, mais público no resto do país pronto a deixar-se levar por um sorriso. Porque, de Mozart, nesta adaptação, ressuma essencialmente o sorriso e a simpatia. Não foi um Grande Espectáculo de Ópera. Foi, simplesmente, um Espectáculo que se devia repetir mais vezes nestes moldes e que, ainda assim, merecia mais aplausos que aqueles, muitos, que recebeu. Eu levanto-me com respeito. E fico à espera de mais.
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publicado por Manuel Anastácio às 00:43
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4 comentários:
De Artur a 5 de Dezembro de 2006 às 23:21
De facto é preciso ter estômago para se apreciar as melhores coisas da vida. Noutra analogia, há que ver que até o melhor dos vinhos é sumo de uva azedo... é sempre preciso aprender a gostar.
De Ana Ramon a 6 de Dezembro de 2006 às 13:06
Às vezes também sou surpreendida tal como tu. Lembraste-me dos tempos em que frequentava o S. Carlos (mais tarde já com legendas como nos filmes) e o Coliseu. Era mais agradável ir ao Coliseu. Era um público mais simples, mais generoso mas também exigente com os artistas. As pessoas iam cedo para apanharem os melhores lugares na Geral e muitas vezes vi repartir os pastéis de bacalhau, os rissóis e croquetes, enquanto não começava o espectáculo. No S. Carlos o ambiente tornava-se mais frio ainda que todos se apresentassem com as suas melhores farpelas que podiam incluir casacos de peles em noites amenas, vestidos a arrastar pelo chão, smokings, champanhe no intervalo, perfumes pesados no ar e muitos ramos de flores. Mais tarde esse ambiente de elites perdeu-se um bocado, felizmente. Ando aqui às voltas a ver se me lembro do nome da ópera que vi no Coliseu, em que uma das cenas era com a Mara Zampieri , tão criticada por uns e adorada por outros, arrastando-se pelo chão (uma posição dificílima para cantar), despedindo-se da vida num pianíssimo quase extremo mas perfeitamente audível por toda a sala. Quando o último suspiro finalizou a ária, o público extremamente comovido, deu um berro extraordinário, saltando num tempo só e deitando a casa abaixo com as palmas frenéticas, os assobios e os gritos que penso cá para mim que no mínimo devem ter assustado a cantora nos primeiros segundos antes dela se aperceber que tinha conseguido criar um momento de total encantamento. Isto não seria possível com o público do S. Carlos. Mas para se chegar aqui, tem que realmente haver apetência, tem que se investir em formas de atrair a população, em vez de se investir só no futebol, floribelas e quejandos. Coitados de nós todos!
De mariafrade a 7 de Dezembro de 2006 às 14:43
Embora diga que a ópera é para intelectuais, deu-se então uma reviravolta no público consumidor desse espectáculo que tradicionalmente era de natureza muito popular.
De Manuel Anastácio a 7 de Dezembro de 2006 às 19:31
Coisa que o público popular de hoje desconhece, de facto... Mas em Itália, por exemplo, a ópera italiana continua um género popular - bem como acontece, aqui na vizinha Espanha, com a Zarzuela.

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