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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006
Buscas (des)pedidas: "Veneno para andorinhas"

Andorinhas num ninho - foto de Immanuel Giel (2004), em GFDL

Alguém entrou no meu blogue à procura de "veneno para andorinhas". E isso é como entrar no Blogue do Gandhi à procura de actos de terrorismo para atingir determinados fins. Eu sei que a primeira coisa que temos de saber sobre todas as ferramentas informáticas é que são, essencialmente, burras, mas há limites. As andorinhas são, de todas as aves que marcam o nosso tempo cíclico europeu, aquelas que melhor encarnam a poesia da fecundidade e da vida. Para não falar na quantidade astronómica de moscas a que nos poupam. Está bem que cagam as paredes todas, abaixo dos beirais onde decidem colocar os seus ninhos de lama. Está certo que os montes de esterco que se formam nas varandas, repletos de exosqueletos quitinosos, não são agradáveis de ver. Mas será tão mais difícil limpar o chão do que colocar veneno em pontos estratégicos para que estes benévolos seres deixem de conspurcar as lindas superfícies brancas, tão caras à arquitectura moderna? Aproveito o momento para retomar a minha reflexão sobre o Kitsch. Querer matar andorinhas porque estas cagam paredes (não concebo outra razão para querer assassinar estes arautos da Primavera) é, na pior acepção da palavra, o extremo do Kitsch. Algum arquitecto, daqueles que detestam amores-perfeitos, dirá que as andorinhas é que são Kitsch e que só a Floribella se lembraria de as defender. Pois bem, vou socorrer-me das palavras de Milan Kundera para sustentar que as andorinhas têm todo o direito de marcarem com listas de merda as lindas maquetes dos nossos arquitectos (incluindo os "arquitectos" conhecidos como "desenhadores"), a bem do bom gosto e do bom senso - e da inteligência.

No capítulo 3 da sexta parte de "A Insustentável Leveza do Ser", depois de o narrador expôr as suas apreensões infantis quanto  ao pensamento blasfemo de imaginar Deus Nosso Senhor (feito à nossa imagem - desculpem, é ao contrário, enganei-me) com intestinos, este diz:

"Os gnósticos antigos sentiam-no tão claramente como eu, aos cinco anos. Para acabar de uma vez por todas com este maldito problema, Valentino, gão-mestre da Gnose do século II, afirmava que Jesus 'comia, bebia, mas não defecava'.

A merda é um problema teológico mais difícil do que o mal. Deus ofereceu a liberdade ao homem e, portanto, pode admitir-se que ele não é responsável pelos crimes da humanidade. Mas a responsabilidade pela existência da merda incumbe àquele que criou o homem, e só a ele."

O capítulo 4 é interessante, e remete para a relação entre teologia e escatofilia e dará tema para uma postagem futura. Passemos ao capítulo 5:

"Todas as crenças europeias, sejam elas religiosas ou políticas, têm por detrás de si o primeiro capítulo do Génesis, do qual se infere que o mundo foi criado tal como devia ser, que o ser é bom e, por consequência, que procriar é uma coisa boa. Chamemos a esta crença fundamental acordo categórico com o ser.

Se, ainda recentemente, a palavra merda era substituída nos livros por três pontinhos, não era seguramente por uma questão de moral. Apesar de tudo, ninguém pode pretender que a merda seja imoral! O desacordo com a merda é metafísico. O instante da defecação é a prova quotidiana do carácter inaceitávelda criação. Das duas, uma: ou a merda é aceitável (então porque é que se fecham na casa de banho?) ou a maneira como nos criaram é que é inadmissível.

Daqui se infere que o acordo categórico com o ser tem como ideal estético um mundo onde a merda é negada e onde todos se comportam como se ele anão existisse. Esse ideal estético chama-se kitsch.

É uma palavra alemã que apareceu em meados do século XIX, sentimental, e que depois se vulgarizou em todas as línguas. mas a sua utilização frequente fê-la perder todo o valor metafísico original: o kitsch é, por essência, a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal como no sentido figurado, o kitsch exlui do seu campo de visão tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável."

O desejo de se viver em ambientes controlados e assépticos é velho para o ser humano. Aliás, o ser humano é, talvez, a única espécie que evoluiu graças a uma involução no que diz respeito a habilidades físicas em decorrência da sua escolha voluntária em modificar o meio em vez de aceitar a ditadura do meio no que diz respeito à sobrevivência. Em vez de sobreviver o mais forte, devido ao sentimentalismo humano, preferiu-se providenciar meios para que os mais fracos pudessem vingar e procriar. E isso só é possível isolando os mais fracos  dos perigos que o meio natural comporta. A arquitectura moderna lida com o problema de duas formas: uma, mais reflexiva e crítica, consubstancia-se na alegoria de "Os Prisioneiros Voluntários da Arquitectura", que integra o volume  "S, M, L, XL" de Rem Koolhaas - outra, mais pragmática, consiste no New Urbanism. No primeiro caso, pretende-se expor a nossa humanidade à aterradora visão de um Admirável Mundo Novo onde tudo decorre de forma limpa e organizada para que, paradoxalmente, compreendamos que o extremo da limpeza é a maior das badalhoquices. No segundo caso, quanto a mim, mais aterrador, porque não consiste em ficção, trata-se de aceitar-se explicitamente a condição de figurante num filme de Walt Disney. E isso implica, no mundo real, matar andorinhas para as substituir por um sucedâneo de plástico. Claro que os sucedâneos de plástico não migram (boa: não disseminam a gripe das aves!) logo, deixando de anunciar as estações, deixam de constituir um dos elos de ligação entre homem, habitante do tempo linear, e a Natureza, mansão do tempo circular. O elemento figurativo "andorinha" passa a ser apenas uma referência a um mundo do qual apenas se quer filtrar aquilo que parece belo.

Quando era pequena, a minha mãe julgava que as "senhoras finas" não cagavam. Quando eu era pequeno, ouvi dizer que as andorinhas eram "as galinhas de Nossa Senhora". Aprendi que quando estas voavam a rasar o chão, muitas vezes em direcção a mim, estavam a adivinhar chuva. Eram animais sagrados. Até que vi uma funcionária da escola, com uma vara, a destruir os ninhos dos beirais. Por uma razão de higiene. Desde essa altura que tenho pó à palavra higiene. Nada contra o sabão,  a água e o desodorizante: mas higiene... faz-me lembrar o cheiro gélido dos hospitais, batas brancas e muita lixívia. Veneno. Prefiro um monte de cocó de andorinha na varanda, para limpar. Faz-me lembrar que nem tudo está, ainda, perdido. Por vezes é preferível remediar a prevenir.
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 00:50
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5 comentários:
De D'Noronha a 5 de Dezembro de 2006 às 02:49
Um dia perguntei à minha avó se o papa João XXlll fazia cocô
Além de não responder, levei um belo cascudo na cabeça...
De Manuel Anastácio a 5 de Dezembro de 2006 às 02:58
É. Os cascudos são o mais forte argumento teológico para as dúvidas religiosas das crianças.
De dnoronha a 5 de Dezembro de 2006 às 22:01
Muito boa a observação. Consegui rir um pouco hoje...
De Artur a 5 de Dezembro de 2006 às 23:24
Escatologias são sempre repulsivas. Por vezes esquecemo-nos que como somos humanos
De Paulo Hasse Paixao a 8 de Dezembro de 2006 às 00:07
Post notável. Quanto ao Kundera (que muitos palermas acusam, curiosamente, de ser um autor kitsch) deixo ficar aqui uma centelha cinco estrelas que nem vem nada a propósito, tirada daquele que é, no meu simplório entendimento, o seu melhor livro - A Imortalidade:

"A soma da utilidade de todos os seres humanos de todos os tempos está inteiramente contida no mundo tal como ele é hoje. Por conseguinte: nada mais moral do que ser-se inútil."

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