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Sexta-feira, 24 de Novembro de 2006
Professores I

Pormenor de "As Tentações de Santo Antão" de Hieronymus Bosch (1450 – 1516) - Museu Nacional de Arte Antiga

Se o João Sebastião não mereceu, da minha parte, sequer um post (recebeu, isso sim, uma curta), dei comigo a pensar: está mal que ele tenha uma referência neste meu "diário" enquanto que os outros professores não têm direito, sequer, a uma leve menção. Ora comecemos pela primeira e segunda classe. A minha professora era a senhora Maria José, de Abrantes. Muito gorducha, era conhecida como "saco de batatas". Mas a alcunha maldosa era devida, essencialmente, ao facto de ser reputadamente muito severa. Apesar do 25 de Abril já ter passado há muito, ainda era frequente que os professores da primária da minha aldeia agissem com a ajuda de uma régua de madeira lascada. E ninguém reclamava. Ou melhor, reclamava, mas os professores faziam orelhas moucas e davam outra reguada. E mais nada. Ponto final... Pum. Uma vez, estava ela a passar do lado direito da minha fila (sem que eu o supusesse sequer, já que a sala estava num silêncio sepulcral, deviamente coroado, literalmente, com um crucifixo partido e abananado sobre o quadro preto de ardósia estalada no canto) quando deixei cair a minha preciosa colecção de lápis de cor da Viarco (ou lá o que era, que o dinheiro não dava para Caran d'Ache) e me debrucei para os apanhar. Claro que não sabia, enquanto os meus colegas continuavam a pintar ovinhos, com a língua meio de fora, com o cuidado de não passar do risco, que a professora estava atrás de mim. Debrucei-me para apanhar os lápis e, como na anedota do Taveira, fiquei de rabo para o ar. A professora não gostou do meu gesto indecoroso e puxou-me firmemente a orelha até ter ficado, de novo, sentado no lugar. Maleável e impiedosamente, em segundos, a sala manteve a sua dignidade de Estado Novo, ainda que os lápis se mantivessem pelo chão e as minhas bochechas redondas parecessem explodir de calor, humilhação e uma vontade de dizer que aquele puxão de orelhas era injusto!!! E era! Mas não fiquei traumatizado, descansem. Um puxão de orelhas não traumatiza ninguém, ao contrário do que sustenta a pedagogia oficial em voga. Noutra altura, no entanto, fiquei aliviado com o sentido de injustiça da professora Maria José. Alguém decidiu ficar demasiado tempo na casa de banho depois do recreio  (onde também se guardava, curiosamente, a bandeira nacional, ao lado do papel higiénico - honra seja feita a todos os que fizeram as suas necessidades em frente ao símbolo pátrio sem nunca lhes ter ocorrido qualquer ideia menos patriótica, como aconteceu a todos nós que ali compartilhávamos com as quinas imaculadas as nossas infantis diarreias). Ora, a fila para aquela pequena repartição privativa começou a aumentar e, não sei por que razão, estava tudo apertado. A professora Maria José irritou-se com a demora e mandou toda a gente sentar-se no seu lugar. Eu ficava na fila mais à direita, em frente ao quadro, na terceira fila de trás. Ao lado de uma grande janela onde, um dia, vinda de detrás da grande figueira que dava para o alpendre lateral, bateu uma andorinha que não sabia que existia um material chamado vidro, transparente. Foi ali que vi a primeira imagem do que fosse um campo de concentração. A professora começou no primeiro aluno da fila da esquerda, à frente e foi continuando a distribuir reguadas a todos os alunos. Nunca tinha recebido uma reguada. E aquele silêncio apenas cortado pelo estalar da madeira contra a pele só foi igualado num sonho em que me imaginava num autocarro, com todos os lugares ocupados, que era lentamente devorado por um mecanismo que ia esmagando lugares após lugares sem que os seus ocupantes reclamassem ou tentassem fugir, enquanto que eu esperava, no banco de trás. Lembro-me, no sonho, de uma mulher com uma criança ao colo e que, perante a morte iminente, apenas dizia "ai... ai...". A professora Maria José, depois de duas filas  longitudinais de alunos apavorados ou com as mãos já a arder, cansou-se. Olhou para a terceira fila, onde estava eu, e disse: "amanhã continuo". Não continuou. E foi assim que nunca levei uma reguada.

Pouco mais me lembro da professora Maria José. Mas, curiosamente, não a detesto. Aprendi a ler em dois anos de uma forma eficiente e limpinha. Isso valeu o clima de terror? Para os meus colegas, não sei, não posso falar por eles. Eu, por mim, não me queixo, nem me arrepio quando passo junto ao edifício quadrado e caiado, hoje ocupado por um jardim de infância. Só fico triste quando vejo que a velha acácia, junto à porta, já não existe. Foi cortada porque empatava o trânsito, dizem. Tretas. Sei que as acácias são invasivas e más para as outras plantinhas mas... aquela acácia era boazinha. Não havia o direito. Durante muito tempo era o único sorriso que tinha à entrada da escola. E, por acaso, até era um sorriso amarelo. Maravilhosamente amarelo e com um cheiro que me fez sorrir quando li, em Proust, o episódio de Odette de Crécy na Avenida das Acácias. Por alguma razão se pode aguentar o peso excessivo da escrita de Proust - de facto, creio que gostamos mais de Proust depois de o ter lido, mas depois de gostarmos, ai de quem disser mal!... Sem a professora Maria José não me teria sido possível gostar de Proust. Por isso, obrigado.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 22:48
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5 comentários:
De Ana Ramon a 29 de Novembro de 2006 às 22:54
Venho visitar-te todos os dias. Muito trabalho? Falta de genica? Vá lá.. estamos todos à espera. Um grande beijinho
De Manuel Anastácio a 30 de Novembro de 2006 às 10:23
Não é falta de genica. É final de período. Muito trabalho. Para pena minha, nem os blogs dos amigos consigo ler... Mas vou tentar roubar um tempito...
De Paulo Hasse Paixão a 30 de Novembro de 2006 às 12:48
Partilhamos a paixão por Proust. Nem sempre bem entendida. Principalmente porque muito poucos, entre os conhecedores, leram de facto o Tempo Perdido.
O episódio e a magnífica personagem de que falas levou-me no outro dia, em conversa com amigos, a uma outra obra prima - a Servidão Humana, de Somerset Maughan: Mildred, a megera fatal de Somerset é completamente Odette de Crécy. A Servidão Humana é de 1915. Proust edita o Lado de Swann em 1913. A influência do homem na literatura do século XX é criptada, mas tentacular.
Afora isto, fartei-me de levar reguadas na escola primária. Só me fizeram bem.

Abraço.
De Manuel Anastácio a 2 de Dezembro de 2006 às 13:12
"...é criptada, mas tentacular." Perfeitamente de acordo - mas diria mais: é uma influência metastática (no melhor e mais improvável dos sentidos).
De maria a 30 de Novembro de 2006 às 20:09
Só levei uma reguada na primária e achei profundamente injusto esse facto. Estava eu a deixar uma pobre colega copiar umas contas quaisquer que tinhamos levada para casa, quando a professora a apanhou em flagrante . Levou ela e levei eu. Mas eu adorava esta professora, era dura e exigente e foi ela que influenciou os meus pais para eu continuar a estudar.
Quanto ao Proust, lamento: tenho os não sei quantos volumes mas nunca li. Só sei a frase como começa: Durante muito tempo, deitei-me cedo.
Talvez vá ler um dia destes.

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